Palestinos de Gaza e do Líbano são selecionados para intercâmbio em universidades do Brasil

Estudantes foram escolhidos pelo Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB) e serão encaminhados a instituições federais de ensino superior, como a UFPR e a UFMS

O Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB) divulgou nesta sexta-feira (21/02) o nome dos 48 aprovados no programa de intercâmbio para estudantes palestinos refugiados oriundos da Faixa de Gaza e do Líbano. Também há casos de selecionados oriundos de campos de refugiados da Cisjordânia.

Segundo o edital do Programa de Mobilidade Internacional, trinta instituições de ensino superior ofereceram 1447 vagas no total, das quais 173 com bolsas de estudos para graduação, mestrado e doutorado.

A iniciativa contou com o apoio do Ministério das Relações Exteriores, da Agência para Refugiados Palestinos da Organização das Nações Unidas (UNRWA, por sua sigla em inglês), e do Centro de Estudos Palestinos da Universidade de São Paulo (USP). Ao menos dois desses estudantes já moram no Brasil, após terem sido evacuados de Gaza.

O projeto foi idealizado entre os anos de 2023 e 2024, período em que o embaixador Alessandro Candeas estava à frente da Embaixada do Brasil na Palestina. Atualmente, ele ocupa o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Lisboa.

Acolhimento das universidades brasileiras

Durante suas viagens, o diplomata teve a oportunidade de conhecer comunidades de refugiados, visitando acampamentos palestinos na Cisjordânia ocupada, na Faixa de Gaza, na Jordânia e no Líbano. Cada deslocamento organizado pela ONU incluía visitas a escolas palestinas e encontros com ex-alunos que já estavam em universidades.

“Fiquei muito impressionado com o alto nível dos estudantes palestinos nessas escolas administradas pela UNWRA, principalmente por conta do que havia acontecido em Gaza. O objetivo era oferecer vagas e bolsas de estudo para refugiados palestinos em parceria com a GCUB, uma associação que reúne quase 90 universidades brasileiras e já disponibiliza programas de atendimento a refugiados de várias nacionalidades”, explicou Candeas a Opera Mundi.

Entre as diversas agremiações, estão a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), a Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), a Fundação Universidade Federal de Grande Dourados (UFGD), a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ).

Alessandro Candeas destacou ainda o acolhimento e a receptividade que essa proposta teve junto às universidades brasileiras. A UNRWA ajudou no processo inicial de seleção, mas o resultado final coube a cada uma das instituições participantes, sem o envolvimento do Itamaraty, da missão em Ramallah ou da Agência da ONU.

“Alguns dos aprovados tiveram suas universidades destruídas na Faixa de Gaza. Por isso, fico muito feliz com o resultado, acho que é uma forma de o Brasil oferecer apoio aos estudantes que tiveram suas carreiras acadêmicas interrompidas por causa do conflito”, afirmou.

A luta de Yasmin

Yasmin Said Rabee, de 21 anos, foi uma das aprovadas para o curso de medicina na UFPR e é uma das estudantes selecionadas que já está morando no Brasil.

Em uma carta, a jovem de Gaza conta que esse foi o sonho que definiu a sua vida, pois, segundo ela, trata-se de uma “profissão nobre e humana” capaz de ajudar as pessoas “a ter um impacto positivo no mundo”.

Foi durante um período particularmente difícil da vida de Yasmin que a determinação de seguir a medicina aumentou. Em 2020, o pai foi diagnosticado com câncer. Ela e a família lutaram por um longo tempo, passando por inúmeros tratamentos e cirurgias. “Estar ao seu lado todos os dias, ver o seu sofrimento sem ser capaz de fazer nada, foi uma das experiências mais difíceis que já enfrentei. No final, ele faleceu, e essa perda foi devastadora”, descreveu.

Depois de presenciar todo esse sofrimento, a jovem prometeu que honraria a memória de seu pai, canalizando a dor em determinação. Essa perseverança nos estudos resultou em um notável 96,7% nos exames finais do ensino médio. As conquistas acadêmicas também lhe renderam uma bolsa e a aceitação na Universidade Al-Azhar em Gaza, onde iniciou a graduação em Medicina.

Após dois anos de progressos e boas notas, sua vida voltou a mudar drasticamente. Em outubro de 2023, após a ofensiva do Hamas contra Tel Aviv, além da universidade, a sua casa também foi destruída pelos intensos bombardeios de Israel à Faixa de Gaza, que levaram mais de 50 mil pessoas à morte.

Em meio ao caos, suas prioridades mudaram, e a busca por sobrevivência tornou-se essencial, focando em manter a família a salvo e encontrar abrigo e comida. Apesar das dificuldades, Yasmin nunca abandonou o sonho e manteve a esperança de retomar seus estudos.

“Minha família e eu finalmente conseguimos sair de Gaza, graças à ajuda do presidente Lula, que nos ofereceu a chance de buscar refúgio no Brasil. Chegamos em dezembro de 2023 e desde então vivo aqui”, relatou.

Agora, a jovem palestina quer começar uma nova vida no outro lado do oceano ao realizar o sonho que foi interrompido. Ela também aspira fazer parte do sistema de saúde brasileiro, aprender com a comunidade médica e retribuir à sociedade que a acolheu calorosamente. “A guerra e a perda de tudo o que eu conhecia não me tiraram o desejo de ajudar os outros”, finalizou.

Do Opera Mundi

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