“Se houvesse o marxismo cultural, uma pessoa como Bolsonaro não teria sido eleita”

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O presidente veiculou um vídeo, aparentemente gravado em uma festa de formatura de Direito, onde aparecem dois jovens, dançando ao som de “Ele Não” e segurando uma faixa com os dizeres: “Fascistas, racistas, machistas e homofóbicos não passarão”.

Logo após a imagem, editada, há a aparição do filósofo Olavo de Carvalho atrelando a cena a uma possível interferência do pensamento de Gramsci nas escolas e reiterando a ideia de um socialismo que precisa ser combatido.

“Você precisa tomar os órgãos de cultura, as escolas, os jornais, para que antes de você anunciar que vai implantar um regime socialista, todo mundo seja socialista sem nem saber”, declara Carvalho.

O vídeo foi postado pelo presidente com o seguinte texto: “A doutrinação ideológica nas instituições de ensino forma militantes políticos e não cidadãos com bom senso e preparados para o mercado de trabalho”

Para a socióloga, professora da Universidade de Brasília (UNB) e youtuber do canal Tese Onze, Sabrina Fernandes, a publicação do presidente apresenta uma distorção do conceito de cidadania.

“Acho impressionante como a concepção de cidadania do atual presidente vai além e contra aquela que temos em nossa própria Constituição, que tem a ver com vários direitos, inclusive o de expressão e de se organizar politicamente. Isso mostra que, pra ele, cidadania está muito mais relacionada àquela ideia moral e não política do cidadão de bem, que fica calado e respeita a ordem da forma que lhe foi imposta”, observa a especialista.

Para ela, a publicação também atrela uma suposta radicalidade marxista a agendas muitas vezes básicas e enxergadas como reivindicações comuns no resto do mundo, até mesmo liberais.

“Em vários outros lugares isso seria colocado como uma reivindicação extremamente justa para que a sociedade avançasse para um novo patamar de evolução social, mas o Brasil ainda se encontra em uma posição muito arcaica, com a ideia de moralidade, uma ideia de política muito atrasada”, diz se referindo à manifestação dos jovens a favor dos direitos humanos.

“Isso deveria ser uma situação comum, mas esse governo tem uma perspectiva atrasada que coloca questões básicas da dignidade humana como extremamente extremamente revolucionárias e relacionadas a um marxismo”, avalia.

Sabrina também retoma a teoria de Gramsci frequentemente atacado por membros do novo governo. “Gramsci tinha um foco muito interessante em uma formulação ao redor de intelectuais orgânicos, que falava da necessidade de formar os trabalhadores para que pudessem pensar por si próprios, para além do senso comum, para influenciar uma perspectiva de pensamento crítico, assim como fazia Paulo Freire, outro autor bastante demonizado por esse governo”.

Ela explica que, o intelectual orgânico, fazendo a ponte com a pedagogia crítica, é ensinar a pessoa a questionar sua realidade “Não é uma doutrinação, muito pelo contrário, é ensinar as pessoas a responderem criticamente as tentativas de doutrinação e de silenciamento, como a própria colocação de Bolsonaro que diz que ou você participa politicamente ou você realmente é um cidadão brasileiro”, analisa.

Sabrina entende que esse movimento de cercear a liberdade do ensino não é recente, mas vê a sua institucionalização por projetos como o Escola sem Partido, que tem ajudado a sustentar a “teoria da da infiltração do marxismo cultural”.

“O que está por trás é claramente o capitalismo e a gente vê uma tendência global relacionada a isso, tem gente estudando e pesquisando o processo de Bologna na Europa. Você olha para o processo e acha que ele vai facilitar o trânsito de conhecimento científico e acadêmico entre as várias universidades da Europa, mas o que está sendo facilitado são matérias, disciplinas e cursos específicos voltados para habilidades práticas que servem diretamente ao mercado de trabalho industrial ou de serviços. Muitas questões relacionadas às humanidades, por exemplo, acabam se perdendo porque elas não possuem o mesmo valor econômico de extração de ganhos nas grandes empresas”, avalia a especialista, reconhecendo que o movimento é bastante comum em universidades.

“Agora, quando você pega isso e leva diretamente para o Ensino Fundamental e Médio você rouba de crianças e jovens uma base extremamente ampla e diversa para que, a partir dela, eles possam escolher o seu caminho profissional. Rouba o caráter da educação que é o de trazer conhecimento para reduzí-lo a um treinamento, que é o que Paulo Freire já denunciava como a educação bancária, busca apenas trabalhadores ideais aos olhos do mercado.

A especialista fala sobre a falsa ideia de que as escolas e universidades praticam doutrinação. “O que se pode afirmar é que se houvesse realmente uma doutrinação nas escolas e universidades públicas do Brasil em relação a esse marxismo cultural, uma pessoa como Bolsonaro não teria sido eleita”.

Carta Educação

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