Edgar Morin: Um dos maiores pensadores do século 20 nos deixa aos 104 anos
Nesta sexta-feira (29/5), o mundo perdeu Edgar Morin. Considerado um dos maiores pensadores do século 20, o francês escreveu mais de 70 livros, o filósofo e sociólogo se formou em direito, história e geografia pela Sorbonne.
Nascido Edgar Nahoum em Paris, no dia 8 de julho de 1921, Morin viveu o século 20 por dentro: a ascensão do nazismo, a ocupação da França, a Guerra Fria, Maio de 68, a globalização.
Morin rompeu com a forma compartimentada e cartesiana de ver o mundo – era um crítico da fragmentação do conhecimento que, para ele, deveria ser visto de forma integrada. Para Morin, o conhecimento é cultural, social e historicamente situado.
Seu conceito central, o chamado pensamento complexo, parte de uma crítica à forma como o Ocidente moderno organizou o saber: separando sujeito de objeto, natureza de cultura, razão de emoção, ciência de humanidades.
Aos 21 anos, em 1941, Edgar Morin – até então Edgar Nahoum – ingressou na Resistência da França. Naquele momento, o País estava ocupado por tropas nazistas alemãs. No ano seguinte, ele se filiou ao Partido Comunista Francês (PCF) e, em 1943, passou a usar o pseudônimo Morin, que o acompanhou para o resto da vida.
Filho de comerciantes judeus da tradição sefardita, Morin se mudou com sua família para Toulouse – região menos perigosa para os judeus naquele momento – após a invasão da França pelos alemães.
Ali, passou a conviver com os refugiados da Guerra Civil Espanhola, militantes socialistas e comunistas. Foi a partir daí que Morin deu início à sua atuação política contra o nazismo e o fascismo.
Ao filósofo foi dada uma missão importante: sabotar as ações do exército e da inteligência alemães nas vésperas do Dia D – uma das maiores invasões marítimas da história, envolvendo mais de 150 mil pessoas nas tropas aliadas, norte-americanos e britânicos em praias da Normandia. Ele foi recrutado pelo serviço secreto da França Livre, o Bureau Central de Inteligência e Ação (BCRA).
Sua tarefa era ser uma “ponte” entre os comandos gaullistas e os comandos comunistas da Resistência para garantir que eles executariam os planos de sabotagem de forma coordenada quando a ordem fosse dada.
Sua missão, como ele mesmo descreveu em seu livro Edgar Morin, um Homem, era complexa: “Era preciso fazer com que homens que se odiavam mutuamente, gaullistas e comunistas, cooperassem para um fim comum.”
Ao final da guerra, publicou seu primeiro livro, O Ano Zero da Alemanha. Morin também foi um dos fundadores da revista revisionista do marxismo “Arguments”, junto a Roland Barthes. Posteriormente, foi expulso do PCF por suas opiniões contrárias ao stalinismo.
Após um período nos Estados Unidos, onde se dedicou às ciências naturais e aos movimentos ecológicos, retornou à França. A partir daí Morin se debruçou na formulação de um pensamento crítico à compartimentalização do conhecimento por áreas. De acordo com a Multiversidad Mundo Real Edgar Morin, o pensador defendeu que a relação entre indivíduos, sociedade, espécie, natureza, história e cultura eram indissociáveis.
A grande obra de sua vida intelectual, O Método, publicada em seis volumes entre 1977 e 2004, foi a tentativa de construir um pensamento capaz de religar o que, segundo ele, a modernidade separou.
Sobre a Educação, Edgar Morin deixou grandes contribuições. “Os saberes não devem assassinar a curiosidade. A educação deve ser um despertar para a filosofia, para a literatura, para a música, para as artes. É isso que preenche a vida.”
Para o filósofo, nenhum campo era mais urgente que esse. Em 1999, a Unesco encomendou a ele um documento sobre os desafios do ensino no século 21. O resultado foi Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, um texto que se tornou referência mundial e continua atual.
Em sua tese central, a escola transmite conhecimento, mas não ensina o que é conhecer. Ao contrário, fragmenta a realidade em disciplinas separadas, mas não mostra as conexões entre elas. Dá respostas, mas apaga a curiosidade que leva às perguntas, e ignora, sistematicamente, as dimensões fundamentais para que um ser humano possa compreender o mundo em que vive.
A partir da perspectiva que elaborou e defendeu suas ideias, de forma comprometida com a civilização, Morin deixa um legado para a educação que vai além dos currículos e das salas de aula: o convite urgente a reaprender a pensar. Para ele, uma escola que fragmenta e simplifica não forma cidadãos, e sim pessoas incapazes de compreender o mundo em que vivem.
Morin nos lembra que educar é, antes de tudo, religar. Religar o saber à vida, o indivíduo à sociedade, o presente à história. Num mundo cada vez mais partido em pedaços, essa é sua contribuição mais necessária.
Confira trechos de sua entrevista sobre Educação para a Revista Prosa Verso e Arte:
Para ele, um dos principais objetivos da educação é ensinar valores. “Esses são incorporados pela criança desde muito cedo. É preciso mostrar a ela como compreender a si mesma para que possa compreender os outros e a humanidade em geral. Os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos. Por isso a educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educacional não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade.”
O pensador era contrário à divisão do saber em várias disciplinas: “As disciplinas como estão estruturadas só servem para isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo. Eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem. Caso contrário, será sempre ineficiente e insuficiente para os cidadãos do futuro.”
Também defendeu uma presença mais forte da literatura e das artes no ensino: “Elas poderiam se constituir em eixos transdisciplinares. Pegue-se Guerra e Paz, de Tolstói, por exemplo. O professor de Literatura pode pedir a seu colega de História para ajudá-lo a situar a obra na história da Rússia. Pode solicitar a um psicólogo, da escola ou não, que converse com a classe sobre as características psicológicas dos personagens e as relações entre eles; a um sociólogo que ajude na compreensão da organização social da época. Toda grande obra de literatura tem a sua dimensão histórica, psicológica, social, filosófica e cada um desses aspectos traz esclarecimentos e informações importantes para o estudante. Todo país tem suas grandes obras,”
Por Andressa Schpallir

