Apoio ao fim da escala 6×1 sobe para 71%, mostra Datafolha
Pesquisa revela crescimento de 7 pontos em relação a 2024; jovens, mulheres e eleitores de Lula lideram favorabilidade à redução da jornada
Uma nova pesquisa Datafolha, realizada entre 3 e 5 de março com 2.004 pessoas em 137 municípios, aponta que 71% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1 — redução do número máximo de dias de trabalho semanais. O índice representa crescimento de 7 pontos percentuais em relação ao levantamento de dezembro de 2024, quando 64% apoiavam a medida. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
O avanço da opinião favorável ocorre em momento de intenso debate no Congresso Nacional sobre propostas que visam reduzir a jornada semanal de trabalho, atualmente fixada em 44 horas. A pesquisa revela não apenas o tamanho do apoio popular, mas também nuances importantes sobre como diferentes grupos sociais percebem a mudança.
Quem mais trabalha apoia menos: a lógica da renda
Um dos achados mais reveladores do levantamento é a diferença de percepção entre quem trabalha até cinco dias por semana e quem cumpre jornada de seis ou sete dias. Entre os que já têm dois dias de descanso, 76% apoiam a redução; entre os que trabalham seis dias ou mais — justamente os que seriam beneficiados pela medida —, o apoio cai para 68%.
A explicação está no perfil profissional: autônomos e empresários, que compõem parcela significativa do grupo com jornada mais longa, associam horas trabalhadas diretamente à renda. Para eles, reduzir dias pode significar perder faturamento. Já entre servidores públicos e trabalhadores com salário fixo, a duração da jornada não costuma impactar os ganhos mensais, o que facilita o apoio à mudança.
Há também a dificuldade de compreensão de que a redução da jornada aumenta a renda média, ao impactar a geração de postos de trabalho e competitividade pelos profissionais. Todas as medidas de reforma trabalhista, com perda de direitos para o trabalhador, prometeram aumentos de renda e vagas que nunca se cumpriram. A pesquisa demonstra que a campanha pelo fim da escala extenuante precisa abordar melhor estes aspectos da renda.
Divisão sobre empresas, consenso sobre qualidade de vida
Quando questionados sobre os efeitos da redução para as empresas, os entrevistados se dividem igualmente: 39% acreditam que os impactos serão positivos, e outros 39% preveem consequências negativas. No levantamento anterior, a percepção negativa era ligeiramente maior (42%).
Já sobre a qualidade de vida dos trabalhadores, há amplo consenso: 76% avaliam que o fim da escala 6×1 seria ótimo ou bom. Entre os que já têm dois dias de descanso, esse índice sobe para 81%. Na avaliação sobre impactos para a economia brasileira como um todo, 50% veem efeitos positivos, enquanto 24% preveem consequências ruins.
No plano pessoal, 68% acreditam que a mudança traria benefícios para si. A pesquisa também mostra que 59% dos que trabalham seis ou sete dias por semana consideram insuficiente seu tempo para lazer e descanso — percentual que cai para 29% entre os que trabalham até cinco dias.
Recortes políticos, geracionais e de gênero
O apoio à redução da jornada varia significativamente conforme preferências políticas. Entre eleitores de Lula no segundo turno de 2022, 82% são favoráveis; entre eleitores de Bolsonaro, o índice é de 55%. A percepção sobre impactos econômicos também segue essa divisão: 63% dos lulistas veem efeitos positivos para a economia, contra 37% dos bolsonaristas. Os recortes confirmam o acesso de bolha dos trabalhadores a informações direcionadas para defender tais pontos de vista.
No recorte geracional, o apoio é massivo entre os mais jovens: 83% dos entrevistados de 16 a 24 anos apoiam a medida. O percentual cai progressivamente com a idade, chegando a 55% entre os maiores de 60 anos. Por gênero, as mulheres apoiam mais a redução (77%) do que os homens (64%).
Entre religiosos, católicos (69%) e evangélicos (67%) apresentam níveis similares de apoio. Contudo, a frequência à igreja influencia: quem participa de cultos mais de uma vez por semana apoia menos a medida (63%) do que quem frequenta apenas uma vez por ano (81%).
Projeto de Daiana Santos ganha fôlego com apoio popular
Em meio ao cenário favorável revelado pela pesquisa, ganha relevância o projeto da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS), que tramita no Congresso Nacional propondo a redução progressiva da jornada de trabalho sem redução salarial. A proposta prevê a transição das atuais 44 horas semanais para 40 horas, com manutenção dos direitos e benefícios.
A parlamentar defende que a medida não apenas melhora a qualidade de vida dos trabalhadores, mas também estimula a criação de empregos, o consumo e a produtividade. “A redução da jornada é uma conquista histórica que coloca o Brasil em sintonia com as melhores práticas internacionais”, afirmou Daiana em entrevista.
O governo federal, por sua vez, sinaliza apoio à redução, mas com ênfase na negociação coletiva. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, declarou à Folha que “a lei tem que estabelecer a redução de jornada sem redução de salário, e a grade, com dois dias de descanso na semana, deve ser definida pelas negociações”. Essa posição representa uma flexibilização em relação à PEC da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe redução direta para 36 horas semanais.
Debate econômico: custos imediatos versus ganhos de longo prazo
A divisão de opiniões sobre impactos para as empresas reflete um debate mais amplo entre especialistas. Estudos setoriais alertam para elevação de custos operacionais, possível eliminação de vagas formais e redução do PIB no curto prazo. Outras análises, contudo, argumentam que o aumento de despesas ocorre uma única vez — na adaptação à nova jornada — e pode ser diluído com planejamento adequado.
Defensores da redução destacam experiências internacionais bem-sucedidas, como a de países europeus que adotaram jornadas menores sem perda de competitividade. Argumentam ainda que trabalhadores mais descansados tendem a ser mais produtivos, compensando eventuais custos adicionais.
Pressão popular pode acelerar votação
Com 71% de apoio popular, a pauta da redução da jornada ganha força política. Movimentos sindicais e entidades da sociedade civil já anunciam campanhas para pressionar parlamentares a priorizarem a votação das propostas em tramitação.
A pesquisa Datafolha oferece um termômetro claro: a sociedade brasileira está majoritariamente alinhada à ideia de que trabalhar menos, sem ganhar menos, é um direito que precisa ser conquistado. Cabe agora ao Congresso transformar esse consenso popular em legislação concreta — e ao governo garantir que a implementação ocorra de forma equilibrada.
Enquanto o debate segue, uma certeza se impõe: o tempo para lazer e descanso é insuficiente para quase 60% dos que trabalham seis dias ou mais. Para eles, o fim da escala 6×1 não é apenas uma bandeira política — é uma necessidade cotidiana.





