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“Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra (…). Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com os ‘fatos’ que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente ‘brilhantes’ quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar.”

O trecho é do livro “Farenheit 451”, do escritor estadunidense Ray Bradbury. O romance distópico trata de uma sociedade anti-intelectual em que livros são ilegais e, quando encontrados, incendiados. Além disso, qualquer um que seja pego lendo um livro pode ser confinado em um hospício.

Quem leu Bradbury deve ter se lembrado dele ontem (6), ao ver a notícia do comunicado disparado às escolas estaduais de Rondônia pela Secretaria Estadual de Educação, que determinou o recolhimento de 42 obras de importantes autores nacionais e internacionais das bibliotecas. Também deve ter se lembrado da grande queima de livros pelos nazistas em 10 de maio de 1933, em que foram incendiados em praça pública, em várias cidades da Alemanha, de obras de escritores alemães inconvenientes ao regime. Ou ter se recordado ainda do Index Librorum Prohibitorum, lista de publicações proibidas pela Igreja católica por serem consideradas heréticas, anticlericais ou lascivas.

Na obra de Bradbury, os livros ilegais achados são principalmente obras de autores famosos, como Walt Whitman e William Faulkner. No Brasil de 2020, os livros censurados pelo governo de Rondônia incluem, entre outros, romances e contos de Mário de Andrade, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Machado de Assis e — muito — Rubem Fonseca. É notório, portanto, que não se trata, em sentido estrito, de uma censura política, mas moral. Nenhum desses autores, a grande maioria já falecida há tempos, está sendo ameaçado porque seus escritos são considerados perigosos ou subversivos, mas porque, na cabeça tortuosa dos filhos do cruzamento entre Escola Sem Partido e perseguidores de uma suposta e imaginária “ideologia de gênero”, afetam os “bons costumes”.

Em sentido lato, contudo, toda censura é política. Banir “Macunaíma” das bibliotecas é deixar de debater a própria brasilidade e suas características, negativas ou não. Barrar o acesso à brutalidade crua presente na produção literária de Rubem Fonseca, que constantemente a problematiza, não é impedir que a violência se manifeste na realidade, mas, pelo contrário, banalizá-la, como fazem os que pensam que os problemas de um país se resolvem com armas com as/nas mãos. Proibir a leitura não é “proteger” a juventude, mas aliená-la, fazendo dela o que o trecho citado de Farenheit 451 prega.

Na nossa defesa da educação e da liberdade de aprender e ensinar, bem como do acesso ao conhecimento e da livre expressão do pensamento, o que não podemos é cair no jogo de tratar como mera estupidez o que é um projeto político.

Por Táscia Souza

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