Acorda, Brasil! Eleger Flávio é levar o país ao abismo

Por José Geraldo de Santana Oliveira*

O grande romancista russo do século XIX, Nicolai Gogol, em sua atemporal peça de teatro “O Inspetor” — livremente traduzida como O Inspetor Geral —, publicada em 1836, usa como epígrafe e resumo temático velho provérbio russo, que diz não ser do espelho a culpa se de a cara ser torta.

A peça é uma comédia satírica, que retrata as peripécias das autoridades (prefeito, juiz etc) e das “pessoas de bem” de uma pequena cidade do interior da Rússia do início do século XIX, que são tomadas de pavor ao receber a informação de que estava na cidade um inspetor geral vindo de São Petesburgo, para fazer uma varredura da administração pública.

Como as citadas autoridades não primavam sua conduta pela moralidade e transparência, tão logo souberam do suposto inspetor geral — que não passava de um bom vivã, que se envolvia no jogo e não tinha dinheiro sequer para pagar a conta da hospedaria em que se encontrava —, trataram de corrompê-lo com festas, dinheiro e bajulações. O prefeito, além de o hospedar em sua casa, prometeu-lhe a mão de sua filha em casamento.

O bom vivã tomado como inspetor, ao perceber o pavor e a falta de tino das referidas autoridades, não se fez de rogado, assumiu a falsa identidade, para levar vantagem, muita vantagem, e nada mais.

Deslumbrado com tanto rapapé e benesses, o suposto inspetor, como todo velhaco, começou a contar bravatas, tais como: ser escritor famoso, diretor de ministérios, temido pelo Conselho de Estado e gerente de uma casa onde as sopas eram levadas de Paris, por navios.

Passados cento e noventa anos da publicação dessa peça, a improbidade política e administrativa dos dias atuais, no Brasil e no mundo, é de tal monta que rebaixa a retratada por ela à condição de singela prevaricação.

Além disso, os velhacos que se fazem passar por inspetor geral, “agente da moralização”, não são mais fruto do acaso. São, isto sim, gerados, moldados e comercializados, pela extrema direita, como salvacionistas. Quanto mais velhaco, enganador, faroleiro, falso baluarte da moralidade, chafurdar na lama da corrupção e da trapaça, tanto melhor.

A versão sob medida da nova geração de inspetores gerais, milimetricamente orquestrados, para servir os corruptos e ludibriar o povo, é Flávio Bolsonaro com seu pomposo e indecente programa para “O Brasil vencer o atraso”.

Ao contrário do personagem de Gogol, Ivan Khlestakov, Flávio Bolsonaro não é espertalhão por acaso, mas sim por profissão. Aquele se contentava com o noivado e o casamento com a filha do prefeito. Este visa tomar o Brasil para mergulhá-lo nas trevas. Aquele era reles faroleiro, por ocasião. Este é perverso, por índole e por vocação, e encarna o mal. Apesar de viver vociferando em sentido contrário.

Se alguém, em sã consciência, tem dúvida sobre a atribuição desses predicados negativos de Flávio Bolsonaro, para dissipá-la, basta que faça um breve retrospecto de sua trajetória política e visite seu programa de governo, já citado.

Em editorial publicado dia 15 de setembro, o jornal Folha de São Paulo, com o título “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista”, afirma, dentre outros: “[..] Mais grave é o projeto político do qual se apresenta como herdeiro.[..] Também é arriscada sua subserviência a Donald Trump, presidente dos EUA, em temas sensíveis como tarifas, terras raras e mudança climática. [..]Quando deputado estadual, chegou a conceder a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio a um policial que estava preso sob acusação de homicídio e que, mais tarde, seria identificado como integrante de milícia. Sua vida pública também foi marcada pela investigação sobre um suposto esquema de ‘rachadinhas’ em seu gabinete. [..] Mais recentemente, veio à tona seu diálogo amistoso com Daniel Vorcaro do Banco Master, e o pedido de milhões para o filme em homenagem ao pai. [..] Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la — e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder”.

O seu programa, com o indecente título “Para o Brasil vencer o atraso”, não diz uma palavra sobre o salário-mínimo, referencial de renda para 62 milhões; propõe o fim da contratação por jornada e a implantação do contrato por hora, em que só há salário e direitos proporcionais, se e quando o/a trabalhador/a for convocado/a; o fim dos sindicatos; o cerceamento total e absoluto da liberdade de aprender, ensinar e pesquisar, com a predominância da ideologia de escola sem partido.

No livro de Raul Pompéia, O Ateneu, publicado em 1888, o professor Venâncio, que fazia o cerimonial, quando apresentava Aristarco, dono do colégio/internato, assim o qualificava: com vocês, Aristarco. Abaixo de Deus, ele. Acima dele, só Deus.

O mestre do cerimonial de Flávio é o algoz do mundo do Trabalho, senador Rogério Marinho, relator da (de) reforma trabalhista de 2017, na Câmara Federal. Ao apresentá-lo e defendê-lo, em nada fica a dever ao professor Venâncio, em que pesem os 138 anos que os separam.

Se desventuradamente Flávio vier a vencer as eleições, em breve o Brasil conhecerá o peso do provérbio russo, que abre a peça de Gogol e, aqui, foi referido no primeiro parágrafo, pois que estará no abismo, por deformação do voto e não do espelho.

Acorda, Brasil!

Acordem, eleitores/as.

A única hora possível é agora. Ao depois, será muito tarde.

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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