Estudo identifica 18 influenciadores políticos criados por IA no Brasil; quase 80% divulga desinformação
Perfis de inteligência artificial de pessoas que não existem, como o avatar "Dona Maria", promovem ataques contra Lula e ministros do STF nas redes
Uma reportagem da revista Fórum de 2023 já trazia o risco das inteligências artificiais (IAs) inaugurarem uma nova era da desinformação e provocar impactos em eleições democráticas. Em 2026, essa já é uma realidade concreta.
Um levantamento divulgado pelo Observatório de IA nas Eleições, em parceria com os institutos de pesquisa de dados Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, identificou pelo menos 18 perfis de influenciadores digitais artificiais no Brasil, no período entre janeiro de 2025 e abril de 2026.
Segundo o estudo, 61% desses avatares não informam ao público que seus conteúdos são produzidos por inteligência artificial, apesar das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, e 78% dos perfis desinformam esse mesmo público nas redes sociais, com posições simplistas, preconceituosas e discursos políticos extremistas. A investigação encontrou personagens virtuais projetados para se passar por cidadãos comuns, influenciadores, comunicadores e até lideranças populares.
Os conteúdos enganosos têm como principais alvos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.
Um dos casos destacados pela pesquisa é o da conta “Dona Maria”, um avatar de uma mulher idosa negra que reúne mais de 400 vídeos com ataques ao presidente Lula e ao campo da esquerda. (Acesse todos os casos neste link). Encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE após representações de partidos políticos, o caso abre um debate que vai além da simples disseminação de conteúdo falso.
No caso de “Dona Maria”, a dinâmica é outra: não existe uma pessoa real tendo suas falas e atitudes manipuladas. Trata-se de uma identidade totalmente fabricada, criada para atuar de forma contínua no ambiente digital com aparência de autenticidade. O que circula não é apenas um conteúdo falso sobre alguém existente, mas uma personagem artificial que simula espontaneidade política, interação e participação direta no debate público.
A maior parte das publicações foi localizada no TikTok e no Instagram, ambos com seis registros. O YouTube surge com três casos identificados. X, Kwai e Facebook também integram o conjunto de plataformas mapeadas pelo estudo.
De acordo com o relatório, sete dos 18 perfis analisados apresentavam algum tipo de indicação de que se tratava de conteúdo gerado por inteligência artificial, embora essas marcações não fossem facilmente perceptíveis. Em três casos, a identificação foi feita por meio de recursos automáticos das próprias plataformas; em dois, por marcas d’água das ferramentas utilizadas; e, em outros dois, por hashtags incluídas nas postagens.
As regras do TSE
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou em março deste ano as regras sobre utilização de IA durante as eleições gerais de outubro. Por unanimidade, o tribunal decidiu proibir postagens nas redes sociais de conteúdos modificados no período de 72 horas antes do pleito e 24 horas após a votação.
A restrição vale para modificações com imagem e voz de candidatos ou pessoas públicas. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. As regras foram definidas com a aprovação de diversas resoluções que vão nortear o pleito, no qual serão escolhidos o presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais.
Os ministros também proibiram que provedores de IA permitam, ainda que solicitado pelos usuários, sugestões de candidatos para votar. O objetivo é evitar a interferência de algoritmos na livre escolha dos eleitores.
Para combater a misoginia digital, o TSE proibiu postagens nas redes sociais com montagens envolvendo candidatas e fotos e vídeos com nudez e pornografia.
A Corte eleitoral também reafirmou que os provedores de internet poderão ser responsabilizados pela Justiça se não retirarem perfis falsos e postagens ilegais de seus usuários.
Para evitar episódios de censura ocorridos em eleições anteriores, os ministros decidiram permitir, no período de pré-campanha, manifestações espontâneas sobre conteúdo político em ambientes universitários, escolares e espaços de movimentos sociais. Também foi garantido que candidatos poderão fazer panfletagem em ruas, parques e praças, desde que garantida a mobilidade da população nos espaços.
Na semana anterior, o TSE aprovou mais sete resoluções sobre as eleições. Os textos tratam da divulgação de pesquisas eleitorais, transporte de eleitores, arrecadação de recursos, prestação de contas, além de alterações no cadastro de eleitores.





