América Latina: Brasil aposta em pragmatismo após vitórias da direita
Governo vai focar em agendas como infraestrutura e energia
O governo brasileiro aposta em uma relação bilateral com os vizinhos latino-americanos de direita ou extrema-direita focada em agendas pragmáticas que sejam imunes a ideologia, como infraestrutura, energia, combate ao crime organizado e cooperação no enfrentamento a desastres naturais.
A vitória de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo De La Espriella, na Colômbia, além das eleições de representantes de direita no Chile, Equador e Bolívia, no ano passado, deixaram o Brasil mais isolado na América do Sul. O país figura ao lado do Uruguai como representante do campo progressista da região.
Para o governo brasileiro, o quadro regional não deve prejudicar as relações bilaterais entre Brasil e Peru, Equador, Chile, Colômbia e Bolívia. A única exceção seria Javier Milei, na Argentina, que tem apresentado posição mais hostil ao governo do Brasil.
Nos demais casos, a avaliação do governo é que os interesses pragmáticos de cada nação devem prevalecer em uma agenda que seriam descoladas das ideologias. Um exemplo são as parcerias para investimentos em infraestruturas que podem conectar o oceano Pacífico ao Atlântico.
Parcerias na área de energia também devem continuar, e se aprofundar, ainda mais depois da guerra no Irã, que expuseram as vulnerabilidades globais do setor.
Chile’s President Jose Antonio Kast leaves following an ecumenical prayer at the Metropolitan Cathedral, in Santiago, Chile, March 12, 2026. REUTERS/Diego Reyes
Presidente chileno Jose Antonio Kast – REUTERS/Diego Reyes/ Proibido reprodução
Um dos exemplos que indicam esse caminho é o interesse do presidente do Chile, José António Kast, em uma reunião bilateral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula do Mercosul, nesta semana.
O pedido de ajuda de Rodrigo Paz ao Brasil, no contexto dos protestos na Bolívia, e a resposta cordial do presidente eleito da Colômbia à manifestação de Lula pela sua vitória, também indicariam que a as relações entre Brasil e seus vizinhos de direita vão se pautar pelos interesses concretos de cada nação.
Meio ambiente entre Brasil e Colômbia
Por outro lado, o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Goulart Menezes pondera que, mesmo que as relações bilaterais continuem, a situação geopolítica na América do Sul é “delicada”, entre outros motivos, devido ao perfil dos mandatários da extrema-direita.
“Nós não estamos falando mais de governos de direitas convencionais. Nós vamos lidar ainda com o governo na Colômbia, de alguém que não tem o perfil da direita convencional colombiana”, afirmou à Agência Brasil.
Menezes acrescenta que a Colômbia vinha contrabalanceando o afastamento da Argentina nas relações com o Brasil. Ele acredita que a cooperação na proteção do meio ambiente entre os dois países, vista durante do governo de Gustavo Petro, deve ser prejudicada.
“Temas ligados à Amazônia serão afetados. O Brasil vinha dialogando muito estreitamente com a Colômbia. Vale lembrar, em agosto de 2023, que a cúpula da Amazônia foi uma iniciativa Brasil-Colômbia. O tema ambiental, que é chave neste momento, está estremecido”, completou.
Defesa da democracia e China
O tema da defesa da democracia no continente é outro que deve ser afetado pelo avanço de governos de extrema-direita na América Latina, avalia o professor da UnB.
O especialista cita ainda as relações comerciais dos países do continente com a China, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta interromper.
“O Brasil, nesse momento, está numa situação que a gente não viu nos últimos 20 anos. Ou seja, governos que estão alinhados e são subservientes aos EUA e que, na América do Sul, nós temos só Brasil e Uruguai que não está nessa agenda pró-Trump”, completou.
Cooperação multilateral
Apesar de confiante na manutenção das relações bilaterais com vizinhos, o governo brasileiro reconhece que uma cooperação coletiva, no nível multilateral, se tornou inviável.
Isso porque a vitória de candidatos alinhados à política dos Estados Unidos obstrui a construção de uma agenda regional sem a presença e a autorização de Trump.
Com isso, tendem a ficar esvaziados fóruns como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que o Brasil tentou impulsionar a partir da eleição de Lula em 2023.
Por outro lado, na avaliação do governo do Brasil, o Mercosul deve seguir como fórum regional com peso e importância. Isso porque o bloco é uma plataforma mais institucionalizada, focada em comércio, que atrai o interesse de governos de todas as orientações políticas e ideológicas.





