China defende multipolaridade e pede cessar-fogo no Oriente Médio
Chanceler Wang Yi cobra cessar-fogo na guerra contra o Irã, reafirma solução de dois Estados para Palestina e defende maior peso do Sul Global
A China reafirmou neste sábado (8) as linhas centrais de sua política externa ao defender a multipolaridade, o fortalecimento do Sul Global e o respeito ao direito internacional, ao mesmo tempo em que pediu cessar-fogo no Oriente Médio e criticou o unilateralismo no sistema internacional.
As declarações foram feitas pelo ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, durante coletiva de imprensa realizada à margem da sessão anual da Assembleia Popular Nacional, em Pequim. No encontro, o chanceler respondeu a perguntas de veículos de comunicação de diversos países sobre os principais temas da política internacional.
Ao apresentar a orientação geral da diplomacia chinesa, Wang afirmou que o país seguirá defendendo a soberania nacional, a justiça internacional e a cooperação entre os Estados, posicionando-se contra o que chamou de política de força.
Segundo ele, a diplomacia chinesa continuará a “salvaguardar firmemente a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento do país”, ao mesmo tempo em que sustenta o direito internacional e se opõe a práticas unilaterais.
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“A diplomacia da China salvaguarda firmemente a soberania nacional, a segurança e os interesses de desenvolvimento, sustenta firmemente o Estado de direito internacional e a equidade e a justiça, opõe-se resolutamente a todos os atos unilaterais, à política de poder e à intimidação, e permanece firmemente do lado correto da história”, afirmou.
Wang acrescentou que Pequim pretende ampliar a cooperação internacional em torno da ideia de uma “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”, conceito que tem sido reiterado pela liderança chinesa como eixo de sua estratégia diplomática.
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China pede cessar-fogo no conflito envolvendo Irã
A escalada militar no Oriente Médio foi um dos principais temas da coletiva. Questionado sobre os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, Wang afirmou que a posição chinesa é clara: interromper imediatamente as hostilidades.
Segundo ele, o conflito representa uma crise que ameaça desestabilizar toda a região e não oferece solução para os problemas existentes.
“Ao ver o Oriente Médio envolto em chamas, quero dizer que esta é uma guerra que não deveria ter acontecido — é uma guerra que não beneficia ninguém”, afirmou.
O chanceler defendeu que as operações militares sejam suspensas para evitar a ampliação do conflito e reiterou que a soberania dos países da região deve ser respeitada.
“A soberania, a segurança e a integridade territorial do Irã e de todos os países do Golfo devem ser respeitadas e não podem ser violadas”, declarou.
Wang também criticou o uso da força como instrumento de política internacional e afirmou que conflitos armados tendem apenas a aprofundar tensões.
“A história do Oriente Médio mostra repetidamente que a força não oferece solução e que conflitos armados apenas aumentam o ódio e produzem novas crises”, disse.
Defesa da solução de dois Estados para a Palestina
Ao abordar a guerra em Gaza, o ministro afirmou que a situação representa um teste para o sistema internacional e reiterou a posição chinesa em favor da solução de dois Estados.
Segundo ele, o cessar-fogo alcançado recentemente é um passo positivo, mas ainda insuficiente para resolver a crise.
“Existe apenas uma solução justa e amplamente reconhecida para a questão palestina, que é a solução de dois Estados”, afirmou.
Wang acrescentou que qualquer mecanismo internacional voltado para administrar o pós-guerra deve reforçar — e não enfraquecer — essa perspectiva.
O chanceler também afirmou que a comunidade internacional não deve permitir que a questão palestina volte a ser marginalizada e destacou o papel que a ONU deve desempenhar na condução do processo político.
Reforma da governança global
Outro eixo da coletiva foi a proposta chinesa de reforma da governança global. Wang afirmou que o atual sistema internacional enfrenta um déficit de governança e pressões crescentes sobre o multilateralismo.
Segundo ele, a Iniciativa de Governança Global proposta pelo presidente Xi Jinping recebeu apoio de mais de 150 países e organizações internacionais.
O chanceler explicou que a proposta se baseia em cinco princípios centrais: igualdade soberana entre os Estados, respeito ao direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e ações concretas.
“O status de liderança das Nações Unidas deve ser preservado, não contestado; o papel central das Nações Unidas deve ser fortalecido, não enfraquecido”, afirmou.
Wang acrescentou que a reforma da governança global deve ampliar a representação dos países em desenvolvimento e refletir as transformações na distribuição de poder no sistema internacional.
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Relações com Estados Unidos e Europa
Ao comentar a relação com Washington, Wang afirmou que China e Estados Unidos precisam evitar a lógica de confronto entre grandes potências.
Segundo ele, a interação entre os dois países deve se basear em respeito mútuo e coexistência pacífica.
“Virar as costas um para o outro apenas levaria a equívocos e erros de cálculo mútuos. Deslizar para conflito ou confronto poderia trazer desastre ao mundo”, declarou.
O chanceler também mencionou a possibilidade de uma nova rodada de encontros de alto nível entre os dois países e afirmou que Pequim espera ampliar áreas de cooperação.
Em relação à Europa, Wang afirmou que os vínculos econômicos continuam se fortalecendo e destacou que o comércio bilateral ultrapassou US$ 1 trilhão.
Segundo ele, as relações entre China e União Europeia se sustentam em interesses compartilhados e complementaridade econômica.
“Os fatos mostram que as relações China–Europa extraem estabilidade de interesses compartilhados e certeza de parcerias mutuamente benéficas”, afirmou.
Parceria estratégica com a Rússia
Wang também destacou a importância da parceria entre China e Rússia, que segundo ele se consolidou ao longo de décadas de cooperação.
Ele afirmou que a relação entre os dois países é baseada em igualdade e respeito mútuo e não é dirigida contra terceiros.
Segundo o chanceler, Pequim e Moscou atuam em coordenação em diversos temas internacionais, inclusive na defesa do direito internacional e da estabilidade estratégica.
Sul Global e mundo multipolar
Outro ponto central da coletiva foi o papel crescente do Sul Global na política internacional.
Segundo Wang, o avanço econômico desses países é uma das principais transformações da ordem mundial nas últimas décadas.
“A ascensão coletiva do Sul Global é a marca distintiva da grande transformação em curso no mundo”, afirmou.
Ele destacou que a participação desses países na economia global passou de 24% para mais de 40% nos últimos quarenta anos.
O chanceler defendeu maior coordenação política entre os países em desenvolvimento por meio de plataformas como BRICS, Organização de Cooperação de Xangai e o grupo G77 + China.
Wang também rejeitou a ideia de que a ordem internacional deva ser organizada em torno de um diretório de grandes potências.
“A história mundial sempre foi escrita por muitos países em conjunto, e o futuro da humanidade será moldado pelo esforço coletivo de todas as nações”, afirmou.
Segundo ele, a proposta chinesa é construir um sistema internacional baseado em uma multipolaridade “igualitária e ordenada”, no qual todos os países tenham participação na definição das regras globais.
Por Lucas Toth



