“Tesouraço” de Flávio: campanha promete corte equivalente a 1,5% do PIB sem detalhar quem paga a conta

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) transformou a palavra “tesouraço” em símbolo. O termo, repetido dez vezes em seu plano de governo e também pela coordenadora econômica de sua campanha, Daniella Marques, resume a promessa central do programa do candidato: um corte de 1,5% do PIB, algo em torno de R$ 200 bilhões, para supostamente “enxugar” a máquina pública e controlar a dívida.

Quem vai pagar a conta, como sempre, é o povo. Daniella Marques reconhece que 94% do orçamento federal é composto por despesas obrigatórias — aposentadorias, saúde, educação e salários. Isso significa que o espaço para cortar “gorduras” discricionárias é pequeno.

Questionada sobre como chegaria ao valor prometido, a coordenadora foi direta: “Não sou a Mãe Diná”. No entanto, é impossível negar que, se o ajuste depende de despesas obrigatórias, os atingidos serão aposentados, servidores e beneficiários de programas sociais.

O ministro da Educação, Leonardo Barchini, fez a conta. Segundo ele, os gastos discricionários da pasta somam R$ 43 bilhões, e um corte de R$ 200 bilhões atingiria em cheio o Pé-de-Meia, programa que paga bolsas a estudantes de baixa renda do ensino médio. Os dados mostram que um em cada quatro jovens de famílias vulneráveis deixaria o ensino médio sem o programa, segundo pesquisa citada pelo próprio ministro. Com o benefício, a evasão cai de 26,4% para 19,9%.

A equipe econômica de Flávio ainda citou Javier Milei como referência para o “tesouraço”. O presidente argentino, no entanto, cortou subsídios, congelou salários e desvalorizou a moeda — medidas que jogaram milhões na pobreza.

No Brasil, o tema mais sensível é a desvinculação do salário mínimo. Hoje, aposentadorias e benefícios sociais são corrigidos junto com o mínimo, o que garante ganho real quando a economia cresce. A equipe de Flávio não é clara sobre manter essa regra, mas um vazamento do plano em abril previa congelar aposentadorias em termos reais, corrigindo-as apenas pela inflação. Na prática, idosos e pensionistas perderiam poder de compra ano após ano.

Enquanto promete cortar gastos que chegam à mesa do trabalhador, a campanha quer reduzir impostos que beneficiam setores específicos. As prioridades anunciadas são reduzir o IOF ao patamar de 2022, medida que atinge operações financeiras, e acabar com o imposto de exportação de petróleo, de 12% .

O economista Adolfo Sachsida, integrante da equipe, defende as medidas como forma de “valorizar o investimento no Brasil”. Mas a campanha não explica como compensar a perda de arrecadação sem cortar ainda mais o que já é obrigatório.

Daniella Marques diz que o foco será “combater privilégios, supersalários e cargos comissionados”, mas a promessa não se sustenta. Mesmo se todos os privilégios fossem eliminados — o que ninguém acredita que acontecerá —, não haveria R$ 200 bilhões disponíveis. O dinheiro teria que sair de outro lugar.

Se o corte se concretizar, o Brasil vai, ao contrário do que sugere o programa de Flávio, voltar ao atraso. O Pé-de-Meia, as bolsas da Capes e os investimentos em universidades estão na linha de frente. Se a desvinculação do mínimo avançar, 41 milhões de aposentados e beneficiários do BPC perdem a proteção contra a inflação. Se os impostos sobre petróleo e IOF caírem, a arrecadação diminui e o ajuste fica ainda mais dependente de cortes sociais.

Por Andressa Schpallir

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