Brasil atinge meta de redução dos homicídios 2 anos antes do previsto

País teve 8% a menos de assassinatos em 2025 frente a 2024; no entanto, feminicídios e mortes por ação policial cresceram 4% e 5% respectivamente

O Brasil alcançou, pela primeira vez, a meta nacional de redução dos homicídios, prevista na Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social para 2027. Por outro lado, cresceram dois tipos de morte violenta intencional: os feminicídios e as decorrentes de intervenção policial. É o que revela o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23).

O levantamento é feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) — que neste ano completou 20 anos — e tem como base informações oficiais fornecidas pelas secretarias estaduais de segurança pública e pelas polícias civis, militares e Federal.

“Em seu conjunto, os dados e análises revelam um país que alcança importantes avanços na redução da violência letal, mas que enfrenta novos desafios decorrentes da expansão das economias ilícitas digitais, da persistência das desigualdades, da violência contra grupos vulneráveis e da necessidade de modernização das instituições de segurança e justiça”, avalia a publicação.

De acordo com os dados, as mortes violentas intencionais (MVI) tiveram uma redução de 8,2% ante 2024, ficando em 40.775 no ano passado. Tal número corresponde à taxa de 19,1 MVI por 100 mil habitantes, a menor desde 2012 — daquele ano para cá, a queda foi de 31%. MVI é uma categoria criada pelo FBSP e que engloba homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora.

Imagem: Anuário 2026-FBSP

Das 27 unidades federativas, apenas sete tiveram crescimento nos assassinatos: Rio Grande do Norte (+19,6%), Rondônia (+7,5%), Acre (+6,3%), Roraima e Distrito Federal (+5,8% cada), Mato Grosso do Sul (+4,9%) e Rio de Janeiro (+2,1%).

As menores taxas por 100 mil habitantes foram verificadas nos estados de Santa Catarina (7,6); São Paulo (7,8) e Distrito Federal (9,6). Já as maiores foram no Acre (42,5), Bahia (36,8) e Ceará (34,7).
O perfil da grande maioria das mortes segue sendo de homens (91%), jovens (42%) e negros (quase 80%). “Em conjunto, os resultados indicam que a violência letal se distribui de maneira racialmente desigual no Brasil”, aponta o documento.

O levantamento também mostra a redução significativa de duas categorias das MVIs. No caso dos latrocínios, que somaram 807 vítimas em 2025, a queda foi de 17% sobre 2024. Já as mortes decorrentes de lesão corporal seguida de morte contabilizaram 659 vítimas no ano passado, 15% a menos do que no ano anterior.

Tendência inversa

Apesar desses dados positivos, ao menos dois bastante negativos chamam atenção: o crescimento dos casos de feminicídios e de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) — conforme nomenclatura do FBSP.

Os assassinatos de mulheres por questão de gênero aumentaram 4% na comparação entre 2024 e 2025. No ano passado, houve 1.571 feminicídios. Também neste caso, a população negra é a mais vitimizada: as mulheres pretas e pardas corresponderam a 65% dessas mortes.

Considerando a faixa etária, a maioria, 56,5%, tinha entre 25 e 44% e, assim como em anos anteriores, elas foram majoritariamente assassinadas em casa (62,5%) e por parceiro íntimo (61%).

Imagem: Anuário 2026-FBSP

No que diz respeito à letalidade policial, o crescimento foi de 5,4% em 2025 em relação a 2024. Ao todo, 6.602 pessoas foram mortas por policiais, o equivalente a impressionantes 18 casos por dia. Em uma década, esse número foi de 60.558. Os negros, novamente, são os mais atingidos: eles morrem 3,5 vezes mais do que os brancos por ações de agentes da segurança pública.

“O país precisa encontrar mecanismos de controle do uso da força mais efetivos, já que tais dados mostram que o Estado, em suas múltiplas esferas e poderes, tem sido parte do problema e não apenas das soluções para a segurança pública brasileira”, assinala o anuário.

Imagem: Anuário 2026-FBSP

Na ponta oposta, 139 policiais foram vítimas de morte violenta intencional, queda de 3,5% sobre 2024. Da mesma forma, caiu em quase 13% o índice de suicídio de policiais, que somou 110 casos. Ainda assim, considerando os números desde 2017, essa categoria de morte cresceu quase 38%.

Crimes patrimoniais

O Anuário também aponta para uma redução importante no número de crimes patrimoniais ocorridos presencialmente, como os roubos. Por outro lado, indica a continuidade do aumento nos golpes e crimes virtuais.

No primeiro caso, todos os indicadores de roubo mostram as seguintes quedas: instituições financeiras (-35%), transeuntes (-23%), veículos (-20%); residências e cargas (queda de quase 20% cada) e estabelecimentos comerciais (-18,3%).

Imagem: Anuário 2026-FBSP

Os roubos de celulares, um dos mais comuns especialmente nas grandes cidades, também registrou queda de 18,6%, enquanto o furto cresceu apenas 0,9%. Ainda assim, cerca de 95 aparelhos foram subtraídos por hora, num total de 830.890.

Quando analisados os estelionatos (que também englobam os golpes realizados em ambiente digital), houve mais de 2,2 milhões de ocorrências, crescimento de quase 430% frente a 2018. Os números são bastante altos, mas ainda estão subnotificados porque em muitos casos, não há registro por parte das vítimas.

“Se os registros administrativos já demonstram um cenário alarmante de crescimento dos golpes e fraudes, as pesquisas de vitimização apontam que o problema é muito maior do que o que efetivamente vira estatística nas delegacias do país”, diz a o documento.

É o caso de pesquisa feita pelo FBSP em parceria com o Datafolha e publicada em maio. Conforme os dados obtidos, 26,3 milhões de pessoas podem ter sofrido golpes financeiros via internet nos 12 meses anteriores.

O FBSP ressalta, ainda, que hoje grande parte desses crimes não é mais praticada por estelionatários isolados agindo por conta própria. Os golpes são feitos por grupos organizados, com “operações estruturadas, divisão de trabalho, roteiros escritos, metas de arrecadação e infraestrutura tecnológica dedicada”.

Redução dos crimes x aumento do medo

O Anuário traz, ainda, uma análise sobre a divergência que há entre a queda geral nos assassinatos e crimes patrimoniais presenciais e o aumento da sensação de medo da população em relação à violência, conforme vêm apontando pesquisas recentes.

Um exemplo foi levantamento feito pela Quaest e divulgado no início de abril, no qual a violência apareceu como a principal preocupação dos brasileiros, com 29%, seguida de questões sociais, com 23% e economia, com 19%.

Outra pesquisa, da Ipsos, divulgada em janeiro coloca o medo constante da criminalidade entre os principais temores da população, com 45%.

Ainda que possa haver particularidades a pesar sobre esses dados — como o medo diferenciado de pessoas negras em virtude da violência policial racista ou das mulheres devido às várias formas de violência de gênero — há outros elementos que pesam sobre a percepção geral.

“O medo pode ser reproduzido por meio da construção das ‘falas do crime’, pelo nível de coesão social e até mesmo a construção narrativa midiática pode ampliar o ‘pânico moral’. Por vezes, essas construções narrativas e sentimentos socialmente compartilhados nem sempre são consolidadas pelos dados factuais”, diz o Anuário.

Todavia, acrescenta, “os dados também sinalizam para a impossibilidade de concluirmos que a segurança pública brasileira está melhor. “São coisas diferentes e, sem margem para dúvidas, os resultados alcançados precisam ser assumidos como um processo na direção certa, porém com obstáculos e opções políticos institucionais que exigem atenção caso queiramos, de fato, que a violência letal deixe de marcar as relações sociais e políticas da nossa sociedade”, conclui.

Por Priscila Lobregatte

Fonte
Vermelho

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