‘Caça’ do ICE contrasta com a Copa das seleções moldadas pela imigração

Na estreia da Copa do Mundo, os Estados Unidos venceram o Paraguai por 4 a 1, na sexta-feira (12). Fora o primeiro gol, os outros três da seleção norte-americana foram anotados por Folarin Balogun, filho de nigerianos que nasceu nos EUA por acaso, mas em uma época em que a política anti-imigração de Donald Trump era inimaginável em um país construído por migrantes.

A mãe dele estava em uma viagem de férias quando foi impedida de embarcar de volta para a Inglaterra, onde residia, por conta da gravidez avançada. Ou seja, um acaso fez Balogun ser elegível para defender os EUA, sendo que ainda poderia optar pela seleção da Nigéria ou da Inglaterra. Mas a situação dele não é a única.

Demais jogadores nascidos em solo estadunidense também tiveram mais opções: Mark McKenzie é filho de jamaicanos; Ricardo Pepi tem parentes mexicanos; Cristian Roldan tem ascendência salvadorenha e guatemalteca. Já Tim Weah é filho do liberiano George Weah, o único africano que conquistou o prêmio de melhor jogador do Mundo. Tim também poderia optar pela Jamaica pelo lado da mãe, ou mesmo a França, já que o pai também tem essa cidadania.

Além deles, os EUA têm no elenco jogadores que nasceram fora, mas que por conta dos pais norte-americanos escolheram a seleção do Tio Sam. São eles: Sergiño Dest (nascido na Holanda), Malik Tillman (Alemanha) e Alex Zendejas (México). Esses são apenas alguns dos casos, pois mais atletas convocados em algum momento tiveram que fazer a escolha de qual camisa defender.

Caça aos imigrantes

Essa reunião de filhos de estrangeiros nascidos no país e de filhos de cidadãos dos EUA nascidos fora contrasta com a “caça aos imigrantes” promovida pelo governo dos EUA.

Um relatório da Human Rights Soccer Alliance revela que o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) tem utilizado as partidas de futebol no país para capturar e deportar imigrantes. Conforme o documento, o governo Trump deteve e deportou, ao menos, 17 pessoas ligadas ao futebol em 2025, incluindo membros da comissão técnica, jogadores e seus parentes, ou torcedores.

“Notavelmente, nenhum desses casos envolveu indivíduos com antecedentes criminais. Muitos foram detidos durante interações rotineiras e sem problemas, como checagens de imigração agendadas, viagens para jogos ou participação em eventos públicos. Esses casos ilustram um padrão preocupante em que a participação comum em atividades relacionadas ao futebol pode resultar em detenção ou deportação”, aponta o relatório.

O texto denuncia o que chama de “fishing raids” do ICE — literalmente, “batidas de pesca”, ou operações de arrastão — e sustenta que elas convertem o cumprimento das regras em “entrapment”, isto é, em armadilhas que configurariam uma espécie de caça a imigrantes em espaços ligados ao futebol.

Assim, a organização demonstra preocupação com o que pode acontecer durante a Copa, pois o ICE não está proibido de atuar durante a realização da Copa. Com isso, possíveis excessos durante a realização do evento são uma preocupação, considerando que 78 jogos serão realizados no país e irão atrair milhares de pessoas de diversas nacionalidades — provavelmente sob o acompanhamento do ICE.

Conforme o documento, desde que Trump reassumiu a presidência, seu governo realizou mais de 400 mil deportações em seus primeiros 250 dias. Assim, de 20 de janeiro a 15 de outubro de 2025, o ICE prendeu, pelo menos, 92.392 pessoas nas cidades-sede da Copa do Mundo e arredores.Parte inferior do formulário

Sem contar as ações da ‘polícia migratória’ de Trump, os EUA já restringiram a seleção do Irã e barraram árbitro da Somália, o que ampliou a tensão da Copa.

Uma Copa diversa

A caça aos imigrantes contrasta frontalmente com a diversidade dentro de campo na Copa. A condição de Balogun chama a atenção ao se imaginar o jogo dos EUA sem os seus gols.

A situação é mais um símbolo de como a migração do mundo atual se reflete na competição. Dados preliminares da Copa, antes das alterações por contusões, indicavam que mais de 1200 jogadores convocados, quase 25% do total, nasceram fora dos países que representam.

A maioria desses jogadores optou pela seleção do país de origem de seus familiares, sendo símbolo de como a migração está presente em um mundo em que as pessoas são forçadas a migrar em busca de melhores condições de vida.

Claro que a escolha, muitas vezes, indica maior facilidade para ser convocado, ou guarda relação apenas com uma preferência pessoal. Também há casos de atletas que migraram justamente para serem profissionais, guardando assim maior gratidão ao país que os recebeu – ficando habilitados por critérios de residência e naturalização.

Sem contar o que motiva cada um, o fato é que em oito seleções a maioria dos convocados nasceu fora dos países que vestem a camisa.

Como exemplo, a seleção do Marrocos que empatou com o Brasil em 1 a 1 na estreia do torneio foi a campo com 10 jogadores titulares nascidos fora do país, a maioria na Europa. Com a substituição de Ounahi (único nascido efetivamente no país) por El Mourabet (nascido na França), os marroquinos chegaram a ficar com os 11 jogadores de linha ‘estrangeiros’ contra a seleção brasileira.

Ao todo, 19 dos 26 convocados de Marrocos nasceram fora. Estima-se que mais de cinco milhões de marroquinos vivam fora do país, a maioria em países como Espanha, França e Bélgica, sendo mais um reflexo da diáspora africana contemporânea.

Outro exemplo é Curaçao. A ilha caribenha se tornou autônoma da Holanda em 2010. Apesar disso, continua como parte do Reino dos Países Baixos. Assim, a relação entre os países é enorme e 25 dos 26 atletas convocados nasceram na Holanda.

Já a República Democrática do Congo tem 20 dos 26 convocados nascidos em países como França, Bélgica, Suíça e Inglaterra.

O movimento de ‘retorno’ para as seleções que correspondem às origens da família é um fenômeno mais recente. Antes, o mais comum — já assimilado na cultura futebolística — era ver os jogadores assumindo as cores das seleções do país em que nasceram. O maior símbolo é a França, antes com muitos jogadores de origem argelina, como o histórico Zinédine Zidane, e hoje também com representantes de outros países africanos, como Mali, Camarões, Costa do Marfim e República Democrática do Congo.

Apesar dessa seleção multicultural, a França permanece como o maior ‘exportador’ de jogadores. São 74 atletas nascidos no país que estão em outras seleções, entre elas Argélia, Haiti, Senegal, Costa do Marfim e Marrocos. Inclusive, o filho de Zinédine, o goleiro Luca Zidane, também nasceu francês, mas escolheu defender a Argélia, país dos avós paternos.

Por Murilo da Silva

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