Encontro entre Flávio Bolsonaro e Trump durou minutos e foi pouco além de fotos

Presidente dos EUA nem sequer se levantou da mesa para cumprimentar o senador, num sinal claro de assimetria

A equipe do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mentiu ao descrever como foi a agenda entre ele e Donald Trump, nesta terça-feira (26/5), na Casa Branca, em Washington. Várias versões divulgadas por bolsonaristas insinuavam um tête-à-tête de até uma hora e meia com o líder norte-americano.

Em pronunciamento à imprensa, o próprio Flávio tentou “dourar a pílula” e vender uma conversa mais longa e produtiva. “Hoje tive a honra de ser recebido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca. Cheguei às 15 horas e deixei o local às 16 horas”, disse o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na realidade, embora tenha mesmo permanecido por uma hora na Casa Branca, Flávio passou a maior parte do tempo em reunião com a ala ideológica do governo. O encontro propriamente dito no Salão Oval durou poucos minutos – e Trump nem sequer se levantou da mesa para cumprimentar o senador. É um sinal claro de assimetria, ainda mais em encontros políticos com visitantes estrangeiros.

A pose e o poder

A imagem “oficial”, embalada por aliados como demonstração de prestígio, expôs mais distância hierárquica do que intimidade política. Trump, em posição de autoridade institucional, permaneceu sentado, com as mãos sobre a mesa, olhando para frente e ocupando completamente o centro simbólico do enquadramento. Já Flávio aparece em pé, ligeiramente deslocado, com as mãos cruzadas, quase como visitante protocolar.

A mesa presidencial parece criar uma barreira física enorme entre os dois. Há pouca informalidade e nenhuma sensação de proximidade política. Em demonstrações genuínas de aliança, líderes costumam sentar lado a lado, apertar as mãos, caminhar juntos ou posar em igualdade de plano. O resultado da foto na Casa Branca, ao contrário, é uma linguagem visual de recepção rápida e controlada.

Na coletiva, Flávio tentou revestir a agenda de um simbolismo que o encontro não teve, sob evidente deslumbramento de fachada. Chamou o convite de “prestígio enorme”, descreveu como “gesto humano” a pergunta de Trump sobre Jair Bolsonaro e atribuiu à “challenge coin” recebida um significado de aproximação entre as famílias. Em cada gesto mínimo, Flávio se comportou como se fosse o relações-públicas de si mesmo.

A sombra de Lula

Em vários momentos da entrevista, Flávio citou mais o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, do que o norte-americano. Sua tentativa era ofuscar a crescente aproximação entre Trump e Lula, que foi deflagrada por razões comerciais, mas alcançou até temas como a segurança pública.

Em resposta, Flávio acenou a Trump com um apoio à eventual classificação das facções criminosas Primeiro Comando Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “organizações terroristas”. A medida teria mais valor simbólico do que prático, já que depende exclusivamente da política externa norte-americana. Trump não chegou a comentar a vassalagem.

O restante da coletiva foi de promessas do que seria a volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto. Ao se referir ao Brasil, Flávio usou expressões como “sob meu governo” e “a partir de 2027”, ano em que se inicia o mandato do próximo presidente. Ele evitou dizer que Trump o endossou, mas tratou a challenge coin e os poucos minutos de conversa como um selo de aprovação presidencial.

Entre o simbolismo e a realidade

No Brasil, a repercussão foi ligeiramente negativa. A bolha bolsonarista seguiu o script e celebrou a tietagem de Flávio a Trump. Mas partidos que vinham negociando coligação com o PL na eleição presidencial reclamaram da “volta às origens”: o bolsonarismo renovou a aposta em pautas tradicionais da extrema direita contemporânea.

Em abril, o jornal Washington Post, um dos mais prestigiados dos Estados Unidos, fez um excelente perfil do senador brasileiro com o título “Filho de Bolsonaro se candidata à presidência com uma missão: tirar o pai da prisão”. A certa altura da reportagem, Flávio diz ser uma “versão mais moderada” da família: “Sou o Bolsonaro que vocês sempre quiseram”.

A visita que bolsonaristas tentaram vender como demonstração de força acabou expondo justamente o contrário: a dependência permanente do movimento em relação ao poderio internacional de Trump e à fabricação de narrativas para consumo interno. Não concenveu nos Estados Unidos, tampouco terá efeito no Brasil.

Por André Cintra

Fonte
Vermelho

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