Tatiana Sampaio desenvolve polilaminina, descoberta brasileira com potencial de devolver movimentos
A bióloga Tatiana Lobo Coelho de Sampaio ganhou projeção nacional ao desenvolver a polilaminina, uma substância criada em laboratório a partir da laminina, proteína naturalmente presente no corpo humano e essencial para a organização das células. Professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana lidera há mais de duas décadas um trabalho científico que pode representar um avanço importante da medicina regenerativa no Brasil.
A polilaminina é uma versão modificada da laminina que consegue se organizar de maneira mais eficiente no ambiente celular. Essa reorganização cria condições para que neurônios lesionados voltem a se conectar: a substância estimula o crescimento de fibras nervosas e atua como um andaime biológico que guia esse processo de reconexão, favorecendo a recuperação de funções motoras e sensoriais perdidas.
Em casos de lesão na medula espinhal, o corpo humano tem enorme dificuldade de regenerar as fibras nervosas rompidas. É por isso que tantas pessoas perdem movimentos e sensibilidade de forma permanente após acidentes ou traumas. Nos estudos conduzidos por Tatiana Sampaio e sua equipe, a polilaminina demonstrou capacidade de estimular o crescimento de neurônios e favorecer a recuperação de movimentos em pesquisas realizadas em laboratório.
Os resultados foram considerados promissores e a pesquisa já recebeu autorização da Anvisa para iniciar testes em humanos. Estamos falando de uma descoberta com potencial real de devolver movimentos a pessoas que hoje vivem com limitações severas.
A relevância da descoberta levou ao registro de patente internacional da polilaminina. Conforme a própria pesquisadora afirmou em entrevistas, o Brasil chegou a perder essa proteção no exterior após cortes de financiamento à UFRJ a partir de 2016, que inviabilizaram o pagamento das taxas necessárias para manter a patente ativa internacionalmente.
Posteriormente, com a entrada da farmacêutica Cristália no desenvolvimento do produto, a proteção intelectual foi retomada. Em comunicado recente, a empresa informou que solicitou a patente nacional em 2022 e a internacional em 2023, sustentando que a proteção está válida até 2043. O percurso da patente revela tanto as fragilidades estruturais enfrentadas pela ciência brasileira quanto a importância de garantir financiamento contínuo e estratégias sólidas de proteção à inovação.
A trajetória de Tatiana Sampaio também apresenta uma realidade que precisa ganhar mais visibilidade: as mulheres estão na linha de frente da ciência brasileira, mas ainda enfrentam barreiras concretas para permanecer nela.
Os dados mais recentes revelam avanços importantes e desigualdades persistentes na ciência brasileira. O Plano Nacional de Pós-Graduação 2025–2029 aponta que as mulheres representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação no país e ocupam cerca de 43% do corpo docente da pós-graduação. Já o relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, publicado em 2024 pela Elsevier em parceria com a Agência Bori, mostra que elas assinam 49% das publicações científicas nacionais, índice que coloca o Brasil entre os três países com maior participação feminina na produção científica entre os analisados.
Apesar desse avanço, a presença feminina diminui conforme a carreira progride. Entre pesquisadoras com mais de duas décadas de trajetória, a participação em publicações recua para cerca de 36%, fenômeno conhecido como “efeito tesoura”. No campo da inovação tecnológica, a disparidade é ainda maior: segundo o mesmo relatório da Elsevier e Agência Bori, patentes registradas exclusivamente por mulheres representaram entre 3% e 6% do total nos últimos 15 anos.
Tatiana Sampaio é exatamente o perfil que esses números tornam invisível: uma pesquisadora sênior, com décadas de carreira, que desenvolveu uma tecnologia com potencial internacional e cuja trajetória expõe tanto a capacidade científica brasileira quanto os desafios estruturais que ainda precisam ser superados.
Valorizar cientistas como ela é reconhecer que o avanço científico brasileiro tem rosto feminino e que ampliar o protagonismo das mulheres na ciência é uma estratégia concreta de desenvolvimento nacional.
Para a Contee, defender a ciência é defender a educação, a soberania e o desenvolvimento social do Brasil. A história da polilaminina mostra que o país tem capacidade técnica e criatividade para produzir soluções inovadoras para problemas complexos. Mas também evidencia que essa capacidade precisa ser sustentada por financiamento contínuo, planejamento de longo prazo e compromisso institucional.
Investir em ciência é investir em vida. Garantir condições para que pesquisadoras como Tatiana Sampaio continuem seu trabalho, e para que as próximas gerações de cientistas brasileiras não enfrentem as mesmas barreiras, é o mínimo que o país deve às suas mentes mais brilhantes.
O trabalho de Tatiana Sampaio simboliza o Brasil que dá certo quando aposta na ciência. E lembra que transformar conhecimento em política pública duradoura é condição essencial para garantir futuro, soberania e justiça social.
Por Antônia Rangel





