A prisão do último condenado pelo assassinato de Victor Jara

A dica cultural desta semana é sobre o músico, compositor, professor e militante Victor Jara. Mais de cinco décadas depois do golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende, no Chile, a Justiça chilena fechou mais um capítulo dos crimes hediondos praticados pela ditadura de Augusto Pinochet: no último sábado (25), foi preso o ex-coronel do Exército chileno Nelson Haase Mazzei, de 80 anos, que estava foragido desde 2023. Ele era o último condenado que ainda permanecia em liberdade pelo sequestro, tortura e assassinato do músico Victor Jara e do então diretor-geral do Serviço de Prisões, Littré Quiroga.

Haase Mazzei foi condenado, em decisão definitiva da Suprema Corte do Chile, a 25 anos e dois dias de reclusão: 15 anos por homicídio qualificado e 10 por sequestro qualificado. Ele integrava, em 1973, a estrutura de comando do Estádio Chile, hoje rebatizado Estádio Víctor Jara, para onde quase 5 mil pessoas foram levadas nos dias seguintes ao golpe, e foi condenado ao lado de outros sete ex-militares envolvidos no crime. Um deles, Hernán Chacón, tirou a própria vida em 2023 ao ser notificado da sentença. Outro, Pedro Barrientos, foi extraditado dos Estados Unidos naquele mesmo ano após perder a cidadania americana por fraude em seu processo de naturalização; anos antes, em 2016, ele já havia sido considerado responsável pela tortura e morte do cantor em um processo civil na Justiça americana.

Segundo a sentença, Jara foi atingido por 44 tiros, e seu corpo apresentava ao todo 56 fraturas. A Fundação Victor Jara, criada pela viúva do cantor, a bailarina britânica Joan Jara, celebrou a prisão, mas fez questão de lembrar que, meio século depois, ainda é difícil chamar isso de justiça plena.

Filho de uma família camponesa do Chile central, Victor Jara cresceu ao lado da mãe, Amanda Martínez, cantora popular que o influenciou e que mais tarde ele homenagearia em uma de suas canções mais conhecidas “Te Recuerdo Amanda”. Professor na Universidade Técnica do Estado e uma das principais vozes da chamada Nova Canção Chilena, Jara colocou sua música a serviço do projeto socialista de Salvador Allende, tornando-se uma figura incômoda para os militares que arquitetavam o golpe.

Victor foi preso um dia após a queda de Allende, foi levado ao Estádio Chile, onde permaneceu por quatro dias sob tortura constante, período em que, segundo relatos de sobreviventes, ainda conseguiu escrever às escondidas seu último poema. Para o jornalista e biógrafo Freddy Stock, autor de uma biografia sobre o cantor, a resposta para tamanha brutalidade contra um artista está numa frase: “para a barbárie, a beleza é perigosa.” Joan Jara deixou o Chile secretamente pouco depois, levando consigo fitas com as gravações do marido, que ajudariam a espalhar sua obra pelo mundo.

Entre as canções mais marcantes de seu repertório estão “Te recuerdo Amanda”, “El derecho de vivir en paz”, que voltou a ganhar força como hino das manifestações populares chilenas em 2019, e “Manifiesto”, espécie de testamento artístico e político do cantor. Hoje, sua discografia está disponível em plataformas de streaming como Spotify, YouTube Music e Deezer, além de estar amplamente documentada no YouTube em vídeos e apresentações históricas.

Para quem quer se aprofundar nessa história, a Netflix mantém em seu catálogo o documentário “ReMastered: Massacre no Estádio”, dirigido por Bent-Jorgen Perlmutt e lançado em 2019 dentro da série ReMastered. Com pouco mais de uma hora de duração, o filme mostra como as canções engajadas de Jara incomodavam o regime que se instalava no país. Em um dos depoimentos mais marcantes do documentário, um dos entrevistados resume o incômodo que o cantor causava aos militares: “uma canção de Victor Jara era mais perigosa do que 100 metralhadoras.” O documentário conta a sua história e resgata a luta pela condenação dos responsáveis por seu assassinato: décadas de investigação, depoimentos e processos judiciais movidos pela família e por organizações de direitos humanos.

Para quem prefere se aprofundar na história por meio da leitura, o jornalista Freddy Stock lançou em 2023 o livro “5 minutos: La vida eterna de Víctor Jara”, fruto de cinco anos de pesquisa e mais de 30 entrevistas com pessoas que conviveram com o cantor. A biografia reconstrói desde a infância de Jara em Chillán Viejo até o trabalho de Héctor Herrera, funcionário do Registro Civil que ajudou a identificar o corpo do músico no Serviço Médico Legal em meio a dezenas de vítimas da ditadura, além de resgatar detalhes pouco conhecidos sobre sua relação com Joan Jara e sua paixão pelo rock, incomum entre os artistas da esquerda chilena da época.

Voltar a este episódio tão triste da história chilena, seja pelo documentário ou pelo livro, é refletir sobre como a arte e a militância cultural podem se tornar alvo direto de regimes autoritários. O ódio dos militares chegou ao ponto de fraturar os dois pulsos de Victor Jara antes de matá-lo. A memória, sustentada pela luta de uma família e de movimentos de direitos humanos, segue sendo instrumento de justiça, ainda que tardia. Para quem trabalha ou milita na educação, é também um convite a pensar no papel da escola na construção da memória histórica sobre as ditaduras latino-americanas, tema que segue urgente diante do avanço de discursos que relativizam ou negam esse passado.

Para saber mais

Livro:
Stock, Freddy. 5 minutos: La vida eterna de Víctor Jara. 1ª ed. Santiago: Vía X, 2023. 488 p.; 15 x 23 cm. ISBN 9789569363108.

Documentário:

ReMastered: Massacre no Estádio. Direção: Bent-Jorgen Perlmutt. Estados Unidos: Netflix, 2019.

Por Antônia Rangel

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