Lula endurece contra Trump e barra embaixador dos EUA até o fim das eleições
Em resposta à revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti pelos Estados Unidos, o presidente declarou que o Brasil não reconhecerá as credenciais de nenhum representante estadunidense até outubro
Por Ivan Longo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quarta-feira (5), em entrevista ao podcast Meteoro Brasil, que o Brasil não receberá nenhum embaixador dos EUA até o fim das eleições de outubro, em reação direta à decisão do governo Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti. Lula classificou a medida estadunidense como “irresponsável” e “impensada” para países com mais de dois séculos de relação diplomática, e o Palácio do Planalto descarta qualquer aceleração no processo de aprovação do indicado de Trump, Daniel Perez, considerando a chance “abaixo de zero”.
Lula endurece e barra embaixador dos EUA
O anúncio de Lula foi direto: enquanto durar o período eleitoral, nenhum embaixador estadunidense será recebido pelo governo brasileiro. A decisão é uma resposta à revogação, na terça-feira (4), do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti pelos Estados Unidos, medida que o próprio presidente qualificou como desnecessária diante de uma relação bilateral com 203 anos de história diplomática.
“Ele tomou essa atitude que eu acho irresponsável, impensada. Para um país que tem 203 anos de diplomacia, de relação diplomática, é um tanto desnecessário”, disse Lula, em entrevista ao canal do YouTube Meteoro Brasil. O presidente foi além e apontou a contradição na postura americana: “Os Estados Unidos não deram importância para embaixador no Brasil porque faz um ano e meio que ele está no poder e não mandou para cá.”
O governo decidiu manter Viotti no cargo mesmo após o cancelamento do visto. Na prática, a diplomata perde o direito de múltiplas entradas nos Estados Unidos e passa a ter apenas a permissão de permanecer em território americano, sem poder deixar o país e retornar. É uma situação que o governo brasileiro não reconhece como aceitável, mas que tampouco pretende resolver cedendo às exigências de Washington.
A escalada da crise diplomática
A justificativa apresentada pelo governo Trump para revogar o visto de Viotti é a demora do Brasil em conceder o agrémenta Daniel Perez, parlamentar republicano da Flórida indicado por Trump para comandar a embaixada americana em Brasília. O Palácio do Planalto, porém, rejeita esse argumento. Em nota divulgada na noite de terça-feira, a Presidência afirmou que as justificativas americanas “são falsas” e que a revogação do visto “faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas”, com interesse declarado de interferir na próxima eleição presidencial.
O governo brasileiro tem razões concretas para contestar a narrativa estadunidense sobre a suposta demora. Trump tornou pública a indicação de Perez em 1º de junho, mas o pedido formal de agrément ao governo Lula só foi enviado duas semanas depois do anúncio, o que contraria a prática diplomática estabelecida pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. O artigo 4 da convenção estipula que o nome do indicado só deve vir a público após a concessão da anuência pelo país receptor. Para integrantes do governo brasileiro, a quebra desse protocolo por Washington retira qualquer urgência na análise do pedido.
A tensão tem outras camadas. No final de julho, o Itamaraty negou pedidos de visto a dois funcionários do governo Trump que pretendiam visitar o Brasil com o objetivo declarado de questionar a lisura do processo eleitoral brasileiro. Lula citou esse episódio explicitamente ao explicar a crise, e o Palácio do Planalto o incluiu na sequência de ações hostis que justificam a postura atual do governo. O Departamento de Estado dos EUA, por sua vez, afirmou que deu ao Brasil “todas as oportunidades para fazer a coisa certa” e condicionou a devolução do visto de Viotti à aprovação formal de Perez.
Implicações e o ‘limbo diplomático’
A situação da embaixadora Viotti é descrita por integrantes da diplomacia brasileira como inédita e “sem precedentes” na relação entre os dois países. Ela não foi declarada persona non grata, o mecanismo formal de expulsão de um diplomata, mas tampouco pode deixar os Estados Unidos sem perder o direito de retorno. O resultado é um limbo diplomático: permanece no cargo, mas com mobilidade bloqueada por decisão unilateral de Washington.
Diante disso, o Palácio do Planalto não demonstra qualquer disposição de recuar. A chance de acelerar o agrément a Daniel Perez antes das eleições de outubro é considerada “abaixo de zero” pelo entorno do presidente. Lula foi explícito ao mandar um recado a Trump: “O Brasil não só está preparado, como vai enfrentar qualquer pessoa de fora que vier a intervir no nosso sistema eleitoral.”
“Nós queremos ser tratados com respeito. Isso não é correto nem possível. Os Estados Unidos não dão importância ao embaixador no Brasil, porque há um ano e meio não enviam um representante para cá. Agora, tentam enviar um e acham que temos a obrigação de marcar a data que eles querem”, disse Lula, em entrevista ao Meteoro Brasil.





