A voz do sertão na poesia de Patativa do Assaré
A dica cultural desta semana celebra a obra de Patativa do Assaré, um grande poeta popular do Brasil, que transformou a oralidade nordestina em literatura de resistência e conhecimento. Nascido Antônio Gonçalves da Silva em 1909, no Sítio Serra de Santana, no município de Assaré, interior do Ceará, o poeta cearense construiu, ao longo de décadas, uma obra que dialoga diretamente com a cultura de cordel e com a tradição oral do sertão, sem nunca ter abandonado o trabalho na roça que marcou sua formação.
Filho de agricultores pobres, Patativa teve acesso tardio à escola, ingressando na sala de aula somente por volta dos doze anos e permanecendo nela por apenas alguns meses. A partir daí, tornou-se autodidata e construiu sozinho o domínio da métrica poética e da escrita, usando a poesia como forma de nomear a vida do homem simples do campo: a seca, a fome, a injustiça social, mas também a fé, a alegria e a sabedoria acumulada de geração em geração.
Na coletânea “Cante lá que eu canto cá”, publicada em 1978 pela Editora Vozes e que reúne poemas que misturam crítica social e lirismo, encontramos um de seus poemas mais conhecidos, “A Triste Partida”, que retrata a dura realidade da seca e o êxodo forçado do sertanejo. Composto anos antes da publicação do livro, o poema ganhou projeção nacional em 1964, quando foi musicado e gravado por Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, tornando-se um dos maiores símbolos da cultura nordestina na música popular brasileira:
Setembro passou / Oitubro e Novembro / Já tamo em Dezembro / Meu Deus, que é de nós, / Meu Deus, meu Deus / Assim fala o pobre / Do seco Nordeste / Com medo da peste / Da fome feroz
Ainda na mesma obra, Patativa afirma sua identidade de poeta do povo no poema que dá título ao livro, “Cante lá que eu canto cá”, e que já anuncia, no próprio nome, a valorização do saber popular em contraste com o conhecimento formalizado das cidades:
Poeta, cantô de rua, / Que na cidade nasceu, / Cante a cidade que é sua, / Que eu canto o sertão que é meu. / Se aí você teve estudo, / Aqui, Deus me ensinou tudo, / Sem de livro precisá / Por favô, não mêxa aqui, / Que eu também não mexo aí, / Cante lá, que eu canto cá.
A poesia de Patativa do Assaré interessa diretamente às trabalhadoras e aos trabalhadores da educação porque desafia uma hierarquia de saberes ainda muito presente nas escolas: a ideia de que o conhecimento popular, transmitido oralmente, vale menos do que o conhecimento formalizado em livros acadêmicos. Ao eleger a métrica e a musicalidade do cordel como forma de expressão erudita e politicamente consciente, o poeta nos lembra que educação não se faz apenas com conteúdo técnico, mas também com escuta, memória e valorização das culturas que os próprios estudantes trazem de suas famílias e comunidades.
Trazer essa obra como dica cultural nos fala de uma educação que não trata a cultura popular como curiosidade folclórica, mas como matéria-prima legítima de formação crítica e cidadã. Nordestino, trabalhador rural, autodidata, Patativa do Assaré é, ele próprio, um símbolo de que conhecimento e dignidade não dependem de diploma, mas de uma vida inteira de observação atenta sobre o mundo e de coragem para dizer, em versos, aquilo que muitos preferiam calar. Em outro poema de sua autoria, “Eu e o Sertão”, ele expressa seu amor pela terra que o formou:
Sertão, argúem te cantô, / Eu sempre tenho cantado / E ainda cantando tô, / Pruquê, meu torrão amado, / Munto te prezo, te quero / E vejo qui os teus mistéro / Ninguém sabe decifrá. / A tua beleza é tanta, / Qui o poeta canta, canta, / E inda fica o qui cantá.
Quem quiser se aproximar de sua obra pode começar pela coletânea Cante lá que eu canto cá ou por gravações de cordel e repente disponíveis em plataformas de áudio e vídeo, já que muitos dos poemas de Patativa nasceram para serem cantados e recitados em praça pública, e ganham outra dimensão quando ouvidos, e não apenas lidos.
Referência: ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis: Editora Vozes, 1978.
Por Antônia Rangel





