Sinpro/RS: O PT refém, o pseudomessias e o eleitor seduzido

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Crise econômica associada à ascensão da direita e dos comportamentos fascistas em nível global, aumento da sensação de insegurança da população em virtude da estagnação e desemprego, violência associada à recessão, culpabilização do PT e sentimento de antipetismo alimentado diariamente pelos grandes grupos de mídia e pelo judiciário. Diversos fatores convergiram para o resultado das eleições presidenciais em primeiro turno na opinião do cientista político Benedito Tadeu César. Professor aposentado da Ufrgs, integrante das coordenações do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito, do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil-Nação e do Movimento Democracia, Diálogo e Diversidade (M3D), Benedito analisa nesta entrevista a votação majoritária obtida pelo candidato de extrema-direita do PSL, capitão da reserva do Exército e deputado federal Jair Bolsonaro, ante o candidato de esquerda, professor universitário e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores. “A decepção é tão grande, que qualquer pseudomessias é capaz de seduzir enorme parcela do eleitorado”, avalia. Para o cientista político, Bolsonaro sabe que atingiu o teto de votos, daí a pretensão (frustrada) de vencer em primeiro turno. “Haddad, entretanto, tem muito a crescer, desde os votos de Ciro Gomes, que deverão se transferir em massa para ele, quanto a maior parte dos votos que ainda restaram em Marina e Meirelles e até alguns votos de eleitores de Dias e de Daciolo”, sinaliza.

Extra Classe – Como o senhor avalia o resultado do primeiro turno da eleição presidencial, em que o candidato do PSL teve maior votação em 16 estados e no DF e o do PT foi o mais votado em nove?
Benedito Tadeu César – O resultado positivo para Bolsonaro foi o coroamento de um processo de desconstrução institucional, político, social e ético que está acometendo a sociedade contemporânea, com a desconstrução do Estado de Bem-Estar Social em todo o mundo desenvolvido e que no Brasil se manifestou de forma mais intensa devido à ação coordenada da mídia oligopolista, das cúpulas do poder judiciário e do ministério público e da ação de agências de inteligência internacionais. Além disso, devido à crise econômica, que é mundial e que está promovendo o avanço da direita e dos comportamentos fascistas em todo o mundo, a sensação de insegurança da população aumentou, tanto em virtude da estagnação econômica e do aumento do desemprego, quanto em decorrência do aumento da violência que acompanha a crise econômica em todo o mundo e também no Brasil. A partir de um discurso anticorrupção e de culpabilização do PT e de suas administrações pelas dificuldades que atravessa o país e sua população, vem sendo alimentado diuturnamente há anos um sentimento anti-PT que se manifestou na votação do primeiro turno em quase todo o Brasil.

EC – O senhor diria que é um processo paralisante?
Benedito – O PT não soube ou não pode se contrapor a esse ataque, até porque uma das principais bandeiras do petismo e que foi um dos meios que o PT se utilizou para conquistar o apoio das classes médias ao longo de sua existência, que foi o combate à corrupção, foi rompida com os ataques e condenação de suas principais lideranças. O fato de haver ou não provas contra essas lideranças parece que importa pouco para a maioria da população, ou porque ela está mal-informada, ou porque a decepção com o petismo é maior do que a suspeita de perseguição. Além disso, o centro político, incluindo a centro-direita, brasileiro se esvaiu. O fato de muitos partidos de centro e dentro direita e suas principais lideranças terem integrado os governos petistas e, posteriormente, deferido ou aderido ao golpe que depôs Dilma Rousseff e colocou um governo que traiu as expectativas que se formaram a seu respeito, fez com que a população se visse órfã. De um lado, uma parcela desacreditou do PT, de outro, uma enorme parcela desacreditou do PSDB e do MDB. Durante a campanha eleitoral, para coroar o processo, esses partidos de “centro” e seus candidatos, numa tática suicida, elegeram o PT como seu maior adversário, deixando a extrema-direita e seu candidato correr solto. Ninguém atacou Bolsonaro nos seus pontos fracos, enquanto todos atacaram o PT e Haddad naquilo que grande parte considerou como sendo suas mazelas, a “corrupção” e a “incapacidade” de governar. O resultado foi a avalanche de votos em Bolsonaro, um candidato que não apresentou proposta alguma, que se escondeu durante a campanha (favorecido eleitoralmente pela facada que levou), que atuou fortemente nas redes sociais, disseminando fake news e que se apresentou, aos olhos do eleitorado, como um “candidato antissistema”, alguém que “está contra tudo o que está aí”.

EC – É esse descrédito que o eleitorado sinaliza?
Benedito – Ele está desiludido com “tudo o que está aí” e busca algo ou alguém que se apresente contra o atual status quo. E, além disso, alguém que se apresente como capaz de conter a violência a que a população está submetida todos os dias. Não importa se esse alguém é tosco, misógino, homofóbico, violento, favorável à tortura e defensor da ditadura. Não importa se esse alguém tem condições de conter a violência ou se ele vai aumentá-la. A decepção é tão grande, que qualquer pseudomessias é capaz de seduzir enorme parcela do eleitorado.

EC – O que foi determinante para essa votação massiva? O resultado (46% a 29,3%) está associado somente à cristalização do antipetismo?
Benedito – O antipetismo é forte, mas não é o único fator. A insegurança e a desilusão com as instituições republicanas, dos partidos políticos ao judiciário, passando pelo executivo e o legislativo, somadas à crise econômica e à ausência de sinais que apontem para uma saída a curto prazo, levou grande parte do eleitorado à desilusão e abriu as portas para a emergência de um pseudossalvador. A prisão de Lula contribuiu fortemente para isso, pois aquele que era visto como a liderança capaz de conduzir o país e sua população para a saída da crise foi retirado do jogo. Parcela não desprezível do eleitorado lulista e não petista migrou, no último momento, para Bolsonaro, em busca de um novo “salvador”.

EC – É possível reverter? De onde viriam os votos?
Benedito – Acredito que é possível reverter o quadro do primeiro turno e vencer Bolsonaro e sua investida fascista. Não devemos nos esquecer que Geraldo Alckmin, quando disputou o segundo turno com Lula em 2006, teve uma votação menor no segundo turno do que havia obtido no primeiro. Alckmin foi de 41,64%, no primeiro turno, para 39,2% dos votos no segundo turno. Parece-me que Bolsonaro praticamente bateu no seu teto e os seus estrategistas eleitorais sabem disso. Por esse motivo o empenho em vencer no primeiro turno. Esse empenho, somado à tática suicida do “centro”, a que eu me referi acima, fez com que minguassem os votos de Marina, de Meirelles, de Dias e até de Daciolo, que ficaram todos com índices eleitorais um pouco acima ou um pouco abaixo de 1%. Seus eleitores simpáticos a Bolsonaro já migraram para ele. Fernando Haddad, entretanto, tem muito a crescer, desde os votos de Ciro Gomes, que deverão se transferir em massa para ele, quanto a maior parte dos votos que ainda restaram em Marina e Meirelles e até alguns votos de eleitores de Dias e de Daciolo.

EC – Como Haddad conquistaria esses votos?
Benedito – 
Para que isso seja possível, será preciso que Haddad se apresente como realmente é, descolando-se momentaneamente de Lula, apresentando suas propostas de governo, centrando sua campanha nas questões sociais e econômicas, no projeto de desenvolvimento do país, de geração de emprego e renda e, muito importante, buscando apoios informais de grandes lideranças políticas ainda na disputa, como o candidato do PSB ao governo de São Paulo, Márcio França, e muitos outros. Haddad precisará construir um grande arco de alianças, que inclua as esquerdas, mas também o centro e até parcelas da direita republicana e democrática que existir no Brasil. Haddad precisa se apresentar como o candidato da reconciliação nacional, do desenvolvimento e da inserção social. Precisará sinalizar, sem utilizar esse termo, com a reconstrução do grande pacto social lulista. Haddad precisará falar para as maiorias e não para as minorias. Por isso, o centro da sua campanha de segundo turno precisa ser social e econômico e não moral ou comportamental. Haddad não pode aceitar as pautas da corrupção, da defesa intransigente das minorias ou, ainda, da defesa e submissão a Lula, que tentarão lhe imputar. Além disso, precisará desafiar Bolsonaro a apresentar suas propostas econômicas e sociais e a comparecer nos debates. A exposição de Bolsonaro e de suas propostas, e até mesmo o tempo de televisão e rádio de que ele passará a dispor no segundo turno poderão se transformar em grandes inimigos da candidatura Bolsonaro. Até aqui, Bolsonaro foi comprado sem que o eleitor soubesse o que lhe foi oferecido. O eleitor comprou algo sem saber o que era. Quando souber, muito provavelmente, muitos dos que votaram em Bolsonaro no primeiro turno deixarão de fazê-lo no segundo turno.

EC – Qual a sua avaliação da cobertura de primeiro turno pelos grandes grupos de mídia?
Benedito – A cobertura da mídia oligopolista foi totalmente tendenciosa e foi acobertada e garantida pela justiça eleitoral e comum. O conluio grande mídia-judiciário foi escandaloso e foi responsável, em grande parte, pela não explicitação do projeto político de Bolsonaro e do perigo que ele carrega. Talvez, no segundo turno, ante a ameaça mais intensa e mais próxima, haja alguma pequena mudança na forma de cobertura da grande mídia, fazendo com que ela seja menos tendenciosa. Aguardemos.

EC – O senhor referiu a diferença entre os projetos em disputa. O que os diferencia?
Benedito – São dois campos em disputa. De um lado, a extrema-direita, com seus preconceitos, com sua violência, com o desmonte das políticas sociais e com a submissão total do país aos interesses das grandes potências internacionais. De outro, a esquerda e a centro-esquerda e as áreas de centro e da direita democrática que se agregarem com a proposta de inclusão social, geração de emprego e desenvolvimento nacional.

EC – Por que as forças de centro-direita, localizadas entre Alckmin e Marina se desintegraram na reta final do primeiro turno?
Benedito – Em síntese, no entanto, posso afirmar que dois fatores influíram: 1) a antecipação do segundo turno buscado por Bolsonaro e 2) a tática suicida do centro político de atacar Haddad e de tentar igualar os “extremos”, como se Haddad e Bolsonaro representassem o mesmo perigo, o que fez com que eles perdessem credibilidade e com que seus eleitores antecipassem seus votos de segundo turno, confluindo para Bolsonaro ou para Haddad.

EC – Os três partidos do impeachment, PSDB, MDB e DEM, perderam representatividade e o PT elegeu a maior bancada na Câmara. É possível afirmar que os partidos de esquerda mantiveram ou ampliaram seus espaços?
Benedito – O PT elegeu a maior bancada de deputados federais, mas vem elegendo menos deputados a cada eleição desde 2010. Naquela eleição, ele elegeu 88 deputados federais, desceu para 70 em 2014 e agora elegeu 56. A redução é nítida, mas o fato de se manter como a maior bancada é revelador da força e da vitalidade que o partido continua detendo. O PSDB e o MDB foram os partidos que mais perderam cadeiras de deputado federal. O MDB passou de 79, em 2010, para 66, em 2014, e agora apenas 34. O PSDB, que elegeu 53 deputados federais em 2010, passou a 54 em 2014, e agora elegeu apenas 29. No entanto, o partido que mais cresceu foi o PSL, de Bolsonaro, que tinha apenas oito deputados federais e agora elegeu 52. Assim, se o PT manteve uma bancada expressiva e se também o PDT e o PSol cresceram, os partidos de “centro” foram os mais atingidos, enquanto os partidos de direita também cresceram. O PP, que praticamente inexistia na Câmara Federal, elegeu 37 deputados.

Do jornal Extra Classe, do Sinpro/RS

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