‘Espanca até matar’: escola é denunciada por incitar crianças à violência em SC

Cânticos entoados nas ruas por alunos que fazem curso militar em Florianópolis

“Bate na cara, espanca até matar; arranca a cabeça e joga ela no mar. E o interrogatório é muito fácil de fazer; eu pego o inimigo e dou porrada até morrer”. Um canto que já soa agressivo e violento dito por adultos viralizou nas redes sociais ao ser exposto pelo vereador de Florianópolis, Bruno Ziliotto (PT) na voz de crianças flagradas uniformizadas e em plena atividade na capital de Santa Catarina.

O vídeo divulgado pelo parlamentar resultou também em uma denúncia ao Ministério Público de Santa Catarina por apologia à violência por parte de uma escola preparatória militar. “Não são militares. São crianças e pré-adolescentes que deveriam estar estudando, fazendo esportes, se divertindo e aprendendo a construir uma sociedade melhor, e não falando sobre espancar e matar”, disse o vereador.

A denúncia também cita o curso Unibe Escola Pré-Militar que se apresenta com a oferta de cursos preparatórios para as principais carreiras do Brasil. O discurso institucional promete a entrega de um ensino “direto ao ponto, inovador e robusto”. A página da unidade de Florianópolis no Instagram traz oportunidade de treino gratuito, “Bolsão 2026” e registra, em postagens, os “mirins”, crianças que participam do processo de formação com “metodologia exclusiva e o alto índice de aprovação”.

De acordo com a denúncia feita pelo vereador, embora o curso Unibe Pré-Militar informe em seu site atender jovens entre 14 e 17 anos, o vídeo mostraria participantes com idade “claramente inferior”. O curso foi procurado, mas não retornou até o fechamento desta coluna.

Um registro também no Instagram mostra uma confraternização em dezembro de 2025 com a hashtag #desafiomirim”. A legenda diz que na confraternização teve “brincadeiras e treinamento”. O vídeo mostra crianças em jogos e em posição de sentido, mas não traz informações sobre como funcionam as atividades junto a esse público.

Um outro vídeo, de novembro de 2025, mostra o registro de uma atividade com material bélico. “A granada de mão é um dos equipamentos usados pelos militares e aprender sobre ela de maneira educativa ajuda as crianças a entenderem que certos materiais existem para proteger o país em situações muito especiais”, diz a legenda. O vídeo mostra as crianças confeccionando simulações de granadas aparentemente com tinta e outros materiais.

Reprodução Instagram

Para Ziliotto, a conduta pode configurar crime de incitação à prática de delito, conforme previsto no artigo 286 do Código Penal. Ele diz que o fato também pode se enquadrar no crime de corrupção de menores, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.

“Naturalizar esse tipo de violência é naturalizar também a violência policial que ocorre todos os dias nos morros e nas comunidades. Não é normal que crianças cantem sobre “espancar até matar” quando, todos os dias, jovens negros são espancados por militares até a morte no Brasil”, disse.

Atualmente, o governo do estado de Santa Catarina conta com programas de escola cívico-militares e também com projetos de inserção de policiais militares nas escolas. Neste projeto, policiais da reserva participam da vida escolar e são remunerados para isso desde 2023. Já o programa de unidades escolares cívico-militar foi instituído mesmo após o governo federal decretar o fim da proposta.

‘Desenvolvimento profissional e gerencial’

Segundo o site do Ministério da Educação, a oferta de cursos livres de qualquer natureza, com finalidades diversas, não precisa ser autorizada ou reconhecida pelos órgãos de regulação dos sistemas de ensino federal, estadual ou municipal.

“Tais cursos não precisam ser autorizados ou reconhecidos pelos órgãos de regulação dos sistemas de ensino federal, estadual ou municipal e podem ser ofertados por pessoas físicas ou jurídicas de qualquer natureza, com finalidades diversas, cujos certificados conferidos, via de regra, não garantem a inserção em atividades profissionais, especialmente no caso de profissões regulamentadas que exigem formação em cursos técnicos ou superiores, nem são aceitos como título de pós-graduação lato sensu”, explica o site do MEC.

O CNPJ da empresa, que atua em diversas regiões do Brasil, está associado ao “treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial”. No portal Reclame Aqui, um depoimento de dois dias atrás trata o curso como “propaganda enganosa” e aponta que “oferecem um treinamento gratuito, pedem um quilo de alimento, mas lá não tem treinamento nenhum”. Além disso, relata a “insistência” para a compra. A empresa respondeu alegando que iria entrar em contato para buscar uma solução adequada para a reclamação.

O “desafio mirim” é ofertado para crianças de 5 a 10 anos com a proposta de “gastar energia”. Segundo um vídeo postado em outubro de 2025 na página do Instagram, cursos de primeiros socorros, coordenação motora, liderança e disciplina estão entre os tópicos trabalhados.

Fonte
ICL Notícias

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