Paulo Freire e a pedagogia do oprimido

Este ano registra o centenário de nascimento do educador brasileiro Paulo Freire. Entidades e organizações voltadas para a cultura programaram atividades para lembrar, divulgar e colocar em prática o pensamento do autor da Pedagogia do Oprimido. A Contee saúda e se soma a essas atividades. Durante o ano, o Portal da Contee publicará textos relativos à vida, obra e pensamento de Paulo Freire.

O verbete Freire, Paulo, foi extraído do Dicionário Enciclopédico de Ciências da Educação, elaborado pelo Centro de Investigação Educativa, Colégio Flamenco, de El Salvador, como “instrumento de trabalho educativo para docentes, formadores de mestres, estudantes do magistério, pesquisadores educativos, pedagogos e, em geral, para toda pessoa interessada nos diversos fenômenos associados à ação educativa”, como informam seus autores, Juan Carlos Escobar e Rolando Balmore Pacheco, coordenados por Oscar Picardo Joao.

Freire, Paulo

Paulo Freire, nascido no Brasil (1921 – 1997), desenvolveu-se como cientista educacional, foi a personagem que introduziu o método da pesquisa temática e da palavra geradora como forma básica de alfabetização de adultos. A situação mundial e a luta pela dominação não permitiram que Freire tivesse as condições básicas para criar e recriar uma novidade pedagógica em prol do direito de pensar das maiorias empobrecidas.

Entre 1960 e 1964 construiu seu método. Devido a este trabalho, Freire foi chamado a Brasília para assessorar o ministro da Educação, com a missão de promover seu método e expandi-lo como programa de alfabetização. Mas o golpe militar de 1964 interrompeu sua experiência e o conduziu ao exílio. Ele se mudou para a Bolívia e depois para o Chile onde, com o Ministério da Educação local, executou programas de alfabetização de adultos.

Do Chile mudou-se para os Estados Unidos e de lá para a Suíça, onde foi contratado pela Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, para dar apoio pedagógico científico ao programa de alfabetização que estava sendo promovido na Guiné-Bissau. Em 1967 e 1968 escreveu sua grande obra-prima, A Pedagogia do Oprimido, cujo conteúdo aponta para a emergência da pedagogia da liberdade ou teoria crítica do ensino.

A partir desta criação, colocou-se a necessidade de introduzir o significado verdadeiro de realidade e não o de uma sociedade desinteressada, na qual o autoritarismo desempenha um papel decisivo. Freire busca encontrar o entendimento como expressão do conhecimento socialmente comunicativo; e é realmente esse conhecimento que se espalha por todas as suas obras e que, à medida que as escreve, foi aprofundando cada vez mais.

O método de Freire foi incorporado em todos os ambientes de alfabetização de adultos e, com esta novidade, indicou-se um caminho para o desenvolvimento educacional; uma visão em que a pedagogia crítica se tornou uma política libertadora e esta, por sua vez, uma esperança para os “sem voz”. Trata-se de colocar o pedagogo dos oprimidos na trilha de liberdade ou emancipação, cujos elementos fundamentais se encontram na abordagem aos desprotegidos para que possam aprender a dizer a sua palavra, que é entendida como uma correlação entre reflexão e ação.

J. M. Gore (1999) esclarece que a pedagogia de Freire é uma pedagogia da prática na sala de aula, o que significa que a liberdade é construída a partir de um ambiente concreto e com autores que tornam essa liberdade operativa. Sem dúvida, essa prática também é um entendimento da posição dos educadores, que inclui um exame do discurso pedagógico… “Nós, intelectuais, devemos examinar a natureza de nossa própria linguagem. O desafio que os educadores enfrentam é transformar o discurso abstrato que herdamos de nossa formação acadêmica burguesa. Isso requer alguma coragem para reinventar a nossa expressão ao mesmo tempo permanecermos rigorosos e críticos… Encontrar essa expressão requer que os intelectuais rompam com o elitismo de sua formação e com o discurso que lhes garante prestígio das recompensas no meio acadêmico.” 1

A pedagogia crítica exige dos educadores uma autoavaliação, começando com a linguagem que, por sua vez, é uma forma de mudar o mundo e gerar pensamento crítico. Freire e Shor examinam a função do livro, no qual ele pode se tornar um espaço para a compreensão da realidade e para aproximar o indivíduo do mundo de sua liberdade. “Todos os livros que escrevi, sem exceção, constituem relatos de alguma fase da atividade pedagógica e política em que estive engajado (Freire, 1978) … O problema da pedagogia impôs-se a mim … No passado, só uma fração de trabalhadores-estudantes, docentes como eu, foram admitidos na universidade” (Shor e Freire, 1987). 2

J. M. Gore reconhece a concepção de mundo de Shor como de esquerda, e tipifica Freire como cristão, marxista, humanista, radical, revolucionário, existencialista e fenomenológico. Embora no final ele conclua que, devido à sua prática educacional e seus escritos, ele pode ser definido como um político de esquerda.

A concepção pedagógica de Freire está fundamentalmente ligada à categoria de liberdade que, se acolhida coletivamente, pode levar à transformação da sociedade. Não se admite, aqui, a liberdade como um fenômeno ou emancipação individual em um mundo de opressão. Esta liberdade não pode ser entendida como expressão da “liberdade” da pobreza ou de um sem-teto em uma cidade perdida. Este tipo de liberdade é a liberdade do autocrático, é o processo que aniquila as liberdades coletivas, é a recriação de uma linguagem hegemônica e incoerente com a realidade.

Em sua Pedagogia do Oprimido, Freire enfatiza fortemente que a educação libertadora é um processo político que visa despertar os indivíduos de sua opressão e gerar ações de transformação social. A educação concebida por ele é um processo de consciência através do qual uma pessoa analfabeta abandona sua consciência mágica por uma consciência realista. Mas esses dois tipos de consciência se desenvolvem em interação intersubjetivista e do processo de comunicação para chegar a acordos sem a pressão da figura do educador como único conhecedor da verdade.

Outro elemento decisivo da pedagogia de Freire consiste em sua preocupação com o empoderamento profissional, no qual se destaca que seu cenário é a prática social coletiva e não um empoderamento individual e não comunitário. Este é um empoderamento de classe social, entendido como sensação de grupo e humana… “Mesmo que se sinta à vontade, se esse sentimento não é social, se você não é capaz de usar essa liberdade recente para ajudar os outros a se tornarem livres por meio da transformação total da sociedade,  está pondo em prática uma atitude individualista em relação à capacitação profissional e à liberdade… Essa sensação de ser livre… não basta para a transformação da sociedade, embora seja absolutamente necessária para o processo de transformação social… curiosidade dos alunos, sua percepção crítica da realidade é fundamental para o transformação social, mas não basta”. 3

Mas esse empoderamento se torna uma possibilidade quando rompe com a cultura do silêncio, pois, segundo Freire, as massas são emudecidas e proibidas de tomar parte criativa nas transformações da sociedade e, portanto, proibidas de ser. “Apenas podem, circunstancialmente, ler e escrever porque foram ‘ensinadas’ em … humanitárias … campanhas de alfabetização, são, no entanto, alienadas do poder responsável pelo seu silêncio”. 4

Algo que gerou polêmica, mas ao mesmo tempo inovação na abordagens da pedagogia crítica, foi a tipificação dos papéis do professor e do aluno, unindo-os sob o conceito de comunicação ou diálogo. “Através desse diálogo, o professor dos alunos e os alunos do professor deixam de existir e surge uma nova expressão: professor-aluno com aluno-professor. O professor deixa de ser apenas quem-ensina, para se tornar alguém que é ensinado em diálogo com alunos, que, por sua vez, enquanto são ensinados, também ensinam”. 5

Na pedagogia de Freire, a ação está correlacionada com a reflexão; mas uma correlação que envolve atos de cognição e não de transferência de informação. Trata-se de uma aprendizagem – apontou Freire – “em que o objeto conhecível… faz a mediação entre os atores cognitivos… O professor deixa de ser apenas aquele que ensina, para ser ele próprio ensinado no diálogo. Esta perspectiva transacional de ensino e aprendizagem – colocava S. Gruñidal – significa que agora não faz sentido falar sobre o ensino sem falar, ao mesmo tempo, de aprendizagem, uma vez que a libertação da educação não rejeita a ação de ensinar”. “A pedagogia emancipatória, portanto, deve incluir em seu significado o ato de ensinar aprendizagem” 6 e não, como os modernistas afirmam, que não é mais possível estar falando de ensino quando o que interessa é a aprendizagem.

A par de Freire, existem outros pedagogos que buscaram ampliar sua concepção da pedagogia crítica e que incorporaram a concepção de liberdade nos processos sociais e não individuais. Atuam neste sentido Shor, Mcklaren, Giroux, Kemmis, Gruñid, Bernstein e outros. Hoje, pode-se inferir que a pedagogia crítica possui um corpo de cientistas que estão buscando vincular a educação à emancipação e, com isso, não negligenciar os temas que fizeram parte das ideias de Freire.

1 J. M. Gore. Controversias entre las pedagogías. Editorial Morata. 1996. Pág. 61.

2 Shor e Freire. Critical Teaching and Everyday Life. Boston. South End Press. 1992 Pág. 181 y 182.

3 Ibíd. Pág. 117y 118.

4 Paulo Freire. La pedagogía del oprimido. Ediciones Siglo XXI, España, Argentina, Venezuela, 1972. Pág. 30.

5 Ibíd.. Pág. 53.

6 Cfr. S. Gruñid. Proceso o praxis del curriculum. Editorial Morata. España, 1998. Pág. 142 y 143.

Freire, Paulo

(Diccionario Enciclopédico de Ciencias de la Educación, edición del Centro de Investigación Educativa, Colegio García Flamenco, 2005. El Salvador, pp 184 a 187, tradução de Carlos Pompe)

Carlos Pompe

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