Evo Morales sofre ordem de prisão e denuncia “brutal guerra judicial”
Ex-presidente é acusado de terrorismo e insurreição armadas por “incentivar bloqueios de estradas”; defesa afirma que processo busca criminalizar a oposição em meio à crise
A Justiça da Bolívia determinou a prisão do ex-presidente Evo Morales, acusado sem provas pelo Ministério Público de terrorismo, insurreição armada, associação criminosa e outros delitos relacionados à onda de protestos e bloqueios de rodovias que paralisou o país por mais de 50 dias entre maio e junho.
Morales rejeitou as acusações e classificou o processo como parte de uma “brutal guerra judicial” conduzida para perseguir lideranças populares e desviar a atenção da grave crise econômica enfrentada pelo governo do presidente Rodrigo Paz.
Segundo a Promotoria de Santa Cruz, o ex-presidente teria incentivado e coordenado os bloqueios que interromperam o abastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos em diversas regiões do país.
Além dos crimes de terrorismo e insurreição armada contra a segurança e a soberania do Estado, a denúncia inclui atentado contra os meios de transporte, atentado contra os serviços públicos, instigação pública ao crime e associação criminosa.
As acusações mais graves podem resultar em penas de até 30 anos de prisão.
Em publicação na rede X, Morales afirmou que a investigação busca responsabilizá-lo pelas mobilizações para esconder “o verdadeiro drama que vive a Bolívia: uma profunda crise econômica e social, fruto de um modelo que abandonou o povo e protege a corrupção”.
“Não vão nos intimidar. Continuaremos lutando junto ao povo”, escreveu o ex-presidente.
Protestos e crise econômica
As manifestações ocorreram em meio ao agravamento da crise econômica boliviana.
Trabalhadores, camponeses, mineiros, professores e organizações sociais protestaram contra o corte dos subsídios aos combustíveis, a inflação, a escassez de diesel e gasolina e reformas econômicas implementadas pelo governo.
Os bloqueios de rodovias provocaram desabastecimento em cidades como La Paz e El Alto e foram encerrados apenas após negociações entre o governo e a Confederação dos Trabalhadores da Bolívia (COB).
Durante o auge da crise, Rodrigo Paz decretou estado de emergência, autorizando o emprego das Forças Armadas para desobstruir estradas e garantir o fluxo de mercadorias.
Segundo relatório da Defensoria do Povo da Bolívia, os protestos deixaram 22 mortos, 88 feridos e 573 pessoas presas.
A maior parte das mortes ocorreu em acidentes durante tentativas de contornar os bloqueios, enquanto outras foram registradas em confrontos entre manifestantes e forças de segurança ou por dificuldades de acesso a atendimento médico.
Governo nega perseguição
O governo boliviano afirma que a ordem de prisão decorre de uma decisão do Ministério Público e do Judiciário, negando interferência do Executivo.
“O governo não emite ordens de prisão; quem o faz é a Justiça”, afirmou o porta-voz presidencial José Luis Gálvez.
Segundo ele, Morales deverá responder por declarações nas quais reivindicou protagonismo nas mobilizações e defendeu os bloqueios como instrumento legítimo de pressão política.
O ex-presidente, por sua vez, sustenta que os protestos constituíram uma reação popular às políticas econômicas do governo e recorda que os bloqueios de estradas fazem parte da tradição de mobilização dos movimentos indígenas e camponeses bolivianos.
O caso tramita em Santa Cruz, departamento que há anos constitui o principal bastião político da oposição ao MAS.
A região, a mais rica e populosa da Bolívia, é tradicionalmente governada por forças conservadoras e abriga elites empresariais e movimentos autonomistas que protagonizaram alguns dos principais embates políticos contra os governos de Evo Morales.
Por Lucas Toth




