Aos EUA, Flávio promete isolar o Pix e defende cartões de crédito
Em mais um gesto de submissão, senador envia documento aos EUA com promessas que vão de restrições ao Pix a benefícios a empresas de cartões de crédito
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no documento de 86 páginas que enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), além de pedir o adiamento, por 180 dias, das tarifas de 25% propostas pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros, promete isolar o Pix e faz uma defesa explícita dos interesses das empresas de cartões de crédito estadunidenses.
No texto, enviado ao órgão norte-americano na quarta-feira (1), Flávio se apresenta como pré-candidato ao Palácio do Planalto, ataca o governo Lula, acusa o Supremo Tribunal Federal (STF) e oferece a Washington uma lista de compromissos políticos e econômicos caso vença a eleição.
Entre eles, está o ponto mais sensível do documento: a promessa de isolar o Pix de sistemas internacionais de pagamento considerados “não ocidentais” — numa referência direta à China — e a defesa de redução da carga regulatória e tributária sobre empresas privadas de cartões de crédito, setor dominado por gigantes norte-americanas como Visa e Mastercard.
Ao pedir o adiamento da aplicação das tarifas, Flávio reconhece, indiretamente, que as sanções fortaleceriam a candidatura de Lula à reeleição pois são interpretadas como uma ataque à soberania nacional — o que, consequentemente, desidrata sua candidatura pois o coloca como um candidato submisso aos interesses dos EUA. O senador pede, portanto, que Washington espere o resultado da eleição brasileira antes de tomar uma decisão definitiva.
A audiência pública do USTR sobre o tema está marcada para 6 de julho. Flávio Bolsonaro se inscreveu para participar e defender pessoalmente sua posição diante de representantes do governo norte-americano.
Ataque ao Pix e defesa dos cartões
O trecho mais simbólico do documento é o que trata do Pix. Flávio Bolsonaro afirma que um “compromisso legislativo” para impedir a conexão do sistema brasileiro a “arranjos de liquidação transfronteiriços não ocidentais” seria um sinal decisivo aos Estados Unidos.
O Pix, criado e operado pelo Banco Central, é hoje o meio de pagamento mais usado no Brasil. O sistema se tornou uma infraestrutura pública essencial para pessoas físicas, pequenos comerciantes, trabalhadores informais, empresas e prestadores de serviço. Sua gratuidade ou baixo custo para boa parte das operações reduziu a dependência da população em relação a intermediários privados, especialmente cartões e bancos.
É justamente esse sucesso que passou a incomodar Washington. Na investigação aberta pelo USTR, o Pix aparece entre as práticas brasileiras consideradas problemáticas pelos EUA no campo de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. O argumento norte-americano é que o sistema favoreceria uma “campeã nacional” e prejudicaria empresas dos Estados Unidos que atuam no mercado de pagamentos.
Flávio, em vez de defender integralmente uma tecnologia brasileira reconhecida internacionalmente, oferece aos EUA uma trava política: impedir que o Pix venha a ser integrado a sistemas internacionais fora da órbita ocidental. O documento não explica como essa limitação seria implementada, nem como ela afetaria eventuais projetos futuros de pagamentos transfronteiriços.
O senador também procura preservar os interesses das empresas privadas de cartão. No texto, ele defende a redução de encargos regulatórios e tributários sobre operadoras de cartões de crédito e outros meios privados de pagamento. Segundo sua argumentação, isso ampliaria a escolha dos consumidores, reduziria custos de transações voluntárias e estimularia o crescimento econômico.
Para sustentar a tese, Flávio afirma que cartões de crédito ofereceriam funções que o Pix não substitui, como parcelamento, crédito ao consumidor e mecanismos de contestação de compras. A verdade, no entanto, é que o Pix já possui muitas dessas funcionalidades.
Mercosul na mira
O documento também mira o Mercosul. Flávio Bolsonaro defende que o Brasil busque maior liberdade para negociar acordos bilaterais diretamente com os Estados Unidos, fora do bloco regional.
O senador cita como referência o presidente argentino Javier Milei, que tem defendido uma política externa alinhada a Washington e crítica às estruturas tradicionais de integração regional. Para Flávio, o caminho argentino deveria ser “examinado” e “perseguido” pelo Brasil.
A posição retoma uma agenda que já apareceu no governo Jair Bolsonaro, quando setores da direita brasileira passaram a tratar o Mercosul mais como obstáculo do que como instrumento de integração econômica e política da América do Sul.
Nesse ponto, o documento deixa claro que o que ele oferece aos EUA é uma reorientação da política comercial brasileira: menos integração regional, mais alinhamento bilateral com Washington e maior abertura para interesses empresariais norte-americanos.
A estratégia eleitoral: pedir aos EUA que esperem
Flávio Bolsonaro sustenta que a tarifa de 25% contra produtos brasileiros teria efeito político contrário ao desejado por Washington. Segundo ele, a medida permitiria a Lula se apresentar como defensor da soberania nacional diante de uma agressão estrangeira.
O senador afirma que o tarifaço anterior não mudou o comportamento das autoridades brasileiras e, ao contrário, teria fortalecido a narrativa do governo petista. Por isso, pede que os Estados Unidos adiem a decisão por 180 dias.
O cálculo é explícito: em vez de punir o Brasil durante o governo Lula, os EUA deveriam aguardar a eleição e apostar em uma eventual mudança de comando no Planalto. Flávio se apresenta, assim, como interlocutor preferencial de Washington e como alternativa capaz de entregar uma agenda mais favorável aos interesses comerciais norte-americanos.
Ataques a Lula, ao STF e ao governo brasileiro
Além das propostas econômicas, o documento é carregado de ataques políticos. Flávio Bolsonaro usa o fórum estrangeiro para acusar o governo Lula, criticar o STF e associar adversários ao caso Banco Master.
O senador classifica o escândalo envolvendo o Banco Master como a “maior fraude bancária da história do Brasil” e tenta construir uma narrativa que vincula o caso à cúpula federal. No texto, cita o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o próprio presidente Lula.
Flávio também menciona a contratação do escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes pelo controlador do banco, em valor que, segundo o documento, chegaria a cerca de R$ 129 milhões. Ainda afirma que outro parente de ministro do STF estaria ligado ao esquema.
A estratégia é transformar um documento comercial enviado aos EUA em uma peça de acusação contra Lula, o Supremo e adversários políticos internos.
O que Flávio não contou aos EUA
A omissão mais relevante do documento está no próprio caso Banco Master. Ao tentar associar Lula ao escândalo, Flávio Bolsonaro não menciona suas próprias conexões com Daniel Vorcaro, controlador do banco e personagem central das investigações.
Reportagens do The Intercept Brasil revelaram áudios, mensagens e documentos sobre a relação de Flávio com Vorcaro. Segundo as apurações, o senador negociou com o banqueiro recursos milionários para supostamente financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A operação teria envolvido valores na casa de dezenas de milhões de reais.
Depois da divulgação do material, Flávio admitiu ter mantido contato com Vorcaro, embora tenha tentado enquadrar a relação como uma busca privada por investidores para um filme sobre o pai. Antes, aliados e o próprio senador haviam tentado minimizar ou negar vínculos com o banqueiro.
No documento enviado ao USTR, Flávio acusa adversários de proximidade com o Banco Master, mas omite sua própria relação com o homem que está no centro do caso. Ataca Lula, mas não explica por que ele mesmo recorreu a Daniel Vorcaro para viabilizar um projeto político-midiático ligado à família Bolsonaro.
Governo Lula contesta tarifaço
O governo brasileiro contesta as acusações do USTR e tenta evitar a aplicação das tarifas. Em manifestação formal, o Itamaraty argumentou que tarifas amplas sobre produtos brasileiros também imporiam custos à economia dos próprios Estados Unidos.
A posição brasileira é a de que as medidas propostas por Washington são desproporcionais e politicamente motivadas. O governo Lula também tem defendido o Pix como patrimônio tecnológico do país e instrumento de inclusão financeira.





