Em meio à rotina de aulas remotas, professores relatam ansiedade e sobrecarga de trabalho

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Foto: Ana Kézia Gomes/G1

Com jornadas duplas e até triplas, educadores das redes pública e privada enfrentam desafios técnicos e emocionais para cumprir seu ofício em tempos de pandemia

Em meio a uma pandemia que confinou um terço da humanidade em casa e criou novas dinâmicas de relações afetivas e profissionais virtuais, à distância, o ofício dos professores e educadores foi um dos que sofreu mudanças mais profundas. Tendo como instrumentos essenciais de seu trabalho o próprio corpo e a própria voz, eles agora têm como ferramentas imprescindíveis os celulares, computadores e redes sociais. Em meio à adaptação a essa nova forma de trabalho, eles enfrentam maiores responsabilidades e cobranças em suas tarefas. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Península com 2.400 professores da educação básica de todo o Brasil, das redes privada e pública, desde a educação infantil até o ensino médio, incluindo diferentes modalidades como a EJA (Educação de Jovens e Adultos) mostrou que, desde o início da pandemia, esses profissionais relatam ansiedade perante as aulas remotas e sobrecarga de trabalho. “Eles tiveram que transformar toda a sua rotina, em jornadas duplas ou até triplas, se somarmos os trabalhos domésticos e a educação em casa dos próprios filhos”, explica Heloísa Morel, diretora do Instituto Península.

“Acabamos dando aula para as crianças, para os pais e para os coordenadores pedagógicos, somos a ponte entre todo o sistema escolar”, relata Mari Souza, professora do ensino básico em uma escola particular de Salvador. Em 21 anos de carreira na educação, esta é a primeira vez que ela perdeu o contato direto com seus alunos. Além da saudade das crianças, Mari lamenta os problemas técnicos que as aulas remotas acarretam. “Outro dia mesmo tinha uma aula por Skype, mas perdi a conexão. Agora, gasto mais tempo para preparar as aulas, porque o que antes era passado presencialmente, de modo mais fácil, tem que ser preparado em powerpoint, em outras linguagens”.

A isso, somam-se as queixas de pais e mães dos alunos, que têm nos grupos de WhatsApp o contato direto com os educadores. “Recebemos muitos áudios dos familiares reclamando, porque está todo mundo estressado durante esse período e repassam para nós. É super desgastante, tem um desgaste físico e mental, um abalo psicológico… Nem tenho dormido direito. Quando a pandemia passar, vai ter muito professor com depressão”, lamenta.

A pesquisa do Instituto Península aponta que, na China, epicentro originário do novo coronavírus, aumentou o número de professores com síndrome de burnout [estafa, esgotamento] durante a pandemia, e que isso também pode acontecer no Brasil. A mesma pesquisa também mostra que, mesmo no cenário de maiores cobranças, 60% dos professores brasileiros ainda dedicam tempo para estudar, fazer cursos e se atualizar.

“As aulas remotas nos obrigam a nos preparar muito mais. Se você erra em sala de aula, pode corrigir naquele mesmo momento, agora não. Antes eu estava usando powerpoints, mas dava muito problema, então decidi gravar as aulas e colocar em um canal no Youtube”, diz Danilo Oliveira, professor de História e Sociologia na rede pública municipal de São Paulo, que, antes da pandemia, não tinha sequer WhatsApp.

Com uma esposa que também é professora e dois filhos pequenos, Danilo se desdobra para dar aulas e cuidar das crianças ao mesmo tempo. “Como eles ficam acordados o dia inteiro, só consigo gravar as aulas tarde da noite. Durmo por volta das duas da manhã e levanto às sete”, diz, enquanto é possível ouvir pelo telefone o barulho dos pequenos ao fundo.

Realidade pública

Outro problema relatado por Danilo, e comum a outros professores da rede pública ouvidos pelo EL PAÍS, é a perda de contato com alunos que não têm acesso a dispositivos como computadores ou celulares para assistir às aulas virtuais. “Tem uns quatro ou cinco alunos de uma turma de 40 com os quais perdemos o contato”, lamenta o professor.

Uma professora de História da rede municipal de São Paulo, que prefere manter o anonimato, conta que, mesmo com a parceria com a plataforma Google Class, feita pela Prefeitura para facilitar as aulas virtuais, não é possível chegar a todos os estudantes. “Tem um caderno impresso para enviar para as famílias que não têm acesso à internet, mas ele está atrasado, muitos estudantes ainda não receberam, por conta da logística dos Correios. Tem famílias nos ligando para saber o que aconteceu e não sabemos dizer. Isso causa muita ansiedade, por que o que eu posso passar de atividade?”, questiona-se ela.

Essa mesma educadora, que dá aula para crianças de quatro a seis anos, conta que há limitações até para propor atividades lúdicas, pois muitas famílias não têm condições de comprar os materiais necessários, como massinha de modelar. “Além disso, algumas famílias já avisaram à escola que não têm celular…Mas a secretaria quer que a gente mande tarefa todo dia. Muitos pais têm dificuldade em acessar a plataforma, então a escola manda tarefa às vezes até pela página da instituição no Facebook. Muitos pais também já saíram dos grupos de WhatsApp porque dizem que precisam trabalhar e não têm tempo de ensinar aos filhos”, relata.

Heloísa Morel, do Instituto Península, explica que, mesmo que o educador chegue a apenas alguns alunos, é preciso continuar o trabalho pedagógico. “Isso evita a evasão, que tende a aumentar depois de longos períodos sem aulas presenciais”, diz.

Já Alessandro Marimpietri, psicólogo especializado em educação infantil, lembra que é preciso calibrar as expectativas de acordo com o momento atual. “Estamos vivendo situações cheias de ineditismos, e é preciso lembrar que os professores, as famílias e as crianças não são perfeitas. Temos que fazer o que é possível”, diz ele, que recomenda fazer menos, mas com qualidade. “O objetivo não é mais cumprir um cronograma e um calendário pedagógico, mas, sim, a manutenção simbólica da experiência escolar, essa necessidade do saber e do aprender”.

El País

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