Senador Bernie Sanders e 30 deputados cobram Trump por interferência nas eleições brasileiras
Carta enviada ao secretário de Estado Marco Rubio aponta para "aparente tentativa" de minar o pleito de outubro. Iniciativa acontece após encontro do senador democrata com Lula
O senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas dos Estados Unidos enviaram carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando explicações sobre ações da administração Trump que, segundo os parlamentares, configuram uma tentativa coordenada de interferir nas eleições presidenciais brasileiras de outubro.
Segundo a Folha de S.Paulo, iniciativa partiu das deputadas Delia Ramirez e Pramila Jayapal e reúne signatários de comissões estratégicas do Congresso americano, incluindo Alexandria Ocasio-Cortez.
A carta foi divulgada na mesma semana em que Sanders se encontrou com o presidente Lula à margem da Assembleia Geral da ONU e em que a campanha petista acionou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral.
“Como Presidente do Brasil, Lula da Silva tirou milhões da pobreza, fortaleceu as proteções aos trabalhadores e protegeu a democracia brasileira. Eu gostei muito de me reunir com ele para discutir as questões importantes que enfrentam o Brasil, os Estados Unidos e a comunidade global”, escreveu Sanders nesta terça-feira (22) no X.
Congressistas dos EUA cobram Trump
A carta foi uma iniciativa das deputadas Delia Ramirez e Pramila Jayapal e reúne, ao todo, 31 parlamentares, entre eles o senador independente Bernie Sanders. O destinatário é Marco Rubio, secretário de Estado de Donald Trump, e o teor do documento é direto: os congressistas afirmam estar preocupados com o que descrevem como uma atuação coordenada da administração para pressionar autoridades brasileiras e influenciar o ambiente político do país às vésperas da votação de outubro.
“As ações mais recentes da administração apontam para uma aparente tentativa de interferir e potencialmente minar as eleições gerais do Brasil em outubro”, diz um trecho da carta, obtida com exclusividade pela Folha. O documento pede que o governo americano se comprometa explicitamente a respeitar o processo eleitoral brasileiro e a reconhecer o resultado certificado das urnas, independentemente do candidato eleito, uma exigência que, por si só, revela a dimensão da desconfiança instalada.
Entre os signatários estão parlamentares com assento em comissões de peso. Jayapal e Jonathan Jackson integram a Comissão de Relações Exteriores; Greg Casar e Maxwell Frost fazem parte da Comissão de Supervisão, responsável por fiscalizar o Executivo. Alexandria Ocasio-Cortez, cotada para disputar a presidência dos EUA em 2028 e que esteve com Lula em visita ao Brasil em 2023, também assina o documento.
A composição da lista não é acidental: caso os democratas conquistem a maioria da Câmara nas eleições legislativas de novembro, esses parlamentares poderiam ampliar a fiscalização sobre a política de Trump para o Brasil por meio de audiências, investigações e do controle orçamentário sobre programas de política externa.
Preocupações com interferência
A carta elenca uma série de episódios ocorridos desde o início do segundo mandato de Trump como indícios de uma estratégia de pressão sobre o Brasil. Os congressistas citam sanções contra autoridades brasileiras, medidas comerciais adotadas pelos EUA e a aproximação do governo Trump com aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro como elementos que, somados, compõem um padrão preocupante.
O episódio de maior peso simbólico no documento é o encontro entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, realizado na Casa Branca. Segundo a carta, Flávio teria pedido, no encontro, a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas estrangeiras. Dois dias depois, o Departamento de Estado anunciou a inclusão das duas facções na lista americana. Para os parlamentares democratas, a sequência dos eventos reforça a percepção de que atos com aparência protocolar estão sendo usados para beneficiar um candidato específico no Brasil.
O pedido central da carta vai além da denúncia: os congressistas exigem que o governo americano assuma, de forma pública e inequívoca, o compromisso de respeitar o processo eleitoral brasileiro e de reconhecer o resultado das urnas. A exigência ecoa o temor, já manifestado por Jayapal em entrevista à Folha em agosto, de que a administração Trump estivesse construindo condições para contestar ou deslegitimar um eventual resultado adverso ao campo bolsonarista.
Repercussão no Brasil e próximos passos
A preocupação dos congressistas americanos não chegou ao Brasil como novidade. Um relatório reservado da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” já havia elevado a possibilidade de influência e interferência externa dos EUA nas eleições brasileiras a um “nível de criticidade”. A existência do documento indica que o tema estava sendo monitorado internamente antes mesmo de a carta americana vir a público.
A campanha de Lula foi além do monitoramento e acionou o STF e o TSE por possíveis interferências dos EUA no processo eleitoral. O movimento institucional sinaliza que o campo governista avalia o risco como suficientemente concreto para buscar respaldo jurídico, ainda que os detalhes do acionamento e seu andamento não tenham sido detalhados publicamente até o momento.
Sanders, um dos principais signatários da carta, encontrou-se pessoalmente com Lula nesta semana, à margem da Assembleia Geral da ONU, e colocou a questão diretamente: perguntou ao presidente sobre a possibilidade real de interferência nas eleições brasileiras. Segundo auxiliares, Lula teria respondido que o governo está vigilante, mas que não acredita que a interferência se concretizará. A resposta equilibra cautela política com a necessidade de não alimentar um clima de instabilidade às vésperas do pleito, mas o próprio fato de o tema ter sido pauta de um encontro de cúpula diz muito sobre o estágio em que a questão se encontra.


