Mensalidade dispara, mas salário de professor da educação privada fica parado
Sindicatos denunciam arrocho salarial e financeirização enquanto mensalidades sobem acima da inflação e negociação coletiva segue frágil
Enquanto o piso nacional do magistério da rede pública alcançou R$ 5.130,63 para uma jornada de 40 horas em 2026, garantido por lei e lastreado pelo Fundeb, a realidade do professor da iniciativa privada caminha na contramão. Apesar de as mensalidades escolares projetarem um reajuste médio de 9,8% para este ano — mais que o dobro da inflação prevista de 4,83% —, a categoria amarga um cenário de estagnação, perdas acumuladas desde a pandemia e o que sindicatos classificam como um severo arrocho salarial.
O descompasso entre a receita das instituições e a remuneração docente expõe as cicatrizes da reforma trabalhista de 2017 e a crescente financeirização do setor educacional, transformando o professor, nas palavras das lideranças sindicais, na principal variável de ajuste para a lucratividade das mantenedoras. Professores da rede privada de ensino têm vivenciado paralisações e aprovações de estado de greve recentes devido a impasses nas campanhas salariais de 2026.
Entidades representativas da categoria afirmam que a distância entre receitas e remuneração docente se aprofundou desde a pandemia. Na avaliação de dirigentes sindicais, a realidade vivida por milhares de professores da educação básica e do ensino superior privado é marcada por perdas acumuladas de poder de compra, ausência de ganhos reais e crescente fragilização das negociações coletivas.
O “lucro” que não vira salário
Para as entidades que representam os docentes, a narrativa patronal de que o setor não se recuperou da pandemia não se sustenta diante dos números. As mensalidades já superaram os níveis de 2019, mas a folha de pagamento permanece comprimida.
“O número de matrículas voltou aos patamares anteriores à crise sanitária, mas os reajustes das mensalidades continuam muito superiores aos reajustes salariais. Enquanto as mensalidades crescem duas ou três vezes o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), os salários ficam apenas na reposição da inflação, quando ficam”, critica Valeria Morato, presidente da CTB-MG, a Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, e do Sinpro Minas, o sindicato da categoria.
Segundo ela, a maior parte das convenções coletivas firmadas em Minas Gerais desde 2020 não conseguiu assegurar ganhos reais aos trabalhadores. “Na prática, o salário diminui. O professor sente isso no supermercado, no aluguel e nas despesas do dia a dia.”
O abismo entre o aumento da receita e o salário é corroborado por dados do Ipea, que indicam que o custo com mão de obra nas escolas privadas hoje representa menos de 50% do custo geral mensal. Na prática, o reajuste salarial tem impacto mínimo nos gastos das instituições. “Aumentar mais de duas ou três vezes o reajuste das mensalidades significa mais lucro para o patrão. Nós, professores, somos encarados como custo, e não como parte essencial da Educação”, analisa Valéria em entrevista ao Portal Vermelho, com tom de indignação diante da lógica de mercado aplicada ao ensino.
A armadilha da negociação coletiva
A raiz do problema é estrutural e jurídica. O contraste se torna ainda mais evidente quando comparado à rede pública. Diferente da rede pública, o ensino privado não possui um piso nacional unificado nem um fundo constitucional que garanta o salário. A remuneração depende de Convenções Coletivas de Trabalho (CCTs), que ficaram extremamente vulneráveis após a reforma trabalhista.
Sem a garantia da ultratividade (quando as cláusulas da CCT continuam válidas mesmo após o vencimento do acordo) e com a Justiça do Trabalho limitada a julgar estritamente o que foi negociado, a correlação de forças pendeu para o lado patronal. “Hoje a correlação de forças é profundamente desigual. Não podemos afirmar que a negociação coletiva acontece em condições justas quando um lado possui muito mais poder econômico e institucional do que o outro”, afirma Morato.
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) chama esse fenômeno de “achatamento salarial”. Mesmo em estados onde houve pequenos ganhos reais — como em São Paulo, onde a educação básica privada assegurou 1,5% de ganho real acima da inflação em 2026 —, o resultado não apaga as perdas históricas acumuladas nos anos anteriores. O trabalhador recebe a reposição do ano, mas continua mais pobre do que era em 2019.
Financeirização e concentração do setor
O diagnóstico apresentado pelos sindicatos coincide com análises que apontam a crescente concentração do mercado educacional brasileiro nas mãos de grandes grupos empresariais.
Nas últimas décadas, fundos de investimento e conglomerados educacionais ampliaram sua participação no ensino superior e em segmentos da educação básica, reforçando uma lógica empresarial voltada para ganhos de escala e aumento de rentabilidade.
Segundo Valeria Morato, esse processo contribuiu para transformar a folha de pagamento em um dos principais alvos das políticas de contenção de gastos.
Ela cita estudos do Ipea segundo os quais o custo com mão de obra já representa menos da metade dos custos operacionais de muitas instituições de ensino.
“Quando as mensalidades sobem muito acima da inflação e os salários permanecem estagnados, é legítimo questionar para onde está indo essa diferença”, afirma.
As escolas, por sua vez, costumam argumentar que os reajustes são influenciados por despesas com tecnologia, infraestrutura, energia, materiais didáticos e inadimplência. Os sindicatos contestam a falta de transparência sobre quanto da expansão das receitas é efetivamente revertido para valorização profissional.
“Educação não é mercadoria”
Na visão nacional, a precarização do ensino privado é o reflexo direto da mercantilização da educação. Railton Souza, coordenador-geral da Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino), também falou ao Vermelho, e adota um tom programático e de defesa intransigente da educação como direito social, alertando para o adoecimento da categoria em ambas as redes.
“A Contee defende a educação pública e se opõe a essa mercantilização. O professor da rede privada é contratado pela CLT, recebe por hora-aula, e não há um piso unificado. Você encontra muitos professores do setor privado, especialmente na educação básica, que recebem menos que o piso nacional da rede pública”, destaca Souza.
Segundo ele, a ausência de uma referência nacional para os salários do setor privado gera profundas desigualdades entre estados e municípios.
“Não existe um valor unificado de piso ou de hora-aula. Tudo depende da correlação de forças em cada negociação coletiva. Isso produz disparidades enormes em todo o país.”
Railton argumenta que a valorização docente não pode ser tratada de forma distinta apenas porque o vínculo empregatício é privado.
Para o dirigente sindical, a disparidade fere a equidade. “Se o professor exerce a mesma função, enfrenta jornadas intensas, adoecimento e responsabilidades semelhantes, deveria ter garantias mínimas de valorização, carreira e remuneração. Valorização vem com condições dignas, carreira e plano de cargos e salários”, argumenta.
A defesa de um piso nacional para o magistério privado
Embora reconheçam as diferenças entre os sistemas público e privado, as entidades representativas defendem a criação de mecanismos nacionais de valorização docente que reduzam as desigualdades existentes.
A proposta mais citada é a construção de uma referência nacional para os salários da educação privada, nos moldes do piso do magistério público.
Para Railton Souza, trata-se de uma questão de equidade. “O professor da rede privada também precisa de carreira, plano de cargos e salários e condições dignas de trabalho.”
Valeria vai na mesma direção ao defender maior regulamentação estatal para um setor que opera por concessão pública. “Mesmo quando ofertada por instituições privadas, a educação continua sendo um direito social. Por isso, a valorização dos trabalhadores deveria ser objeto de regulamentação nacional.”
Um patronato nacionalizado
O desafio imposto aos sindicatos vai além das fronteiras estaduais. Souza alerta que as mantenedoras de ensino se reorganizaram em nível nacional, atuando de forma coordenada para baratear custos e impedir a consolidação de planos de carreira.
“Temos um cenário que aponta para uma luta nacional, coordenada pela confederação, para enfrentar exatamente um patronato que hoje se organiza em nível nacional para precarizar e baratear os custos da educação privada, não garantindo os direitos de carreira”, conclui o coordenador da Contee.
Enquanto a legislação não equipara os direitos fundamentais da docência — independentemente de quem paga a folha —, o professor da rede privada segue refém de uma equação perversa: a qualidade da educação que os pais pagam cada vez mais caro não se traduz na dignidade salarial de quem está em sala de aula.
A mobilização pelo país
As mobilizações concentram-se principalmente nas regiões Nordeste e Sudeste, com destaque para os seguintes locais:
- Bahia: Professores da educação básica aprovaram estado de greve no mês de junho após impasses nas negociações com o sindicato patronal (Sinepe-BA), exigindo reajustes e melhores condições de saúde e trabalho.
- Pernambuco: O Sinpro Pernambuco decretou estado de greve em abril, com assembleias mantendo a categoria em alerta e preparando paralisações por tempo indeterminado nas unidades privadas.
- São Paulo: Em maio, docentes do ensino superior privado aprovaram a manutenção do estado de greve e a mobilização unificada em todo o estado após impasses com o Semesp (sindicato patronal).
- Piauí: Houve paralisação pontual de professores da rede particular na capital, Teresina, reivindicando aumento real e gratificações.
As categorias reivindicam, de forma geral, o reajuste salarial que cubra as perdas inflacionárias, melhores benefícios corporativos e o fim da precarização e sobrecarga de trabalho.
Por Cezar Xavier





