Morte de Capitão Adriano aumenta ansiedade por desfecho de investigações sobre suas conexões políticas

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Ex-PM morto na Bahia chefiava Escritório do Crime, integrado por Ronnie Lessa, acusado de atirar em Marielle Franco. Treze celulares e chips apreendidos podem dar pistas de suas relações

A trajetória rocambolesca do ex-policial militar Adriano da Nóbrega, ou Capitão Adriano, teve seu último ato enredado sob a mesma névoa de mistério que o acompanhou ao longo da vida de fora da lei. Foi encontrado em Esplanada, cidade do interior da Bahia, escondido num sítio na zona rural. No local, 13 celulares do ex-PM foram apreendidos, em distintos cômodos, assim como cartões de chips. O sítio é de um vereador do PSL, Gilsinho de Dedé, eleito em 2016 com 885 votos. A legenda é a mesma que elegeu o presidente Jair Bolsonaro, embora Bolsonaro tenha rompido com o partido em novembro do ano passado. Dedé negou conhecer Nóbrega, acusado de comandar o grupo de extermínio Escritório do Crime, que foi vinculado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes em março de 2018 – embora o nome do ex-capitão não conste no inquérito da morte de Marielle —nas investigações que correm no Rio de Janeiro. Dedé estava em Recife quando houve a operação da política para prender Nóbrega.

O Escritório do Crime chefia as milícias de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, e tinha como integrante Ronnie Lessa, acusado de ter dados os tiros que mataram Marielle e Anderson. Foragido há um ano, Nóbrega, de 43 anos, ainda teve tempo de realizar sua última festa de aniversário num condomínio de luxo em Costa do Sauípe, balneário baiano, no mês passado. Arrendou uma mansão por um mês pelo custo de 1.000 reais por dia, segundo informações do jornal O Globo. Ao tomar conhecimento, a polícia civil da Bahia cercou o condomínio para prendê-lo no último dia 1°. Mas Nóbrega logrou fugir, cinco minutos antes da polícia chegar, deixando a mulher e as filhas no local. Na ocasião, a polícia conseguiu apreender um RG falso usado por Nóbrega e sua foto modificada (aparece com barba no documento) saiu na imprensa.

Nóbrega sabia que o cerco estava se fechando, com seu nome ficando novamente em evidência. Um dia antes de fugir da Costa do Sauípe, no dia 31 de janeiro, jornais noticiaram que em agosto de 2019 o ex-PM, acusado de chefiar o grupo de extermínio Escritório do Crime no Rio, estaria por trás de um plano para matar a promotora Simone Sibilio, uma das responsáveis pelas investigações do assassinato de Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. Seu pressentimento, porém, não era o de que seria preso, mas de que seria morto, como contou ele na terça-feira, 4, ao seu advogado Paulo Emílio Catta Preta.

É aqui que o novelo de perguntas sobre as conexões e inimigos de Nóbrega se multiplica. Queima de arquivo ou uma efetiva troca de tiros, como alegou a polícia baiana? Num país em que flagrantes forjados são comuns, a dúvida ganhou tintas fosforescentes entre os que seguem os passos da investigação sobre o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, e sobre as conexões de Nóbrega com a família Bolsonaro. Tinha estreita ligação com outro foragido, Fabrício Queiroz, que trabalhou no gabinete do então deputado estadual Flavio Bolsonaro. A mãe e a agora ex-mulher de Nóbrega também trabalharam no gabinete de Flavio entre 2007 e 2018.

Por outro lado, o ex-PM que integrou o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, era um exímio atirador, o que também se encaixa na versão da polícia. Mas não deixa de causar estranheza o fato de a polícia ter matado um criminoso chave para desvendar um número enorme de crimes, com repercussão internacional, e que representaria um trofeu para a polícia. Ou ainda, de Nóbrega ter resistido à prisão depois de ter sido detido outras três vezes no passado, e de ter sido orientado pelo seu advogado a se entregar, como contou Catta Pretta à repórter Beatriz Jucá neste domingo. Por que o ex-Bope constituiu um advogado para enfrentar a Justiça e então decidiu reagir diante de uma operação em que provavelmente ele estaria em minoria? Nóbrega, que entrou na Polícia Militar em 1996, e promovido ao Bope em 1999, foi acusado pelo homicídio de Leandro dos Santos Silva em 2005, por tentativa de assassinato do pecuarista Rogerio Mesquita em 2008, e em 2011 pelo mesmo crime de 2008. Em todos foi detido, e liberado em seguida.

As perguntas serão feitas à polícia da Bahia, governada pelo governador Ruy Costa, do Partido dos Trabalhadores, e à Justiça do Rio, governada por Wilson Witzel, do Partido Social Cristão (PSC). Ambos são adversários políticos do presidente Jair Bolsonaro, que também terá uma fonte de desgaste com a morte de Nóbrega. Bolsonaro e seu filho, o hoje senador Flavio Bolsonaro, ainda têm em seu passado a defesa pública do Capitão Adriano quando ele foi preso por homicídio em 2005. Nóbrega também é ligado a Fabrício Queiroz, ex-chefe de gabinete de Flavio e que está foragido, é acusado de ser o gestor da prática de “rachadinha” no gabinete de Flavio. Até o final do domingo, ninguém da família Bolsonaro, nem o ministro da Justiça, Sergio Moro, se manifestaram sobre o assunto.

Em tese, os 13 celulares apreendidos junto com os chips no sítio onde Nóbrega foi abatido são as pistas mais frescas para obter respostas que esclareçam as investigações que envolvem Adriano: de chefiar a milícia na zona oeste do Rio, à lavagem de dinheiro, até assassinatos encomendados. Na prática, porém, paira a dúvida se as conexões que lhe garantiram proteção para suas atividades ilícitas serão conhecidas, ou se continuarão mexendo fios que aumentam a teia de seus crimes encobertos.

El País

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