100 anos de Fidel: as datas que forjaram o comandante da Revolução Cubana
Portal Vermelho abre hoje uma série especial sobre o legado de Fidel Castro
Se estivesse vivo, Fidel Castro completaria cem anos nesta quinta-feira (13). Cuba já vive 2026 como o “Ano do Centenário do Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz”. Mas o líder da Revolução Cubana não pertence apenas à história de seu país. Pela força de suas ideias, pela dimensão de suas escolhas e pela repercussão de seus atos, Fidel pertence à história de uma época. Ele foi uma figura gigante da história contemporânea internacional que redefiniu as noções de soberania, anti-imperialismo e solidariedade entre os povos do Sul Global.
É nesse espírito que o Portal Vermelho abre hoje uma série especial sobre seu legado. Antes de mergulhar nos temas que marcaram o processo revolucionário de Cuba, vale reconstruir a vida do próprio homem. Numa linha do tempo com 18 datas emblemáticas, destacamos a trajetória singular de Fidel – da infância em Birán à morte em Havana, cobrindo tanto os grandes feitos quanto os momentos de maior tensão que a Revolução atravessou. Fidel morreu em 2016, mas sua presença histórica permanece. Estas datas ajudam a contar sua saga.
13 de agosto de 1926: nasce Fidel Alejandro
Às 2 horas da madrugada de 13 de agosto de 1926, em Birán, nas profundezas da antiga província de Oriente, nasceu Fidel Alejandro Castro Ruz. Filho de Ángel Castro Argiz (um próspero agricultor galego) e de Lina Ruz González (uma camponesa cubana), o menino cresceu no ambiente rural, cercado por plantações de cana, trabalhadores, animais e a dura realidade do Oriente cubano. A origem no interior campesino incutiu nele, desde cedo, um agudo senso de justiça social.
Fidel passou por escolas católicas em Santiago de Cuba e concluiu o ensino secundário no Colégio de Belén, dirigido por jesuítas em Havana. Essa formação forjou nele a disciplina rigorosa, a determinação e a memória prodigiosa. Seus biógrafos já identificam também nesse período o gosto pelos esportes, a enorme capacidade de trabalho e uma disposição quase obstinada para disputar ideias.
4 de setembro de 1945: o estudante que se fez revolucionário
Fidel ingressou no caldeirão do movimento estudantil cubano ao se matricular na Faculdade de Direito da Universidade de Havana em 4 de setembro de 1945. Cinco anos depois, em 5 de setembro de 1950, defendeu sua tese e obteve o título de Direito. A universidade marcou sua entrada de corpo inteiro na política. Fidel emergiu como orador nato na Federação Estudantil Universitária e participou de ações pela independência de Porto Rico. Em 1947, integrou a expedição de um comitê que lutava contra a ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana. No ano seguinte, na Colômbia, testemunhou o “Bogotazo” e participou da insurreição popular após o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán.
As experiências de contato com a luta popular na América Latina foram fundamentais para consolidar seu pensamento anti-imperialista. Além disso, em meio a debates apaixonados na universidade, nutridos pelo pensamento de José Martí e pela literatura marxista, Fidel moldou sua visão crítica sobre o domínio estrangeiro em Cuba. O país vivia as contradições de uma república formalmente independente, mas profundamente submetida à influência norte-americana. Fidel passou a defender posições nacionalistas e a compreender a necessidade de uma ação política radical para refundar a República. Mais tarde, resumiria a experiência em uma frase: “Naquela universidade me fiz revolucionário, me fiz marxista-leninista”.
26 de julho de 1953: Moncada, o dia em que Fidel apostou tudo
Na madrugada de 26 de julho de 1953, Fidel liderou cerca de 135 jovens no ataque ao Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, enquanto outra ação era realizada contra o Quartel Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo. A ação visava desencadear uma insurreição contra a ditadura de Fulgencio Batista, que havia tomado o poder pelo golpe de 10 de março de 1952. O assalto ao Moncada fracassou, muitos combatentes foram mortos e Fidel acabou capturado. Militarmente, foi uma derrota. Politicamente, seria o início de uma revolução.
O episódio marcou o batismo de fogo da nova geração revolucionária, deu nome ao Movimento 26 de Julho e estabeleceu Fidel como a voz inequívoca do combate armado contra a tirania patrocinada por Washington. Aos 26 anos, Fidel demonstrava sua disposição de arriscar a própria vida pela libertação do povo cubano. Para os revolucionários cubanos, a data passaria a simbolizar a retomada da luta pela soberania nacional.
16 de outubro de 1953: “A História me absolverá”
Preso após Moncada e julgado a portas fechadas, Fidel assumiu a própria defesa. Em 16 de outubro de 1953, numa pequena sala do Hospital Civil de Santiago de Cuba, o jovem advogado pronunciou o célebre discurso que viraria o manifesto da Revolução. Ele denunciou a entrega das riquezas nacionais aos EUA, a miséria dos camponeses, o analfabetismo e o desemprego. Também apresentou um programa de transformação nacional que incluía recuperação da soberania nacional, reforma agrária, industrialização, democratização do ensino, saúde pública e defesa dos trabalhadores.
O trecho final entrou para a posteridade: “Condenai-me. Não importa. A História me absolverá!”. Reconstruído clandestinamente, o discurso circulou por Cuba. Fidel, condenado a 15 anos de prisão, passou cerca de 22 meses no Presídio Modelo de Isla de Pinos, onde continuou estudando, escrevendo e organizando os companheiros. Em 15 de maio de 1955, a pressão popular obrigou o governo Batista a conceder anistia aos moncadistas. Fidel, Raúl, Juan Almeida e os demais sobreviventes deixaram a prisão. Pouco depois, Fidel seguiria para o México
2 de dezembro de 1956: o Granma e a Sierra Maestra
Após o exílio no México – onde conheceu Ernesto Che Guevara e reorganizou suas forças –, Fidel regressou a Cuba a bordo do iate Granma. Na madrugada de 2 de dezembro de 1956, 82 expedicionários desembarcaram nas proximidades de Las Coloradas, no Oriente cubano. A viagem havia começado no México em 25 de novembro, com Fidel no comando. “De viagens como esta não se regressa – ou se regressa com a tirania descabeçada aos pés”, disse ele antes da partida.
O barco estava superlotado, e a travessia foi difícil. Logo depois do desembarque acidentado, os rebeldes foram atacados pelas forças de Batista. O massacre em Alegría de Pío reduziu o grupo a um punhado de sobreviventes. Fidel, Raúl Castro e Che conseguiram alcançar a Sierra Maestra. O grupo, reduzido, estava mal armado e acabara de sofrer uma derrota devastadora. Ainda assim, ao reencontrar o irmão Raúl na serra cubana, Fidel proferiu a lendária frase: “Agora, sim, ganharemos a guerra!”. A guerrilha se reorganizou. O pequeno grupo de sobreviventes cresceria, formaria o Exército Rebelde e conquistaria apoio entre camponeses e trabalhadores. Pouco mais de dois anos depois, entraria vitorioso em Santiago de Cuba.
1º de janeiro de 1959: a Revolução chega ao poder
O primeiro dia de 1959 amanheceu com uma notícia extraordinária: Fulgencio Batista havia fugido de Cuba na madrugada do Ano-Novo. O Exército Rebelde derrotou as forças da ditadura e chegou ao poder. A guerrilha da Sierra Maestra havia vencido. Houve manobras para impedir que a vitória revolucionária se convertesse em poder popular. Mas Fidel, que estava em Oriente, reagiu imediatamente, dando ordem para avançar sobre Santiago de Cuba e manter a mobilização revolucionária.
Era o começo da Caravana da Liberdade, que atravessou a ilha até a entrada triunfal em Havana, em 8 de janeiro. “Não nos enganemos acreditando que daqui para frente tudo será fácil. Talvez daqui para frente tudo seja mais difícil”, disse Fidel para uma multidão extasiada na capital. Durante o discurso, pombas brancas pousavam em seus ombros, imagem imortalizada pela agência de notícias Prensa Latina. Aos 32 anos, Fidel era o líder inconteste de uma revolução vitoriosa, que pôs fim a décadas de submissão aos EUA e deu início a transformações estruturais. Reforma agrária, alfabetização, saúde, educação, soberania, cultura e igualdade social entrariam no centro da agenda nacional.
16 de abril de 1961: “Esta é uma Revolução socialista”
Pouco mais de dois anos depois da vitória, Cuba estava no centro da Guerra Fria. Em 16 de abril de 1961, durante o funeral das vítimas dos bombardeios a aeroportos cubanos, Fidel afirmou: “Esta é uma Revolução socialista e democrática dos humildes, pelos humildes e para os humildes”. A declaração fixava a identidade política do processo revolucionário. A partir dali, soberania nacional e construção do socialismo passaram a ser apresentadas pelo governo cubano como dimensões inseparáveis.
A resposta imperialista não tardou. No dia seguinte, a mercenária Brigada 2506 desembarcou na Baía dos Porcos (Playa Girón), numa invasão organizada e financiada pela CIA. Fidel assumiu o comando direto das operações no campo de batalha e liderou as forças populares, que derrotaram os invasores em menos de 72 horas. Foi o primeiro grande revés militar dos EUA nas Américas, projetando Fidel como símbolo da resistência anticolonial do Terceiro Mundo. “O que os imperialistas não podem nos perdoar é termos feito uma Revolução socialista debaixo de seus narizes”, provocou Fidel.
22 de outubro de 1962: Diante da Crise dos Mísseis
Diante da ameaça de novas invasões, Cuba aceitou a instalação de mísseis soviéticos em seu território. Em resposta, os EUA anunciaram o bloqueio naval à ilha e iniciaram movimentação militar. A Crise dos Mísseis levou o mundo aos dias mais tensos da Guerra Fria e pôs Cuba no centro do confronto entre duas superpotências. Em 22 de outubro de 1962, Fidel decretou estado de alerta máximo de guerra, preparando o país para um possível ataque.
Enquanto Washington e Moscou negociavam por cima da cabeça de Havana, o mundo permaneceu sob o risco de uma guerra nuclear. Fidel deixou claro que a soberania cubana não era moeda de troca e considerou inaceitável que o destino do país fosse decidido por União Soviética e EUA. Após 13 dias de crise, norte-americanos e soviéticos chegaram a um acordo. Mas o episódio cristalizou em Cuba a percepção de que sua própria existência como projeto socialista independente seria, dali em diante, motivo permanente de hostilidade por parte de seu vizinho poderoso.
26 de julho de 1970: a coragem da autocrítica
No fim dos anos 1960, com o recrudescimento do bloqueio econômico dos EUA, Fidel lançou um dos projetos mais ambiciosos da economia cubana: produzir 10 milhões de toneladas de açúcar na safra de 1969/1970. A missão mobilizou quase meio milhão de trabalhadores voluntários e até a estrutura das Forças Armadas Revolucionárias. Embora a mobilização tenha garantido o recorde de produção (8,5 milhões de toneladas), a meta não foi alcançada.
Em 26 de julho de 1970, num gesto histórico de transparência, Fidel subiu a um palco na Praça da Revolução, em Havana, reconheceu o insucesso, assumiu a responsabilidade pelo erro de planejamento e convocou o país a extrair lições do fracasso em vez de escondê-lo. No mesmo dia, ele chegou à redaçãodo Granma (órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba). Conforme lembra o jornal, Fidel escreveu, com tinta vermelha e em letras de forma, a palavra “Derrota” no verso de um despacho, sugerindo o título da edição seguinte. A cena diz muito sobre o Fidel dirigente – que, mais tarde, faria da autocrítica um princípio político. “Sempre será mil vezes preferível a autocrítica à autocomplacência”, afirmou em dezembro de 1975, no 1º Congresso do Partido Comunista.
5 de novembro de 1975: a Operação Carlota e o internacionalismo cubano
Em novembro de 1975, Angola estava prestes a conquistar sua independência do domínio colonial português. Mas forças apoiadas pelo regime do apartheid sul-africano avançavam para tentar impedir a consolidação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). A poucos quilômetros de Luanda, o primeiro presidente angolano, Agostinho Neto, pediu ajuda a Cuba, um pequeno país insular a mais de 11 mil quilômetros de distância. Fidel decidiu intervir e enviou tropas de combate para apoiar o MPLA. A missão foi batizada de Operação Carlota, em homenagem a uma escrava rebelde angolana do século 19.
A presença internacionalista cubana em Angola se estenderia por 16 anos e envolveria centenas de milhares de cubanos, entre combatentes e colaboradores civis. Foi um dos maiores exemplos do internacionalismo cubano – e, segundo o líder sul-africano Nelson Mandela, uma contribuição sem paralelo para a liberdade da África Austral. “Não buscamos petróleo, nem buscamos cobre, nem buscamos ferro, nem buscamos nada em absoluto. Simplesmente aplicamos uma política de princípios”, declarou Fidel em dezembro de 1975, no 1º Congresso do Partido Comunista de Cuba.
23 de março de 1988: Cuito Cuanavale, a África que derrotou o apartheid
No auge da Guerra Civil de Angola, tropas cubanas e angolanas enfrentaram o exército sul-africano na batalha de Cuito Cuanavale, o maior confronto militar no continente africano desde a 2ª Guerra Mundial. Fidel comandava operação militar na região, supervisionando os mapas e a logística diretamente de Havana e mantendo comunicação diária com os comandantes no campo. A vitória conjunta, selada em 23 de março de 1988, enfraqueceu a hegemonia militar do regime do apartheid na região e arrastou Pretória à mesa de negociação.
O fim da guerra levou à retirada das tropas sul-africanas de Angola e contribuiu para a correlação de forças que abriu caminho para a independência da Namíbia e a libertação de Nelson Mandela. A batalha de Cuito Cuanavale é lembrada como um dos grandes triunfos militares de Fidel fora de Cuba. O próprio Mandela reconheceria que a derrota sul-africana ajudou a acelerar o fim do apartheid – e que Cuba havia mudado o destino do continente africano. Era o internacionalismo convertido em ação.
29 de agosto de 1990: o Período Especial
Desde os anos 1960, a economia cubana mantinha estreita relação com a União Soviética e o campo socialista europeu. O bloco representava 85% dos parceiros comerciais de Cuba, além do fornecimento de combustível, fontes de financiamento, alimentos e insumos. Sinais de desabastecimento começaram a aparecer em 1989, com o avanço do colapso soviético. No verão de 1990, Fidel já discutia alternativas com seus companheiros. Em 29 de agosto daquele ano, o governo cubano anunciou, oficialmente, o Período Especial em Tempo de Paz – um plano de emergência de extrema austeridade para garantir a sobrevivência nacional sem privatizar os serviços essenciais de saúde e educação.
O país estava numa crise sem precedentes, passando a viver numa economia de guerra sem guerra, marcada por apagões de até 16 horas diárias e racionamento. Analistas em Miami davam como certo o fim do governo revolucionário em poucos meses. Entre 1989 e 1993, o PIB cubano encolheu cerca de um terço, em uma contração econômica sem precedente na história do país. A ilha, que dependia de tratores e fertilizantes, voltou a arar a terra com tração animal e a cultivar orgânicos para sobreviver. O 4º Congresso do Partido Comunista, em 1991, ampliou as medidas para enfrentar a nova realidade. Mas Cuba resistiu, reestruturou seu sistema produtivo, desenvolveu a agricultura urbana agroecológica e se abriu ao turismo internacional, sem abandonar as conquistas sociais da Revolução. Formas controladas de investimento estrangeiro foram autorizadas. Os anos 1990 foram os mais duros da história pós-1959, mas também a prova de que a Revolução sobreviveria mesmo sem um aliado estratégico como a União Soviética.
5 de agosto de 1994: Fidel vai para a rua
Após quatro anos de privações, o 5 de agosto de 1994 foi um dos momentos mais delicados para a Revolução no terreno político e social. Uma manifestação popular eclodiu no Malecón de Havana – era a maior onda de descontentamento registrada em Cuba desde 1959. Porém, em meio à escassez, aos apagões e às dificuldades de transporte, Fidel decidiu ir às ruas para falar diretamente com o povo. Chegou ao Malecón sem colete à prova de balas e cercado por companheiros. Dias depois, o governo cubano autorizou a saída pelo mar de quem desejasse emigrar, dando origem à crise dos balseiros. A medida obrigou Washington a negociar acordos migratórios com Havana.
Mais do que isso, a presença de Fidel nas ruas ajudou a desmobilizar os protestos – o Granma interpreta o episódio como uma vitória do governo socialista. Era um dos momentos mais difíceis da Revolução, mas Fidel optou por não exercer o poder de longe. Ao mesmo tempo, o governo lançou a “Batalha de Ideas”, uma ofensiva ideológica e social para reocupar o espaço público com música, esportes, educação e debates. Era o reconhecimento de que a sobrevivência da Revolução, naquele momento, dependia da reconquista dos corações e das mentes de uma juventude que nunca conhecera a guerra. Foram criados projetos como os Círculos de Interesse e as “Escolas de Oficios” para dar propósito à nova geração.
21 de janeiro de 1998: o papa em Cuba
De 21 a 26 de janeiro de 1998, Fidel recebeu em Cuba um dos maiores líderes religiosos do mundo. João Paulo 2º visitou a ilha numa histórica viagem apostólica que percorreu Havana, Santa Clara, Camagüey e Santiago de Cuba. A visita, pedida pelo próprio Fidel numa audiência no Vaticano dois anos antes, coroou um processo de anos. No 4º Congresso do Partido Comunista, em 1991, Cuba abandonou formalmente a definição de Estado ateu e avançou para um Estado laico, ao mesmo tempo em que deixou de considerar incompatíveis a militância partidária e a fé religiosa. A aproximação entre o governo revolucionário e a Igreja Católica ocorreu depois de décadas de relações tensas.
Em Havana, o próprio papa agradeceu publicamente a Fidel e às autoridades cubanas por terem tornado possível sua visita. Apesar das críticas calculadas ao socialismo, João Paulo condenou abertamente o bloqueio econômico dos EUA, classificando-o como “deplorável e eticamente inaceitável”. Já Fidel, durante o discurso oficial de boas-vindas no Aeroporto Internacional José Martí, em 21 de janeiro, enfatizou um dos maiores êxitos da Revolução. “Hoje, milhões de crianças dormirão na rua. Nenhuma delas é cubana”. As imagens do encontro traduziram uma trajetória: o Fidel dos primeiros anos, em conflito aberto com setores da Igreja, chegava à década de 1990 dialogando diretamente com o Vaticano. Outros dois pontífices, Bento 16 e Francisco, foram a Cuba nos anos seguintes.
28 de junho de 2000: a volta de Elián González
Uma travessia clandestina rumo aos Estados Unidos mudou a vida do menino cubano Elián González. Ele tinha apenas seis anos quando foi resgatado no litoral da Flórida, agarrado a uma câmara de ar, na condição de único sobrevivente entre os poucos que restaram de um naufrágio que matara sua mãe. Parentes exilados em Miami se recusaram a devolvê-lo ao pai, que permanecia em Cuba e reclamava a custódia do filho.
Fidel transformou o caso na maior mobilização popular cubana desde os anos 1960, com marchas diárias em frente à seção de interesses dos EUA em Havana exigindo o retorno do menino. Depois de sete meses de disputa judicial e diplomática, agentes federais norte-americanos retiraram Elián da casa dos parentes em Miami. Em 28 de junho de 2000, o menino desembarcou em Cuba, ao lado do pai. Para a Revolução, foi uma vitória simbólica sobre o exílio de Miami.
31 de julho de 2006: Fidel deixa o comando
Aos 79 anos, debilitado por problemas de saúde que exigiram uma complexa cirurgia intestinal, Fidel transferiu suas funções para o então vice-presidente Raúl Castro. A proclamação foi divulgada na noite de 31 de julho de 2006: “Delego, em caráter provisório, minhas funções como primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba (…) ao companheiro Raúl Castro Ruz”. Também foram transferidas as funções de comandante em chefe das Forças Armadas Revolucionárias e de presidente do Conselho de Estado e do governo. A transição ordenada contrariou as previsões de um colapso imediato do sistema político cubano e abriu uma nova fase na história da Revolução, marcada pela atualização do modelo econômico.
Começava a última etapa da vida pública de Fidel. Em fevereiro de 2008, ele deixaria formalmente a presidência, mas não desapareceria da política. Mesmo fora dos cargos de governo, Fidel manteria, por dez anos, presença ativa na vida cubana através de suas “Reflexões” – artigos publicados na imprensa oficial. Os textos analisavam desde a política internacional até questões de ciência e meio ambiente. O líder da Revolução Cubana também recebia visitantes e continuava a ser uma referência política para a esquerda internacional.
17 de dezembro de 2014: Fidel e a reaproximação com os EUA
Barack Obama e Raúl Castro anunciaram simultaneamente, em 17 de dezembro de 2014, o restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e EUA. A notícia surpreendeu o mundo. Fidel não estava mais no poder, mas sua posição era central. Durante décadas, havia defendido a possibilidade de diálogo com Washington, desde que baseado na igualdade soberana e no respeito à independência cubana. Raúl lembrou naquele dia que essa disposição havia sido expressa por Fidel em diferentes momentos.
Seis semanas depois, Fidel escreveria que não confiava na política dos EUA, mas que apoiava qualquer solução pacífica e negociada que não implicasse o uso da força. Era o mesmo Fidel de sempre em uma situação completamente nova. O homem que passara mais de cinco décadas enfrentando presidentes norte-americanos podia agora assistir, em idade avançada, ao início de uma mudança histórica nas relações entre os dois países.
25 de novembro de 2016: a despedida do “Comandante”
Fidel Castro morreu em Havana, aos 90 anos, exatamente seis décadas depois da partida do Granma do México, em 25 de novembro de 1956. Raúl Castro foi quem anunciou a notícia ao povo cubano: “Com profunda dor, compareço para informar ao nosso povo, aos amigos de nossa América e do mundo que hoje, 25 de novembro de 2016, às 22h29, faleceu o comandante em chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz”. O governo decretou nove dias de luto oficial.
Atendendo ao desejo expresso de Fidel, suas cinzas percorreram o país em sentido inverso ao caminho da Caravana da Liberdade, de Havana até Santiago de Cuba, onde foram depositadas em 4 de dezembro, no cemitério de Santa Ifigênia, próximo ao mausoléu de José Martí. A comoção nacional e as homenagens enviadas por líderes de todo o mundo evidenciaram que Fidel havia ultrapassado a dimensão de um líder político para se tornar um símbolo da resistência e da emancipação dos povos do Sul Global. O brado popular “¡Yo soy Fidel!” ecoou como o compromisso das novas gerações em dar continuidade à sua obra.
Por André Cintra





