Democracia ou fascismo: a encruzilhada histórica e o dever de votar

Ilustração: Contee/IA

Por José Geraldo de Santana Oliveira*

Todos/as de minha geração — nasci em 1952 —, como eu, guardam a viva lembrança do massacre de Jonestown, na Guiana inglesa, promovido pelo pastor — mais apropriado seria dizer impostor — Jim Jones, aos 18 de novembro de 1978, com a morte de 918 pessoas, por tiros, facadas e suicídio coletivo, mais que induzido, forçado.

O genocida Jim Jones, travestido de pastor, fundou a fanática seita  “Templo do povo”, em 1956, no estado de Indiana, nos EUA, com a promessa de construir o paraíso socialista; em 1974, com o beneplácito das autoridades da Guiana, para lá transportou a comunidade, que cegamente o seguia. Em 1977, batizou o assentamento de Jonestown — que significa cidade de Jones.

Laura Johnston Kohl, uma das 87 pessoas que sobreviveram ao massacre, por estar em Georgetown, assim descreveu a fundamentalista comunidade de Jim Jones: “Nós éramos visionários que deixaram para trás os confortos da vida urbana e se mudaram para o meio da floresta para criar um modelo de comunidade para o resto do mundo. Jim Jones era articulado para mascarar as partes dele que eram corruptas ou doentes”.

Passados quarenta e oito anos — a ser completados no próximo dia 18 de novembro — dessa tragédia, que jamais será apagada da memória humana, como que a dar razão ao escritor irlandês Oscar Wilde, para quem a vida imita muito mais a arte do que é por ela imitada, no Brasil, surge Flávio Bolsonaro, impostor à moda Jim Jones, que promete para o povo o paraíso. Não o socialista que prometia este, mas o capitalista, como se isso coubesse na essência desse sistema, que se nutre e se fortalece da exploração do trabalho.

Porém, enquanto tenta iludir o povo com suas estratosféricas bravatas, trama com os donos do poder econômico a adoção de medidas que varram, de uma vez por todas, os cinco fundamentos da República Federativa do Brasil, que são soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político.

Para ser preciso, há de se registrar que dos fundamentos da República, em seu nefasto programa de governo, resta apenas meio deles, o da livre iniciativa; que, sob eventual governo seu, estará livre de quaisquer amarras republicanas, podendo atuar sem fronteiras e sem limites.

A se dar crédito às suas indecentes bravatas, é de se concluir que ele tem mais poderes que a caricata figura do super-herói He-Man, da série os mestres do universo (Masters of the Universe), que tinha toda a força do mundo.

Colhe-se do discurso de Flávio Bolsonaro, que ele seria o único poder do Brasil — deixando acanhado Luís XIV, que dizia o Estado era ele —, com licença absoluta para fazer tudo que julgar conveniente e que for de interesse dele, de seus apoiadores e seus fundamentalistas. A rigor, Flávio Bolsonaro é um bravateiro contumaz, sem ética, decência, pudor e limites.

O que se patenteia como gravíssimo nesse triste cenário político é a adesão a essa prenunciada tragédia de mais de 56 milhões de eleitores, que nele votaram no primeiro turno.

Se, infortunadamente, Flávio Bolsonaro vier a ser eleito, com certeza, o Estado Democrático de Direito estará fadado ao rápido aniquilamento, cedendo lugar ao que há de mais nefasto na ordem política mundial.

O que, irremediavelmente, representará o fim das mais elementares vigas da liberdade, do pluralismo político, de ideias e de concepções, dos direitos fundamentais sociais e das políticas públicas de inclusão social; com a sua consequente substituição pela intolerância, o ódio, a violência física e psicológica, a miséria e o reingresso no Brasil no mapa da fome. Em uma palavra, será instalada a barbárie.

O risco de desintegração dos tecidos político e social chegou a tal extremo, que todas as forças políticas e personalidades que guardam o mínimo apreço e respeito pela ordem democrática, somaram-se aos movimentos sindical e social e aos estudantes, dando as mãos à mais pujante corrente em sua defesa, jamais vista desde o memorável movimento pelas diretas-já de 1983 e 1984.

Hoje, não remanesce nenhuma dúvida, o Brasil está diante de sua mais desafiadora encruzilhada histórica, tendo de escolher a ordem democrática e o fascismo com nova roupagem e muito mais cruel e dizimador, do que fora  em todos os tempos.

Essa conflagração política põe, de um lado, os democratas de todos os matizes e, de outro, os seus impiedosos algozes. É de se notar e anotar que, ainda que se procure com lâmpada acesa, em pleno dia, como fizera Diógenes, não se encontra do lado de Flávio Bolsonaro nenhum cultuador da ordem democrática, por menor que seja seu respeito por ela. Só se somam a ele quem a despreza de modo absoluto.

Por tudo isso, parece não restar dúvidas de que a tragédia de Jonestown, que abre este texto, soará como insignificante perto do que ocorrerá com o Brasil, se Flávio Bolsonaro for o vencedor das eleições.

Mesmo que não haja massacre físico, o que não está descartado, haverá o mais absoluto massacre ético, moral, cultural, político e social, nunca dantes registrado.

O que se espera, com fervor, é o que os mais de trinta e três milhões de eleitores/as que não compareceram às urnas no primeiro turno, diante dessa fatal encruzilhada, compareçam domingo e votem Lula: único modo de salvar a ordem democrática, neste momento crucial da história brasileira.

Registro que meus 74 anos e mais de meio, longe de me dispensar do comparecimento à urna, que me é concedido pela legislação eleitoral, me exigem que compareça e vote para que o Brasil não sucumba, digitando e confirmando o número 13: Lula!

Acorda, Brasil, antes que seja tarde demais!

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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