“O Sol na Cabeça” – o protagonismo da periferia

“o sol na cabeça” – o protagonismo da periferia

A dica Cultural da semana é o livro de estreia de Geovani Martins, “O Sol na Cabeça”. Nascido em 1991, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e criado também na Rocinha e no Vidigal, na Zona Sul, o autor escreve a partir de sua experiência. Em um país em que a desigualdade racial estrutura o acesso à escola, ao trabalho e à própria vida, a literatura que nasce da periferia cumpre o papel de devolver o protagonismo às pessoas e aos territórios que a sociedade insiste em invisibilizar, colocando-a como sujeito de sua própria narrativa, e não como objeto de compaixão.

Publicado em 2018 pela Companhia das Letras, “O Sol na Cabeça” reúne 13 contos que retratam a infância e a adolescência de moradores de favelas e subúrbios do Rio de Janeiro. Escritos em linguagem coloquial, próxima da oralidade das ruas e das quebradas, os textos aproximam a leitora e o leitor de um cotidiano marcado por afetos, sonhos e contradições. A bola no campinho, o primeiro namoro, a bronca da mãe e a violência que chega sem aviso dividem a mesma paisagem urbana. O que une as narrativas é o olhar atento para a humanidade de personagens que costumam aparecer, na imprensa e na ficção, apenas como estatística.

Os contos atravessam temas como racismo, violência policial, medo, amizade e desejo de futuro. Há, na obra, uma atenção especial às crianças e aos adolescentes que precisam crescer rápido demais, entre o baile e a blitz, entre a escola e a necessidade de trabalhar. A linguagem do livro, ao mesmo tempo dura e sensível, recusa o estereótipo e afirma a complexidade dessas vidas. Ler “O Sol na Cabeça” é uma oportunidade de conhecer, pela via da ficção, realidades que a segregação urbana mantém distantes dos centros de decisão do país.

É o que se lê no conto “Espiral”, quando o narrador descreve o percurso cotidiano entre o morro e o asfalto na Zona Sul do Rio de Janeiro e expõe o abismo que separa realidades vizinhas: “As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio […] É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.” A frase que encerra o trecho, “É tudo muito próximo e muito distante”, condensa a contradição vivida por quem cresce na periferia, entre a proximidade física e a distância social que os muros da desigualdade impõem.

O livro foi vencedor da quarta edição do Prêmio Rio de Literatura, em 2019, na categoria Prosa de Ficção, e chegou à lista de finalistas do 61º Prêmio Jabuti na categoria Conto. Antes mesmo de chegar às livrarias brasileiras, os direitos de publicação da obra já haviam sido vendidos para diversos países, e hoje o livro circula em mais de dez territórios, com traduções para outros idiomas. A recepção da crítica especializada e do público coloca Geovani ao lado de autores e autoras que vêm renovando a forma de narrar o Brasil profundo a partir de dentro.

A escola pública é o lugar onde muitas dessas histórias se encontram com a possibilidade de futuro, e a literatura é uma ferramenta de formação crítica, de empatia e de autonomia.

O livro pode ser encontrado em livrarias físicas e virtuais de todo o país, em formato impresso, e-book e audiolivro, com edição da Companhia das Letras, disponível também no site oficial da editora (companhiadasletras.com.br).

Referência: MARTINS, Geovani. O sol na cabeça: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Por Antônia Rangel

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