Flávio Bolsonaro emitiu R$ 1,5 milhão em notas para firmas ligadas a Vorcaro
Escritório de advocacia do senador faturou R$ 500 mil de empresa que operava esquemas investigados no caso do Banco Master
Mais um esqueleto da teia de relações financeiras e políticas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, foi exposto ao sol. Dados da Receita Federal revelam que o escritório de advocacia, no qual o filho 01 do ex-presidente figura como único sócio, emitiu três notas fiscais que somam R$ 1,5 milhão em um intervalo de apenas 48 horas, em abril de 2025. Os recibos foram destinados a empresas que integram a engrenagem operacional utilizada pelo ex-banqueiro, que acabou preso sob a acusação de fraudes bilionárias.
O levantamento detalha a cronologia das emissões. No dia 7 de abril de 2025, a “banca jurídica” de Flávio emitiu duas notas fiscais no valor de R$ 500 mil cada para a Copenhagen Assessoria e Consultoria S.A., sob a justificativa formal de “assessoria jurídica”. Ambas foram canceladas posteriormente. Contudo, no dia 9 de abril, o mesmo escritório gerou uma terceira nota, também de R$ 500 mil, desta vez para a Contábil Correa (Contábil Correa Contabilidade e Auditoria Ltda., nome fantasia BR Global). Diferentemente das anteriores, esta última nota seguiu válida e teve o pagamento consumado.
Empresas do esquema Vorcaro
A investigação das estruturas societárias demonstra que as duas companhias compartilham do mesmo grupo de operadores estratégicos do ex-banqueiro. O contador Rogério Lourenço Novo figurava no comando da Contábil Correa e assumiu a direção da Copenhagen em setembro de 2025, sucedendo Artur Figueiredo. Novo já é um velho conhecido da Justiça por ter sido investigado pela Polícia Federal por envolvimento em emissão de notas fiscais fraudulentas entre 2013 e 2015, esquema com rombo estimado em mais de R$ 100 milhões.
Por sua vez, Artur Figueiredo era o acionista majoritário da Copenhagen durante o período de emissão das notas e exercia simultaneamente o cargo de diretor financeiro da Trustee DTVM. A gestora foi identificada pelos investigadores federais como a principal responsável pelo gerenciamento dos fundos da Master Asset Management, o braço de administração de recursos do grupo de Vorcaro. Os registros fiscais mostram inclusive que o e-mail cadastrado pela Copenhagen para o recebimento das notas do senador utilizava o domínio da própria Trustee DTVM. Criada com capital social irrisório e sediada no mesmo endereço da Contábil Correa, a Copenhagen movimentou cerca de R$ 58 milhões vinculados ao Banco Master.
Não era só dinheiro para o Dark Horse
As informações, reveladas pelo portal Metrópoles e confirmadas pela CNN Brasil com base em dados da Receita Federal, reacendem as suspeitas sobre a proximidade entre o pré-candidato à Presidência e o banqueiro preso por fraudes bilionárias.
A revelação do faturamento do escritório jurídico ocorre em paralelo ao avanço das apurações sobre o financiamento do filme Dark Horse, obra ficional voltada à promoção política de Jair Bolsonaro. Registros de comunicação apreendidos na investigação revelaram que Flávio negociou diretamente com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões no período) para a produção do longa. Documentos bancários confirmam que pelo menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) circularam entre fevereiro e maio de 2025 por meio de empresas intermediárias, a exemplo da Entre Investimentos, apontada pela Polícia Federal como veículo operacional do banqueiro. Parte desse montante ingressou no Havengate Development Fund LP, fundo sediado no estado norte-americano do Texas e gerido por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
Em manifestações públicas, a defesa do parlamentar sustenta que os valores do filme consistiam em “patrocínio privado” sem qualquer contrapartida pública. O senador declarou ainda que a prestação de serviços à Contábil Correa foi legítima e que o cancelamento das notas da Copenhagen ocorreu porque ele optou por não firmar contrato com a empresa. Flávio classificou a divulgação das informações fiscais como vazamento de natureza eleitoral.
No entanto, a articulação simultânea entre a busca de repasses milionários para o projeto cinematográfico e o faturamento direto de meio milhão de reais junto a empresas do mesmo núcleo societário coloca a versão em xeque. A movimentação coincide exatamente com a fase de intensa atividade do Banco Master, antes de sua intervenção e liquidação decretadas pelo Banco Central em novembro de 2025.
As descobertas foram incorporadas aos autos da Operação Compliance Zero, condução da Polícia Federal encarregada de rastrear a cadeia de fundos, empresas de fachada e interpostas pessoas físicas utilizadas para a dilapidação patrimonial e lavagem de capitais. O avanço das diligências sobre os registros fiscais e societários da família Bolsonaro aprofunda o isolamento político do senador e consolida o caso como um dos principais eixos de apuração sobre o uso de estruturas jurídicas para a circulação de recursos de origem sob suspeita.
Por Davi Dmolir





