Sinpro/RS: A construção democrática somente se dará pela educação, afirma Jara

Inspirado em Paulo Freire, o educador e sociólogo peruano Óscar Jara Holliday fala do momento político atual, do avanço ensino mercantilista e a distância e do poder transformador da educação popular

Por Cristiano Goldschmidt

A construção democrática somente se dará pela educação, afirma Jara
Foto: Reprodução Youtube/TV Universidad

O educador popular e sociólogo peruano Óscar Jara Holliday, há mais de quatro décadas radicado na Costa Rica, é dono de uma extensa trajetória na educação popular latino-americana, com diversas obras publicadas. Sua ligação com o Brasil se deu a partir dos estudos das obras de Paulo Freire, iniciados em 1969. Há dois anos, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Nessa entrevista exclusiva, Jara – que juntamente com outros educadores está à frente da organização das comemorações do centenário de Paulo Freire, em setembro de 2021 – fala da importância do legado e da atualidade do pensamento do educador brasileiro, do início de sua carreira na periferia da capital peruana, das semelhanças históricas no contexto educacional latino-americano, do momento político atual, do avanço da educação mercantilista e do crescimento da educação a distância. Para Jara, “a educação pública, gratuita, laica, inclusiva e de qualidade é uma prioridade fundamental para a construção democrática nos países da América Latina. Nenhum país vai desenvolver verdadeiramente um processo de mudança, como se requer, se não fizer essa transformação”
Extra Classe – Como foi sua primeira experiência como educador popular?
Óscar Jara – Eu sempre digo que tive uma oportunidade inesperada e maravilhosa, que foi me inscrever num curso de alfabetização sobre o método de um brasileiro que se encontrava no Chile e se chamava Paulo Freire e que iria mudar toda a minha vida. Foi na universidade, no Peru. Eu estava estudando Humanas e Filosofia, em 1969. Não sei por que fiquei interessado por esse curso, que era de três a quatro meses, e nele eu tive que fazer uma experiência prática de alfabetização. Como eu militava num grupo de jovens das comunidades de base dos bairros periféricos de Lima, na capital, onde eu morava, meu primeiro grupo de prática de aprendizagem do método Paulo Freire de alfabetização começou ali, com cinco senhoras.

EC – E depois nas fazendas da reforma agrária?
Jara – Fui para o Norte do país, numa zona de reforma agrária. As fazendas eram grandes, de 8 mil até 16 mil hectares, e o projeto de reforma agrária tinha determinado que o tamanho máximo de uma propriedade privada poderia ser de 300 hectares. Foi um processo de recuperação dessas fazendas, e os operários agrícolas passavam a ser cooperativistas. Um companheiro jesuíta teve a importante ideia de criar um grande programa de capacitação, de formação técnica, administrativa, e também de política social. Não falávamos tanto de política, mas da parte social e técnica para formar essas pessoas que iriam ter que administrar as cooperativas das novas propriedades. Como parte desse projeto, foi muito importante o programa de alfabetização, porque a maioria das pessoas não era alfabetizada. Foram três anos morando no campo, fazendo todo o processo conforme o método freireano de recuperação do universo vocabular das pessoas, criando as palavras geradoras, os temas geradores, e promovíamos processos de diálogo com os camponeses e com as pessoas das comunidades onde a gente morava e trabalhava, na zona de Catacaos, no Norte do Peru. Fui me formando como educador popular e me vinculando a esse processo de escuta das pessoas, de sua vida, de uma zona que eu não conhecia, não conhecia o contexto, tampouco como se produzia e como se colhia o algodão, que era o principal produto. Não conhecia nada da vida dessas pessoas, e, nesse tempo, aprendi muito daqueles a quem eu ensinava. E como em todo o processo de reforma agrária, esse também foi complicado. As pessoas que ocuparam as terras precisaram exigir que esse processo fosse validado, que o princípio da reforma agrária passasse a ser reconhecido, tiveram que se engajar social e politicamente com o movimento camponês. E a gente também participou, apoiando essas mobilizações e ocupações de terras.

“Foi assim que eu fui compreendendo o sentido político do trabalho educativo e a articulação entre o político e o pedagógico”

EC – Para além da alfabetização, como se deu o processo de conscientização daquelas pessoas naquele momento?
Jara – A palavra conscientização teve muito sentido. Achava que a conscientização seria um processo prévio à participação consciente, mas depois descobri que a participação era o que criava verdadeiramente a conscientização. Essa foi uma das minhas primeiras falas com Paulo Freire quando eu o encontrei, em 1983, e lhe relatei minha experiência. E ele disse: “Sim, porque meus primeiros escritos podiam ter essa ideia, da conscientização como um processo prévio, mas depois, quando eu trabalhei a Pedagogia do Oprimido, ficou claro que o processo de consciência não é um processo prévio à ação consciente; mas é esse processo de ação, de organização, que é o que permite e facilita produzir consciência nas pessoas”. Daí para frente, para mim ficou muito clara a importância de vincular sempre a educação popular com a organização popular. E de pensar a educação popular não como uma atividade, não como um conjunto de atividades, mas como um processo educativo, de formação que vai se encaixando com os processos de organização, de ação concreta, que permitem vincular a teoria com a prática, a ação com a reflexão e, portanto, o processo de formação envolve tanto os educadores como os educandos. Fizemos também o Teatro do Oprimido, canções testemunhais, pesquisas participantes, produção de folhetos com suas histórias, e convivíamos com as pessoas do campo comungando das mesmas condições de vida. Foi um período decisivo na minha vida, com pouco mais de 20 anos, vinculando o que tinha estudado em filosofia, meu compromisso com a igreja popular e a experiência de educação popular.

A aprendizagem com Paulo Freire

EC – Qual a importância de Paulo Freire na sua formação e como foi sua trajetória?
Jara – Pedagogia do Oprimido marcou muito a minha formação nos anos de 1971 e 72, principalmente para que eu pudesse ter clareza do por que a gente estava trabalhando nesses processos educativos. Depois, voltei a Lima para estudar sociologia e trabalhei em uma entidade de educação popular que se chamava Tarea. Publicamos dois materiais, um deles produzido por Carlos Rodrigues Brandão, da equipe de educação do movimento ecumênico Igreja e Sociedade na América Latina (Isal). Depois, em 1977, 1978, chegou Cartas a Guiné Bissau, e este livro foi para mim uma descoberta muito grande. Esse diálogo que Freire faz com os educadores populares da Guiné Bissau e de Cabo Verde, suas reflexões com Amílcar Cabral e o processo de independência na África, eu os liguei com minha experiência de alfabetização e com o processo da criação e da construção do conhecimento emancipador. Convocamos para o primeiro encontro nacional de educação popular e fomos nos engajando com outras organizações semelhantes em outros países latino-americanos. No princípio dos anos 1980, quando eu deixei o Peru e fui para a Nicarágua trabalhar na educação popular, durante o governo sandinista, a presença de Paulo Freire já era muito grande dentro do meu marco de compreensão e, claro, eu tinha muito interesse em conhecê-lo pessoalmente. O Encontro Internacional de Educação Popular pela Paz, em 83 foi o momento em que se criou propriamente o Conselho de Educação de Adultos da América Latina (Ceaal). E por acaso, fui convidado a participar na reunião constitutiva. Nessa reunião, estive lá junto a Carlos Rodrigues Brandão e Paulo Freire, e tive a oportunidade de falar com ele pessoalmente por alguns momentos inesquecíveis.

EC – Como foi a experiência do primeiro encontro?
Jara – Foi maravilhoso, porque tivemos a possibilidade, um grupo de seis, sete jovens, de falar com ele, fora da reunião oficial, sobre vários temas. Começamos a conversar sobre educação, sobre a conscientização. Depois de cerca de uma hora o chamaram porque ele tinha um compromisso. Estávamos discutindo na rede Alforja e eu perguntei a ele se os educadores populares deviam ser pessoas de fora dos movimentos ou lideranças. “Uma liderança não só pode, mas deve ser educativa, saber para onde liderar, dirigir um movimento. Os caminhos da história são muito empoeirados, e por isso o dirigente não pode caminhar rápido à frente das pessoas, porque o pó que vai sair de suas sandálias pode impedi-los de enxergar bem a caminhada. Mas ele também não pode caminhar atrás. Ele tem que caminhar com as pessoas, junto delas, e isso é um trabalho de educação popular”, ele respondeu. Essa passagem foi muito marcante para mim, nesse primeiro encontro, ao ter a possibilidade dessa primeira relação pessoal.

EC – E no Brasil?

Jara – Em oportunidades seguintes, eu pude ir mais duas vezes ao Brasil, participar de reuniões do comitê diretivo do Ceaal, em que Paulo Freire esteve como presidente em 1984 e 1985. Nessa oportunidade fomos para sua casa, em São Paulo, com os companheiros Carlos Nuñez, Pedro Pontual, Cida Romano, do Centro de Educação Popular do Instituto Sapientiae (Cepis). Ali tivemos um encontro muito mais pessoal. Depois faleceu Elza, a primeira esposa de Freire, que tínhamos conhecido nessa visita. Encontramo-nos de novo em 1988, quando se estava criando o Instituto Cajamar, em São Paulo, quando fizemos uma oficina de educação popular, de metodologia de educação popular. Felizmente recuperei uma fita cassete gravada num evento de definição da proposta de formação política do Instituto Cajamar em que eu tinha participado com Carlos Nuñez, Pedro Pontual, Gilberto Carvalho e Maria do Carmo Albuquerque, e Nita Freire, a viúva de Paulo, utilizou a transcrição dessa fala no livro “Paulo Freire (2018): Pedagogia do Compromisso, América Latina e Educação Popular”. Foi um privilégio enorme, foram três dias de convivência no Instituto com este pequeno grupo de pessoas, não mais de uma dúzia. E Paulo Freire estava conosco todos esses dias. Uma das coisas que me impressionava muito era que, se você fazia uma pergunta, Freire não respondia imediatamente. Ele ficava pensando, escutando com muita atenção e tentando se debruçar sobre aquilo que estava no conteúdo da sua pergunta, o por que você perguntou, o que poderia significar, e então ele se inspirava e falava. Fazia uma pequena introdução e vinha com um grande pensamento. Ele mostrava toda sua alma e seu coração transmitindo seu conhecimento. E tivemos muitos momentos assim nesse encontro.

EC – Qual a importância do pensamento dele nos dias atuais?
Jara – Às vezes, eu também me pergunto, “o que faria Freire num momento como esse? Ele falaria, ele escutaria, ele provocaria um diálogo?” Olho esse jeito que ele tinha, de tentar escutar atentamente as coisas que as pessoas trazem, suas inquietações e desafios, e percebo que ele foi encontrando, por exemplo, mais que um conceito, uma perspectiva do desafio – que é algo que perpassa toda a sua obra. Freire está permanentemente falando que o processo de educação, na verdade, é a criação de desafios, é viver o desafio, desafiar e saber ser desafiado pelo momento, pelos educandos, pelo grupo com o qual você está trabalhando, e você como educador, como educadora, também os desafia com suas inquietações, suas perguntas, suas informações. Porque não é essa ideia de um professor que ensina, mas também não é a ideia de que eu venho aqui para “facilitar”, porque se eu sou facilitador, eu não estou comprometido com a situação, não é meu problema, eu só facilito o que vocês vão discutir, eu não tomo parte, eu não estou engajado com o processo.

“Ele mesmo criticou essa função meio afastada do educador enquanto facilitador metodológico, um pensamento ilógico, como se a metodologia fosse uma coisa afastada do engajamento no processo. Não, somos parte do processo e estamos comprometidos com a realidade das pessoas com quem trabalhamos”

A educação ideal

EC – Qual a sua ideia de uma educação ideal, ou de um processo educativo ideal?

Jara – É essa ideia do desafio. Eu sinto que as situações nos desafiam, as perguntas, os silêncios nos desafiam. E nós devemos nos desafiar também, tentando ir além. Esses desafios fazem com que o processo criativo seja uma aventura criadora e não simplesmente a execução de um plano pedagógico, um currículo criado previamente e que tenha um pacote pronto de conteúdos que se vá transmitir. Cada aula, cada encontro, cada reunião é uma grande aventura para criar. Se você não cria nada de novo, se você vai com a visão burocrática, rotineira, repetitiva, você está se afastando dessa ideia fundamental do processo da educação popular, que é a curiosidade, a crítica, a participação, o diálogo, a horizontalidade, e tudo isso resumido em uma grande possibilidade de desafiar, de ser desafiado e, portanto, ultrapassar todas as situações-limites que se apresentam como já dadas, e se não as problematizamos, não as desafiamos, não nos sentimos desafiados por elas, não vamos fazer nada. Paulo Freire nos disse para adaptar, mas adaptar não para ficar, mas para transformar. Então eu acho que é um pouco por aí, é um processo que marca o sentido de minha vida como educador.

EC – Como se faz educação popular em tempos tão distópicos como este século 21?
Jara – Todos os processos históricos precisam de sujeitos históricos que os construam. Por isso, esse momento histórico tem os desafios desse momento para construirmos, como sujeitos, um novo protagonismo. Mas quais são esses desafios de agora? Têm a ver com uma matriz cultural dominante, hegemônica no mundo, que é a matriz que está em torno de um paradigma do mercado, do lucro, do consumo, do individualismo. O paradigma neoliberal que ao mesmo tempo mistura o sentido central de uma proposta capitalista, mas também com a herança de processos de colonização mental, de dependência daquilo que vem de fora para dentro. Então, esse contexto, que é capitalista, essa matriz cultural, patriarcal, racista, discriminadora, excludente, exige uma mudança radical e, portanto, exige sujeitos políticos organizados que construam precisamente o contrário, um outro paradigma, o paradigma da solidariedade, do trabalho coletivo, o paradigma que possibilita a equidade, o respeito às diversidades. É preciso todo um novo paradigma ético, político e pedagógico em torno das possibilidades de respeito à natureza, de nos sentirmos parte da natureza.

“Frente ao paradigma de depredação da natureza está o paradigma de cuidado com a natureza, cuidado com a vida. Esses dois paradigmas em confronto têm a ver com duas matrizes, dois paradigmas que lutam entre si e, portanto, os processos de educação popular são processos baseados nesse novo paradigma pelos quais devemos nos converter em sujeitos críticos, propositivos, que tenhamos capacidade teórica, prática e emocional para fazer mudanças”

EC – Acredita que essas mudanças são possíveis na atual conjuntura?
Jara – Acho que esse é um momento difícil precisamente porque a força dessa matriz cultural hegemônica é muito grande e a lógica do opressor está, como diz Paulo Freire na “Pedagogia do Oprimido”, dentro da mentalidade dos oprimidos. E a pior situação é quando o oprimido se sente e atua como opressor. Tem uma lógica dominante de poder autoritário que perpassa as classes sociais e que, muitas vezes, se coloca contra os próprios interesses da classe trabalhadora, então, constituir-se como sujeito transformador pressupõe desmontar essa lógica, pressupõe também encontrar as raízes de novas possibilidades. A pandemia visibiliza todas as desigualdades e tornou muito mais visível a desigualdade no acesso à tecnologia, à saúde, à educação, etc, e agrava essas desigualdades, criando um impacto não apenas nas condições materiais e de acesso, mas também um impacto na subjetividade das pessoas.

EC – E como a educação pode ajudar a mudar isso?
Jara – Os processos de educação popular deveriam, por exemplo, tentar criar uma compreensão maior das causas das desigualdades, e descobrir porque essas desigualdades estão se agravando nesse momento. Também, começar a identificar aqueles fatores, aquelas experiências significativas que estão se criando com outra lógica: experiências de bem viver, de economia solidária, de outra forma de produzir, de consumir, de fazer educação e ter a possibilidade de nos inspirar para pensar em um nível muito mais alto. A construção de alternativas pressupõe desmontar a lógica da estrutura dominante e supõe pegar, recolher, articular, identificar, dinamizar aqueles elementos que o próprio povo está criando nessas condições. É um trabalho muito complexo, muito atípico e que exige inteligência, sensibilidade, muita participação, e temos que encontrar essas formas de fazer.

Educação mercantilizada

EC – Qual a sua avaliação sobre o crescimento do mercado privado de educação, especialmente as instituições mercantilistas na América Latina?
Jara – Na verdade, esse processo é uma realidade que parte dessa matriz cultural dominante da elitização da educação superior, de se pensar que a educação pública deve ser cortada dos orçamentos governamentais. Parte também do pressuposto de que a educação privada é que possibilita o acesso aos mais altos níveis de qualidade no ensino superior, e sabemos que não é assim. Se você está pensando uma educação mercantilizada, você está pensando simplesmente uma formação profissional em termos de mercado, que postos do mercado que você vai ocupar, de se fazer esse curso porque tem saída no mercado. Onde o sucesso é ter um bom trabalho com um bom salário. Portanto, perde-se todo o sentido de uma formação, de uma educação, que tem a ver com a problemática de seu país, com a realidade do seu mundo.

EC – Por quê?
Jara – A educação mercantilista desconsidera e condena todos os outros elementos que perpassam o processo de formação. Ela desconsidera os processos de ensino-aprendizagem com os projetos de pesquisa, com os processos de extensão. E, na América Latina, a extensão universitária tem uma história, uma trajetória, uma tradição muito importante. Uma boa universidade constrói conhecimentos junto ao povo, compreendendo que a chamada extensão, na verdade, é um processo de ação social, de projeção social, de participação das comunidades dentro das universidades, colocando o vínculo do ensino, aprendizagem, extensão e pesquisa fazendo parte de um mesmo e único modo de trabalho, um mesmo processo formativo e, portanto, em uma universidade, se eu quero me formar verdadeiramente com qualidade, eu tenho que ter um compromisso com o meu contexto e com minha realidade, e não só me formar ou estudar para ter um posto no mercado. E você não pode falar de uma educação de qualidade se você não responde às necessidades do seu tempo. E agora está na moda a Educação a Distância, com grandes programas que essas empresas transnacionais da informática estão criando, com módulos educativos, técnicas para você simplesmente utilizar como um pacote pronto, inclusive com os conteúdos, em vez de desenvolver capacidades de pesquisa, capacidades de análise crítica, capacidades de diálogo de intercomunicação, capacidades de criatividade.

EC – Como garantir uma educação de qualidade e o acesso universal aos estudantes latino-americanos?
Jara – Diante das políticas privatizadoras e mercantilizadoras do neoliberalismo que estão tirando o sentido do fazer universitário, do fazer do ensino superior, temos que procurar garantir uma extensão na ampliação do direito ao acesso, às possibilidades da educação de todas essas pessoas, como um direito inalienável que vá permitir um elemento que é fundamental: garantir a democratização da nossa sociedade. Garantir a possibilidade de uma participação democrática ativa e crítica. E participação democrática não se trata simplesmente do momento de votarmos em uma eleição. Participação política é uma participação permanente, em que todos nós debatemos, discutimos, encontramos formas de vínculo entre nossos problemas, nossas necessidades, nossas potencialidades e, portanto, nos engajamos num processo de construção social democrática e democratizadora contínua. A educação pública, gratuita, laica, inclusiva e de qualidade é uma prioridade fundamental para a construção democrática em nossos países. Na América Latina, nenhum país vai desenvolver verdadeiramente um processo de mudança, como se requer, se não fizer essa transformação.

As ditaduras

EC – A ditaduras retardaram esses processos?

Jara – Esses longos períodos ditatoriais autoritários em nossos países existiram porque eram movimentos de resposta, de reação, às oportunidades que o povo estava tentando criar, como melhores condições de vida para todos, desde, inclusive, o nascimento de nossas repúblicas. No nascimento de nossas repúblicas, a ideia de uma instrução pública gratuita estava nos ideais dos nossos primeiros anos da independência. Mas é um projeto que não tem se desenvolvido adequadamente. E quando os setores populares têm lutado, têm se organizado para podermos fazer essas mudanças – não só no campo educativo, mas tem a ver com mudanças políticas, da estrutura econômica e social – nesses momentos, os governos ditatoriais têm tentado abafar essas oportunidades. Então é evidentemente muito claro que esses processos ditatoriais têm impedido o desenvolvimento massivo dos direitos da população. Mas, paradoxalmente, todo momento ditatorial também tem criado outras possibilidades que as pessoas têm desenvolvido à margem dessa proposta autoritária.

EC – Por exemplo
Jara – No Brasil, depois de 1964, quando Paulo Freire teve que ir embora, ao exílio, se desenvolveram muitas experiências, em todas as comunidades de base, camponesas, urbanas, dentro do campo da igreja progressista, de processos de educação popular que – e você conhece muito melhor do que eu – foram espaços onde as pessoas foram criando outro jeito de fazer, outro jeito de se comunicar, outro jeito de encontrar alternativas que levaram a um processo de organização, de procura, de luta pela democracia. Quando fui para o Brasil pela primeira vez, em 1983, ainda estava no governo militar, e eu me lembro do movimento pelas Diretas Já, o movimento da Organização dos Trabalhadores, de alguns dos primeiros acampamentos do Movimento Sem Terra, em plena ditadura, então, mesmo naquela conjuntura, houve ainda muitas novas oportunidades que foram sendo criadas, porque o povo tem uma capacidade mobilizadora e criativa enorme mesmo nas circunstâncias mais desfavoráveis.

EC – Um movimento de resistência?
Jara – Na Argentina tinha uma ditadura brutal, tremenda. Ainda assim surgiu o Movimento das Mães da Praça de Maio, que depois criaram a Universidade das Mães da Praça de Maio. Elas fizeram todo o processo de organização da educação popular, aquelas mães que estavam procurando os seus filhos e filhas desaparecidas foram criando um movimento que enfrentou a ditadura. Tiveram que estudar as leis, como se organizar, aprender economia, política, o processo exigiu formação. No Chile surgiram novos processos de educação popular a partir do enfrentamento à ditadura Pinochet, exigindo a democracia. E, paradoxalmente, Freire produz a Pedagogia do Oprimido porque teve a possibilidade de ir ao Chile, onde pode processar seu pensamento. Com a ditadura de Pinochet, com a ditadura na Argentina e a ditadura brasileira, brasileiros e brasileiras, argentinos, uruguaios, paraguaios e chilenos passaram, exilados ou não, por toda a América Latina, chegaram à América Central, à Costa Rica, à Nicarágua, ao México, ao Peru, Equador, desenvolvendo seus pensamentos junto com as ditaduras. É paradoxal dizer que foi por esse processo de autoritarismo e de ditadura que as pessoas foram ao exílio, e que esse exílio contribuiu para espalhar a educação popular, a Pedagogia da Libertação, a pesquisa participante, o Teatro do Oprimido do Boal, o trabalho social crítico, a comunicação popular. Se não tivesse sido obrigado pela ditadura militar a se exilar, talvez Boal não tivesse a possibilidade de passar por todo o mundo com seu Teatro do Oprimido. As pessoas, os povos, sempre têm uma capacidade inesgotável de criação mesmo nas dificuldades. O poder criativo está sempre lá, não é fácil, mas basta as condições para que ele surja. Nesse momento, por exemplo, no Brasil tem tanta coisa acontecendo no meio de um governo que tem uma política fascista, de uma população que tem um setor realmente discriminador e excludente, racista, e mesmo assim estão surgindo processos de reidentificação da articulação de manifestações que vão permitir construir, precisamente outros espaços. Então, mesmo que a situação possa ser muito ruim e muito dura, sempre tem uma raiz, uma semente de criatividade que pode criar algo de novo.

EC – Qual é o papel dos educadores nesse contexto?
Jara – Podemos e estamos criando redes e vínculos de apoio entre os distintos movimentos e atores sociais, cada um com distintas características, com distintas reivindicações particulares. Penso que a aspiração democrática, em seu sentido mais profundo – em termos de uma matriz de equidade, de respeito às diversidades das pessoas, de garantir um respeito e um cuidado com a natureza do planeta – são preocupações que perpassam todos os povos. E qualquer pessoa, não importa o país onde esteja, que tem essa preocupação pela vida, que tem uma preocupação pela dignidade das pessoas, está se engajando, de alguma maneira, em um processo de construção democrática e de combate às ditaduras. Para impulsionar processos de construção democrática você precisa de processos de educação popular. Educação popular horizontal, dialógica, porque quando você faz um processo de educação popular, permite que as pessoas valorizem seu próprio pensamento, seus próprios saberes e suas próprias possibilidades de agir. Não importa o lugar, educação popular não é uma forma, não é um método, uma coisa uniforme. São processos sempre ativos, criativos, respondendo às necessidades concretas das pessoas buscando uma transformação.

EC – Como combater as novas formas de ditadura?
Jara – Paulo Freire, na Pedagogia do Oprimido, disse que diante das situações-limite, aquelas situações que aparecem como imutáveis, que aparentemente são eternas e que não se pode mudar, o processo de mudança implica um processo de problematização, que por um lado denuncia esses elementos negativos, e por outro lado, anuncia os germes de outras possibilidades. Por isso, a criação de um inédito viável significa fazer a mais radical e possível mudança que hoje se pode fazer. Essa mudança é o inédito viável, que vai permitir passar a outro nível, que vai permitir fazer outro tipo de mudança. Porque, às vezes, a situação é tão complexa que você não pode mudar de um dia para outro, mas você pode fazer uma mudança muito radical hoje. Não qualquer mudança, porque tem mudança que contribui para que o sistema continue se reproduzindo, mas uma mudança o mais radical que seja possível hoje, que vai criar condições, disposições, capacidades, possibilidades para pensar mudanças muito mais amplas. Então, acho que Paulo Freire é muito inspirador com sua perspectiva dos inéditos viáveis, em qualquer momento da história, qualquer canto, qualquer lugar do mundo.

Do jornal Extra Classe, do Sinpro/RS

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