Para além do barril: como a guerra contra o Irã reconfigura energia, economia e soberania nacional
Os ataques impetrados pelos Estados Unidos e Israel ao Irã desencadearam uma crise com consequências não somente para a região diretamente envolvida no conflito, mas também para a economia global. Os preços do petróleo e do gás natural dispararam desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, levando a AIE (Agência Internacional de Energia) a declarar que o impacto da crise no Oriente Médio equivale à soma de duas grandes crises – a do petróleo, em 1970, e do gás, em 2022.
Rota marítima estratégica para o transporte de petróleo e gás, o Estreito de Ormuz foi praticamente fechado pelo Irã, em retaliação à ofensiva imperialista estadunidense, estando impedido seu uso para as potências em guerra (EUA, Israel e seus aliados). O fluxo de petróleo permanece 97% abaixo dos níveis normais.
O estreito funciona como um corredor que liga o Golfo Pérsico ao oceano aberto e é passagem praticamente obrigatória para a maior parte do petróleo exportado pelos países da região. A rota responde por 39% do comércio marítimo de petróleo bruto e 19% do gás natural, além de ser caminho para a exportação de fertilizantes e bens de consumo.
Os impactos já começaram a ecoar. Após o fechamento do estreito, o preço do barril de petróleo Brent – que estava na casa dos US$ 70 – ultrapassou a marca de US$ 100, o que equivale a mais de R$ 520. Além do fechamento do canal, usinas de gás natural foram bombardeadas, fazendo o preço da energia disparar. A inflação média global, que era próxima dos 2% no início do ano, pode saltar para até 6%, de acordo com estimativas da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), caso o preço do petróleo continue por mais de dois meses acima dos US$ 100 por barril.
Para conter o aumento dos preços, a AIE tem liberado petróleo de estoques estratégicos. Considerada a maior ação coordenada da história da agência, 400 milhões de barris foram disponibilizados por 32 países-membros, cerca de 20% dos estoques totais. É a maior retirada feita até hoje. A AIE estuda a possibilidade de adotar novamente a medida, se necessário.
Ter um estoque estratégico possibilita que um país atravesse crises como essa de forma mais resiliente. Atualmente, a China tem estocados barris de petróleo suficientes para suprir o consumo interno do país por até 80 dias. É, hoje, a maior reserva em números absolutos. O Japão por sua vez garante cerca de 250 dias de demanda interna.
Brasil
Apesar de grande produtor e exportador de petróleo, o Brasil não conta com uma reserva, mas com um estoque operacional, que totaliza entre 45 e 55 milhões de barris. O volume não é suficiente para mais de 20 dias, se considerada a demanda interna. Em recente visita à Regap (Refinaria Gabriel Passos), em Betim (MG), o presidente Lula defendeu a criação de um estoque regulador de petróleo para defender o País de pressões externas em momentos de conflito.
Na opinião do geógrafo Elias Jabbour, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, do Rio de Janeiro, a insegurança energética do Brasil não se limita à falta de estoque. “Não temos controle sobre o preço que deveria ser internalizado a partir da construção de refinarias. Dependemos de preços que são formados fora do Brasil”, explica.
Segundo Jabbour, isso torna qualquer nação vulnerável ao cenário externo. “A soberania de um país também é aferível a partir da capacidade que se tem de ‘internalizar’ a formação de preços de produtos estratégicos, inclusive o petróleo. Para o Brasil, a grande questão não é somente a falta de uma reserva estratégica de petróleo, mas, sim, a capacidade de internalizar a formação desse preço.”
Saídas imediatas para a crise
Para mitigar os efeitos da crise para as empresas e setores afetados pela alta dos custos logísticos e de combustíveis, o governo Lula anunciou, nesta quarta-feira (25) o Plano Brasil Soberano 2.0. A iniciativa vai liberar uma linha de crédito de R$ 15 bilhões, a ser gerida pelo BNDES. A expectativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) é de que a medida dê fôlego à indústria, principalmente as de pequeno e médio porte, evitando que os problemas financeiros tenham impacto ao longo das cadeias produtivas, preservando empregos e capacidade de produção.
O governo também anunciou, na primeira quinzena de março, um pacote para conter de forma rápida a crise interna do aumento do combustível. Por meio de um decreto, zerou as alíquotas do PIS/Cofins sobre o óleo diesel. Publicou medida provisória (MP) para pagar subvenção a produtores e importadores de diesel. Uma outra MP tributou a exportação de petróleo em 12%, para ampliar o refino interno e garantir o abastecimento da população. Por fim, o governo Lula pôs em curso medidas de fiscalização de postos de gasolina – que de maneira gananciosa se aproveitaram da instabilidade e do conflito global para aumentar os lucros.
Minerais estratégicos e transição energética
A guerra causada por EUA e Israel causou não apenas um aumento exponencial do preço do petróleo, mas uma reprecificação de ativos de energia. As ações de empresas ligadas à transição energética tiveram mais avanço do que as de gigantes do petróleo.
A guerra contra o Irã tem exposto a vulnerabilidade estratégica dos EUA, que dependem das terras raras produzidas pela China – o que pode afetar o Brasil. O País possui a segunda maior reserva mundial desses minerais, essenciais para a produção de imãs, baterias, motores elétricos e armamento de alta tecnologia.
O presidente norte-americano, Donald Trump, não esconde o interesse nas terras raras brasileiras. Apesar do posicionamento do governo Lula em defender a soberania energética do País e estruturar uma Política Nacional de Terras Raras, as investidas da Casa Branca têm sido constantes, principalmente junto aos governos de extrema direita de Minas Gerais e Goiás – estados que possuem as maiores jazidas.
De acordo com Jabbour, a Guerra do Irã acelera essa corrida para diminuir a dependência norte-americana em relação à China. “O objetivo estratégico dos EUA é ter acesso a esses minerais críticos, e o Brasil tem quase 20% deles. A Guerra do Irã é um fator de aceleração dessa busca por minerais estratégicos, até porque eles determinam hoje o nível de modernização das forças armadas de qualquer país.”
Ele reforça a necessidade de um projeto soberano de desenvolvimento. “O Brasil tem que cuidar dos minerais críticos, do nosso subsolo, mas também começar a pensar na possibilidade de processá-los aqui. Isso é o que é mais estratégico – é ter capacidade própria de processamento desses minerais.”
Por Andressa Schpallir





