Bolsonaro, tire seu cínico e criminoso sorriso do caminho que o país vai passar com sua dor

Por José Geraldo de Santana Oliveira*

Por José Geraldo de Santana Oliveira*Sérgio, protagonista e narrador — para muitos, de forma autobiográfica — do livro “O Ateneu”, de Raul Pompeia, publicado em 1888, relata, no primeiro capítulo, suas primeiras impressões do internato, começando por repetir o que lhe dissera o pai, quando lá chegaram: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”.

Ato contínuo, em tom melancólico, assevera: “Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam”.

Em seguida, dá sua impressão do arrogante e soberbo diretor do Ateneu, Aristarco, afirmando: “Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco, todo era um anúncio. […] Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto”.

Ao depois, Sérgio descreve o bajulador discurso do professor Venâncio, serviçal de Aristarco, com as seguintes palavras:

“Um discurso principalmente impressionou-me. À direita da comissão dos prêmios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tesinho, O Venâncio, professor do colégio, a quarenta mil-réis por matéria, mas importante, sabendo falar grosso, o timbre de independência, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievais com o moderno certame das armas da inteligência; depois, uma preleção pedagógica, tacheada de flores de retórica a martelo; e a apologia da vida de colégio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarco e do Ateneu. ‘O mestre, perorou Venâncio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vai às conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar cotidiano da sagrada profissão, o seu auxílio ampara-nos como a Providência na Terra; escolta-nos assíduo como um anjo da guarda; a sua lição prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pai a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorites de sensação), e o espírito, é a força que impele, o impulso que triunfa, o triunfo que nobilita, o enobrecimento que glorifica, e a glória é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A família, é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com amor forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança íntima inapreciável da vontade. Acima de Aristarco — Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus — Aristarco’.

Um último gesto espaçoso, como um jamegão no vácuo, arrematou o rapto de eloquência”.

Como que a confirmar a refinada ironia de Oscar Wilde, segundo a qual a vida imita muito mais a arte do que é por ela imitada, o Brasil sob Bolsonaro, não por mera semelhança e/ou coincidência, parece ser cópia fiel do que descreveu Sérgio.

Primeiro, Bolsonaro acredita piamente que o Brasil é o Ateneu, de propriedade dele. E que, em sendo sua propriedade, tem o direito de dele usar, gozar e dispor, tal como dispõe o Art. 1228 do Código Civil (CC): “O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha”.

Para afastar qualquer dúvida sobre essa vil convicção, basta que se lembrem alguns de seus tirânicos rompantes, tais como: “Meu Exército não vai às ruas para agir contra o povo”, repetida ao dia 1º de abril corrente; “Enquanto eu for presidente, só Deus me tira daqui”, repetida ao dia 21 de março último.

Bajuladores e serviçais, à moda de Venâncio, pululam-se. Há centenas de Ernesto Araújo, o nefasto ex-sinistro das Relações Exteriores; Abraham Weintraub, ex-sinistro da Educação; Daniel Silveira, deputado federal, que representa a negação e o deboche do parlamento; etc.

A condição de sobrenatural, acima de tudo e de todos, exceto de Deus, o próprio Bolsonaro já enfatizou, em live do dia 6 de novembro de 2020, quando afirmou:

“O momento do Brasil ainda é difícil, assistimos à política externa e temos nossas preferências. O que acontece lá fora interessa para cada um de nós aqui dentro. Assim sendo, em certos momentos somente uma coisa nos encoraja e nos fortalece, Deus acima de tudo. Eu não sou a pessoa mais importante do Brasil, assim como Trump não é a pessoa mais importante do mundo, como ele bem mesmo diz. A pessoa mais importante é Deus”.

Aqui, Bolsonaro foi mais condescendente que Venâncio sobre Aristarco, pois que erigiu o defenestrado Trump a patamar superior ao seu, pois que, ele, segundo suas palavras, no Brasil, só não está acima de Deus; e Trump, à ocasião, no mundo, só se rendia a Deus.

Ao que parece, como oráculo, Bolsonaro é tão ridículo quanto o é como presidente do Brasil, pois que, três dias após essa teratológica bravata, as urnas confirmaram a defenestração de Trump.

O Brasil decente não vê a hora de acontecer o mesmo com Bolsonaro, pelo impeachment, uma vez que as eleições presidenciais somente ocorrerão em outubro de 2022, uma eternidade para o atual cenário de trevas em que Bolsonaro mergulhou o Brasil.

Ao reverso da figura quase transcendental que afirma ser, Bolsonaro parece, sim, encarnar a figura do monstro Hyde — o lado mau do Dr. Jekyll, da obra do escritor escocês Robert Stevenson, publicado em 1886, (The strange case of dr. Jekyll and mr. Hyde), traduzido como “O médico e o monstro”. Na obra, segundo o advogado Uttersom, também personagem do livro: “se alguma vez vi a marca de Satanás num rosto, foi no de seu novo amigo”.

Edgar Allan Poe, em seu poema “The Raven” (O Corvo), com tradução de Fernando Pessoa, ao discorrer sobre o que o personagem principal chama de “profeta” — do mal, é claro —, demônio ou ave negra, diz que “Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha”.

O olhar de Bolsonaro, parafraseando Allan Poe, tem mais do que cor de demônio que sonha; a rigor, é o olhar do próprio demônio, que sonha e age contra o Brasil e os brasileiros de bem.

Ainda sobre o livro de Raul Pompeia, cabe registrar que Franco, amigo de Sérgio, caiu doente e morreu, pelo descaso do médico e pela falta de cuidados do Ateneu.

No Brasil sob Bolsonaro, por sua proposital e criminosa ação, já morreram mais de 330 mil brasileiros e brasileiras, vítimas muito mais do descaso, da imprevidência e da improvidência do presidente do que pela letalidade da Covid-19.

O Brasil chegou ao inimaginável extremo de, graças ao descontrole e à expansão da pandemia, o número de óbitos ultrapassar o de nascimentos.

Por tudo isso, o Brasil que pulsa, preserva sentimentos humanos, ama e é solidário pede licença a Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito para utilizar versos de sua belíssima música “A Flor e o Espinho”, de 1957, e dizer a Bolsonaro: tire seu cínico e criminoso sorriso do caminho que o país vai passar com sua dor, pranteando os mortos, desprezados e achincalhados pelo presidente, e cuidando dos vivos, que este tanto despreza.

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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