Saúde menstrual e educação
Uma pesquisa inédita realizada pelos institutos Alana e Equidade.Info, divulgada em maio de 2026, traz um diagnóstico que expõe uma dor historicamente invisibilizada: seis em cada dez meninas brasileiras relatam que as cólicas menstruais atrapalham sua rotina escolar, exigindo inclusive o uso de medicação. O dado mais alarmante revela que 37,1% das estudantes, quase quatro em cada dez, faltam às aulas pelo menos uma vez por mês devido aos sintomas. Por trás desses números há uma realidade que a educação brasileira ainda trata como um tabu silencioso.
A dor menstrual, conhecida clinicamente como dismenorreia, cruza gênero, saúde pública e educação de forma estrutural. O levantamento do Alana aponta que os sintomas mais citados, além das cólicas, incluem cansaço extremo, dores no corpo, cefaleia e a constante preocupação com vazamentos. Quando as jovens faltam regularmente às aulas por esses motivos, acumulam defasagens pedagógicas que comprometem o desempenho acadêmico de maneira cumulativa ao longo da trajetória escolar.
O impacto da saúde menstrual é agravado quando somado às barreiras de infraestrutura e ao racismo estrutural. De acordo com o relatório Pobreza Menstrual no Brasil: Desigualdade e Violações de Direitos, publicado pelo Unicef e pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) em 2021, meninas negras têm quase três vezes mais chances de viver sem acesso a banheiro adequado do que meninas brancas. Essa disparidade é um reflexo direto de séculos de desigualdade que perpetua a exclusão do direito a uma educação digna.
A situação se aprofunda quando se considera a convergência de desigualdades de raça, gênero e classe social. Segundo o mesmo levantamento das agências da ONU, 47% das meninas negras e pobres convivem com a pobreza menstrual, o que significa a falta de absorventes e a ausência de pias, sabão e saneamento básico nas instituições de ensino. Essa realidade é particularmente grave nas regiões Nordeste e em áreas rurais, onde a vulnerabilidade social é mais acentuada.
As trabalhadoras da educação também estão no centro dessa questão. A pesquisa dos institutos Alana e Equidade.Info revela que uma em cada dez professoras faltou ao trabalho ao menos uma vez no último ano por motivos menstruais. Embora o levantamento tenha focado no corpo docente, é razoável supor que o mesmo impacto atinge todas as funcionárias, sejam auxiliares de serviços gerais, merendeiras, inspetoras ou administrativas. Isso demonstra que as escolas carecem de suporte e instalações adequadas não apenas para as alunas, mas para todas as mulheres que fazem o ambiente escolar funcionar.
As escolas precisam estar preparadas para oferecer acolhimento às estudantes sem que isso resulte em julgamentos ou situações de constrangimento. As necessidades de saúde de todas as trabalhadoras também devem ser reconhecidas institucionalmente, com acesso a espaços de repouso, banheiros dignos e informações qualificadas sobre saúde menstrual.
O governo federal iniciou ações relevantes, como o Programa de Promoção e Proteção da Saúde e da Dignidade Menstrual, que desde 2024 oferece absorventes gratuitamente por meio da Farmácia Popular. Contudo, a pesquisa de 2026 reforça que a distribuição de produtos é apenas uma parte da solução. É necessário integrar o tema ao currículo escolar com informações precisas e livres de preconceitos, garantindo que os meninos também participem desse debate, já que apenas 24% deles acreditam que a menstruação atrapalha a vida escolar das colegas.
Para que nenhuma estudante seja privada do direito de aprender e nenhuma profissional tenha sua saúde negligenciada, são necessárias políticas públicas robustas que incluam a distribuição universal de absorventes em todas as escolas públicas, a formação de trabalhadoras e trabalhadores da educação com perspectiva antirracista e o investimento em instalações que respeitem a dignidade humana. Com esse conjunto de ações será possível construir uma educação igualitária, em que todas as alunas, especialmente as meninas negras, tenham a oportunidade real de prosperar sem que a dor seja um impedimento.
Por Antônia Rangel





