Dersu Uzala: o encontro de duas visões de mundo no cinema de Akira Kurosawa

A dica cultural da semana é Dersu Uzala, obra-prima dirigida por Akira Kurosawa em 1975. Ambientado a partir de 1902, nas inóspitas terras da Sibéria, o filme traz no centro da narrativa a tensão entre a sabedoria orgânica e a lógica técnica de uma sociedade em vias de mercantilização. O longa-metragem, que marcou o renascimento artístico do cineasta japonês após uma grave crise pessoal em 1971, foi realizado em condições desafiadoras. Baseado nos diários de viagem do explorador e topógrafo do exército russo Vladimir Arseniev, o filme narra o encontro e a amizade que se estabelece entre o militar e Dersu Uzala, um caçador do povo Goldi que vive em perfeita harmonia com a floresta siberiana.
Dersu Uzala é a única obra de Kurosawa filmada fora do Japão. A escolha de filmar em 70 milímetros dá à floresta uma escala que a câmera comum não consegue capturar, reconhecendo, já na forma, que a natureza é cenário e também personagem com vontade e peso próprios. O diretor usa a técnica para servir à ética. A relação entre os dois homens floresce no silêncio das matas, onde o capitão aprende a enxergar o mundo pelos olhos de Dersu.
Para o caçador, o fogo, o vento e a água são seres dotados de personalidade, tratados como gente. Isso representa uma forma de conhecer o mundo onde o ser humano não ocupa o centro. Kurosawa leva essa cosmologia a sério. Um dos pontos altos é a sequência da tempestade de vento, na qual o corte frenético de juncos transforma a edição em uma coreografia de sobrevivência, demonstrando a técnica no seu melhor, a serviço da emoção pura.
O longa-metragem apresenta uma crítica social ao contrastar a solidariedade de Dersu, que deixa provisões (como lenha seca e alimentos) para viajantes desconhecidos, com a lógica mercantil que avança sobre a floresta. A incompreensão do caçador diante da malícia de um comerciante urbano, que se apropria de suas economias, expõe a violência de um sistema que reduz relações humanas a transações financeiras.
Essa transição do isolamento solidário para a exploração econômica dialoga diretamente com os dilemas atuais enfrentados pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores da educação, nos quais a pressa mercantil tenta substituir a mediação humana e a autoria docente por sistemas automatizados frios. O filme nos lembra que a técnica deve sempre servir à vida, reforçando a urgência de regular as novas tecnologias e a inteligência artificial para que estejam submetidas aos interesses coletivos, em vez de precarizar o trabalho e desumanizar as relações sociais.
Com o passar do tempo, as fragilidades da velhice e a perda progressiva da visão comprometem a capacidade de Dersu viver de forma autônoma na floresta, levando o capitão a acolhê-lo em sua residência na cidade. No entanto, o ambiente urbano revela-se um confinamento. Dersu depara-se com um espaço eticamente absurdo, onde não consegue compreender por que o ar, a lenha e a água, bens comuns da existência, possuem preço. Sua ética simplesmente não admite que os elementos vitais tenham dono, e nenhuma tentativa de adaptação resolve esse descompasso. O desfecho trágico consolida a crítica à expansão predatória do mercado.
A conquista do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1976 coroou a reconstrução da carreira de Kurosawa, validando a universalidade de sua linguagem. Sem adotar um tom professoral, o diretor tece uma crítica à mercantilização da vida e ao respeito pela natureza com leveza. O filme é um convite à contemplação da alteridade, questionando se o que chamamos de progresso preserva o que é verdadeiramente humano.
Dersu Uzala pode ser encontrado em plataformas de streaming, além de estar disponível para aluguel ou compra em plataformas digitais, e gratuitamente (com qualidade variável) no YouTube.
Por Antônia Rangel





