Alfabetização avança, desigualdade persiste

Neste 8 de setembro, o mundo celebra os 60 anos do Dia Internacional da Alfabetização, data proclamada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1966, durante a 14ª sessão de sua Conferência Geral, e celebrada pela primeira vez em 1967. A edição de 2026 ocorre sob o tema “Alfabetização para as pessoas, o planeta e a prosperidade”, que convida a um balanço dos avanços das últimas décadas e à definição de novas agendas para um mundo em transformação. A celebração global será conduzida pela UNESCO nos dias 8 e 9 de setembro, no México.

A data nasceu de um compromisso com a alfabetização como direito humano e questão de dignidade. Os números, porém, seguem desafiadores. Segundo a UNESCO, cerca de 739 milhões de adultos no mundo ainda não dominam as competências básicas de leitura e escrita, o que compromete o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 da Agenda 2030, que prevê educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todas e todos.

No Brasil, os dados mais recentes indicam avanço consistente, ainda que desigual. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo IBGE em junho de 2026, registrou 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais de idade analfabetas em 2025, o que corresponde a uma taxa de 4,9%, a menor da série histórica iniciada em 2016 e a primeira vez que o indicador fica abaixo de 5%. Em 2024, eram 9,1 milhões de pessoas, com taxa de 5,3%. O Censo 2022 já apontava queda de 9,6% para 7,0% em 12 anos.

O cenário nacional, contudo, esconde desigualdades estruturais. Mais da metade das pessoas analfabetas do país, 4,8 milhões, vivia no Nordeste, onde a taxa chegou a 10,6%. A população com 60 anos ou mais representava 58% do total de pessoas analfabetas, o que evidencia a dívida histórica com a educação de pessoas adultas e idosas. Entre as mulheres, a taxa foi de 4,6%, e entre os homens, de 5,2%.

Os números, no entanto, não se explicam por si mesmos. A redução do analfabetismo resulta de políticas públicas de financiamento e de acesso, e sobretudo do trabalho de milhões de profissionais da educação, entre elas e eles as trabalhadoras e os trabalhadores que atuam na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Alfabetizar é um ato pedagógico que exige formação, vínculo e tempo, e que não se reduz a métodos ou a resultados padronizados.

Esse debate ganha contornos novos com a difusão da inteligência artificial e das plataformas digitais. As novas tecnologias são realidades que exigem regulação, participação social e submissão aos interesses humanos e coletivos. No campo da alfabetização, elas podem apoiar processos de ensino, mas não podem substituir a relação pedagógica, nem aprofundar desigualdades de acesso, sobretudo entre quem ainda não domina a leitura e a escrita. Garantir conectividade, formação docente e mediação humana é tão urgente quanto ampliar a infraestrutura.

Passados 60 anos da proclamação da data, o Dia Mundial da Alfabetização reafirma que ler e escrever são portas de acesso à cidadania, ao trabalho e à participação social. O Brasil celebra a menor taxa de analfabetismo de sua série histórica, mas os 8,4 milhões de pessoas que seguem sem ler e escrever, concentradas no Nordeste e entre as pessoas mais velhas, impõem a continuidade e o fortalecimento das políticas públicas, com financiamento adequado e valorização das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação. Alfabetizar é, antes de tudo, um compromisso coletivo com a justiça social.

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