Sinpro/RS: Ex-morador de rua cria escola de redução de danos

Entre os objetivos da iniciativa, o principal é inverter o olhar assistencialista de quem trabalha com políticas públicas voltadas à população de rua

Anderson Rosa Ferreira, 44 anos, estudante de Políticas Públicas da Ufrgs, espera se formar em 2023: “além do conhecimento da academia, é preciso valorizar o saber das ruas”. Foto: Igor Sperotto

Unindo o conhecimento adquirido na universidade com a experiência de ter vivido nas ruas durante 15 anos, o estudante de Políticas Públicas Anderson Rosa Ferreira, 44 anos, fundou a Escola Virtual de Cuidado em Redução de Danos. Entre os objetivos da iniciativa, o principal é inverter o olhar assistencialista de quem trabalha com políticas públicas voltadas à população de rua.

“No Brasil, a legislação para o atendimento (deste público) é muito fragmentada, dividida em projetos de governo – e isso é igual a uma porta giratória de banco: tu entra, é maltratado lá dentro, e sai”, compara o estudante. Anderson destaca que é preciso escutar as necessidades e os desejos das pessoas que moram nas ruas, para melhor aplicar o orçamento em projetos voltados ao atendimento deste segmento.

“Entrei na Faculdade de Políticas Públicas da Ufrgs em 2016 e espero me formar em 2023, mas, além do conhecimento da academia, é preciso valorizar o saber das ruas”, destaca o estudante. “Chamamos esta ciência de rualogia”, pontua, lembrando que a população de rua em Porto Alegre já é estimada em seis mil pessoas. “Com o aumento do desemprego, agravado pela pandemia, muita gente está indo para as ruas, e a nossa escola deve ajudar quem trabalha com saúde, cuidado, e políticas públicas para este segmento a entender melhor a vivência de quem passa por essa situação.”

Integrante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua do RS (de onde cita os dados estimados do número de indivíduos em situação de rua na Capital), atualmente, Anderson mora em uma pensão no Centro da cidade – moradia que custeia com a venda de exemplares do jornal Boca de Rua, no qual também é colaborador.

Caminhos mais eficazes do que a mera abstinência

Egresso do sistema prisional – para onde foi levado por posse de drogas no tempo em que permaneceu nas ruas –, ele opina que há caminhos mais eficazes do que buscar a abstinência dos usuários. “As pessoas acham que é só isso que importa, só que não. Convidei seis profissionais do serviço público e privado que trabalham com o cuidado de forma alternativa, e que têm pesquisas acadêmicas sobre este e outros temas para integrarem o corpo docente da escola e apontarem novos rumos.”

Integram a iniciativa pessoas da própria rede (informal) de apoio que Anderson recebeu para mudar a sua condição de vida. Uma delas é a educadora social Veridiana Farias Machado, que atua em um dos abrigos que ele passou no tempo de maior vulnerabilidade, há dez anos. Além de lutarem juntos pela causa das ruas, ela também incentivou Anderson a se preparar para o vestibular, em 2015.

Veridiana explica que as aulas virtuais têm como proposta contribuir com a disseminação da cultura de redução de danos no cotidiano da sociedade e nas políticas públicas, por meio da abordagem dos temas e da produção de materiais educativos, reunindo palestrantes de diversas áreas.

Cuidado, vínculo e escuta

Um tema polêmico, que é o do uso de álcool e outras drogas, por exemplo, irá focar na necessidade do cuidado, do vínculo e da escuta, a partir do desejo do usuário, como pontos de partida para a abstinência, de modo que a mesma possa ocorrer gradualmente. “Vai ao encontro do conceito da Reforma Psiquiátrica, que trabalha com a questão de não prender a pessoa em locais de reabilitação, mas incentivar que ela lide com estas coisas a partir do seu tempo e dos seus limites”, explica a educadora social, que também é estudante de Psicologia pela Unisinos.

“O Anderson tem um potencial enorme para falar sobre isso e sobre a luta de quem está nas ruas, e essa escola deve somar muito, principalmente na melhoria do atendimento de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas nas ruas”, considera Veridiana.

“A sociedade tem um preconceito com o morador de rua, mas é preciso entender que este indivíduo não está bem psicologicamente e que ele precisa de cuidado”, pontua Anderson. Ele pondera que as equipes que trabalham com o atendimento da população de rua se esforçam, mas critica que “falta retaguarda”. “Será que só o que o Estado consegue fazer é oferecer uma carteira de identidade, uma pasta e uma escova de dentes para quem está nas ruas?”, questiona. “Inclusive, faltam vagas nos albergues da Capital”, destaca.

Ele avalia que “as ruas são violentas, mas a maior violência que uma pessoa que mora nas ruas sofre é a violência do Estado”. “Não é nem pela atuação dos agentes de segurança pública, mas pela falta de direitos básicos (à saúde, à educação, à moradia, e ao trabalho).” O estudante conta que viveu nas ruas de 2000 a 2015 e que sua escolha ocorreu por falta de oportunidades, desvinculação com a família, “um pouco de orgulho na hora de pedir ajuda”, falta de organização financeira, além do fato de ser muito jovem. “É sempre multifatorial, as pessoas pensam que é só por causa das drogas, mas isso é só a cereja do bolo”, revela.

Irmãos das ruas dividem o que têm

Entre os aprendizados que teve neste período, Anderson afirma que “nem sempre alguém que tem casa e um prato de comida vai oferecer para quem precisa, mas qualquer morador de rua divide o que tiver para comer, se um irmão das ruas precisar”. Ele observa que um dos pontos-chave das discussões que devem ocorrer na escola trata do sistema de vida da população de rua, mas também passa pelo olhar equivocado de determinadas instituições, repleto de preconceitos e arbitrariedade.

“Vou falar da minha pesquisa de mestrado que tratou da maternidade de mulheres em situação de rua, e da violação do direito delas, que, muitas vezes, passam pela tentativa de retirada dos seus filhos já nos hospitais”, resume a doutora em Antropologia Social Caroline Silveira Sarmento, também colaboradora do jornal Boca de Rua. “Quando uma mulher com trajetória de rua engravida, normalmente perde o direito de cuidar do seu bebê, o que ocorre em descumprimento do que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente”, comenta a antropóloga. Segundo ela, é preciso pensar em políticas públicas que garantam moradia popular para estas mães poderem cuidar de seus filhos.

“Tudo que aprendi no Movimento Nacional da População em Situação de Rua do RS, eu estou levando para a escola”, declara Anderson, que também irá ministrar algumas aulas. “Meu desejo é implementar a semente do cuidado nas pessoas, e despertar um novo conceito, que não seja racista nem discriminatório. Espero que seja um marco histórico.”

Apesar de já ter promovido uma aula inaugural, Anderson destaca que o curso se iniciou no dia 19 de agosto. São 11 encontros quinzenais, ao longo de cinco meses, pela plataforma Google Meet, sempre das 19h30 às 20h30. A iniciativa conta com o apoio do Fórum Gaúcho de Saúde Mental (FGSM) e da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), e será coordenada pela psicóloga Sandra Fagundes, ex-secretária estadual da Saúde no governo Tarso Genro. O valor do curso é de R$ 70, e as inscrições podem ser feitas pelo telefone (51) 99393-2098.

Do jornal Extra Classe, do Sinpro/RS

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