Universidades particulares que homenagearam governador ganharam R$ 890 milhões de SC

Jorginho Mello foi agraciado com honraria acadêmica em quatro instituições particulares e uma associação ao longo da gestão

“Por causa de honra” – esse é o significado, em português, do latim “honoris causa”, honraria e distinção acadêmica concedida por universidades a personalidades importantes por algum feito em áreas como arte, ciência e educação. No dicionário político de Santa Catarina, no entanto, esse mérito parece ter um custo. Agraciado com cinco títulos desde 2023, o governador Jorginho Mello carimbou R$ 890 milhões em recursos públicos para as quatro universidades que lhe premiaram – a outra honraria veio da associação presidida pelos dois secretários de Educação que atuaram em seu mandato.

A última distinção foi concedida pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), no início de 2026, em uma cerimônia repleta de bajulação e com propaganda política explícita, disponível no Youtube. Um vídeo institucional de quase três minutos detalhando obras em estradas, segurança pública e cirurgias eletivas se mostra estranho ao propósito da solenidade de outorga de título.

“Um dos números que nos intrigava por muito tempo era um chamado índice de inadimplência. Devo lhe dizer que nos últimos anos ele quase não foi olhado porque ele ficou tão pequeno que não nos preocupa mais, governador”, disse o presidente da Fundação que mantém a universidade, professor Genésio Téo.

A Unoesc recebeu, de 2023 até este mês, R$ 422 milhões em recursos dos cofres da educação pública catarinense. Cursos de Medicina e Direito consomem a maior parte do montante das bolsas pagas, sem que se justifique a necessidade de formação de recursos humanos nessas áreas no Estado. As bolsas também foram investigadas em uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado, por serem pagas em benefício de pessoas ricas e com patrimônio milionário.

“Nós faremos esforço e trabalharemos para que o seu mandato seja até 2030″, disse, na cerimônia, o ex-reitor da Unoesc Aristides Cimadon, que foi secretário de Educação do governo até 2025. Cimadon foi substituído pela reitora da Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina (Unesc), Luciane Ceretta, instituição que também concedeu a distinção acadêmica a Jorginho Mello, com o caixa inflado em R$ 316 milhões em recursos públicos.

Quando aprovou a honraria ao governador, a Unesc a anunciou junto com o honoris causa do deputado federal e líder do PT, Pedro Uczai. A manobra diplomática, no entanto, não apaga os dados da transparência pública: nos primeiros meses de 2026, a Unesc liderou os repasses do orçamento estadual no programa Universidade Gratuita, como destacamos na coluna.

“São personalidades que imprimem verdadeiros legados na educação e merecem esse reconhecimento”, disse a secretária de Educação que carimba as verbas e reitora licenciada da universidade milionária, Luciane Ceretta. Apesar de comunitárias, as universidades cobram mensalidades caras e que crescem substancialmente ao longo dos anos, sem sistemas de transparência que mostrem aos cidadãos para onde vão os recursos geridos por fundações com baixa transparência.

Curso nota 1 e verba nota R$ 74,2 milhões

A Universidade do Contestado (UnC) também agradou Jorginho Mello com o título acadêmico, em dezembro de 2025. “A honraria reconhece a contribuição do governador pela atenção ao ensino superior, desde seu mandato como deputado estadual, bem como pela política de acesso e permanência dos alunos na Universidade por meio do Programa Universidade Gratuita, além de expressar o reconhecimento da UNC ao incentivo e à valorização do ensino superior catarinense”, registrou o texto institucional.

Um mês depois, a Universidade receberia o resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed)  2025, em que obteve nota mínima, a um passo do descredenciamento. Desde 2021, a instituição particular recebeu R$ 74,2 milhões do governo.

De 2023 até janeiro deste ano, mais de R$ 17 milhões tinham sido usados só para bancar mensalidades do curso considerado de péssima qualidade pelo MEC, no campus de Mafra. Os números atualizados, no entanto, mostram que este valor já será superado: segundo o portal da transparência, o curso de Medicina nota 1 vai receber R$ 16,2 milhões somente no primeiro semestre de 2026.

Além de terem alimentado, em sua maioria, bolsas nos cursos de Medicina, Medicina Veterinária, Odontologia e Direito, os R$ 890 milhões das instituições que premiaram Jorginho Mello representam, em volume de recursos, duas vezes mais do que o orçamento previsto para a alimentação escolar na educação básica em 2026.

Universidade privada e Associação de Comunitárias também premiaram governador

O Centro Universitário Unifacvest, da cidade de Lages, universidade privada, premiou Jorginho Mello ainda em 2024. A instituição recebeu verbas crescentes desde então, passando de R$ 13,4 milhões em 2023 para R$ 25,6 milhões em 2026. Na soma, já chega à cifra de R$ 76,4 milhões do orçamento público, em verbas que deveriam ter ido para os municípios, conforme noticiado pela coluna.

A Agência de Notícias do governo chegou a fazer propaganda da homenagem recebida pelo governador. “O governo veio, iniciou suas atividades e nós podemos dizer que fomos brindados com muito mais do que aquilo que havia sido prometido. O seu compromisso foi muito maior na sua realização: mais estudantes das instituições privadas, mais estudantes das instituições públicas puderam e vão poder, no futuro, cursar o ensino superior”, disse o reitor Geovani Broering em seu discurso.

Antes, em 2023, a Associação das Universidades Comunitárias de Santa Catarina, a Acafe, também já havia concedido o honoris causa ao governador. Juntas, as instituições particulares que congregam a Acafe receberam R$1,4 bi no Universidade Gratuita, com previsão de mais R$ 1 bi somente neste ano eleitoral.

Se somado esse valor ao das quatro universidades que honraram Jorginho Mello, o custo “por causa de honra” dessas premiações ultrapassa os R$ 3 bilhões, mais do que todo o valor reservado para a gestão do ensino fundamental pelo governo catarinense em 2026.

A meritocracia que custa caro pode ser ironicamente representada pela fala do governador na cerimônia da Unoesc, ao se referir ao fato de o Estado pagar a “faculdade dos sonhos” para estudantes. “Foi por isso que nós estamos gastando R$ 1 ,2 bilhões por ano para para pagar universidade para quem não tem condições de pagar. Isso não é pouco dinheiro Isso não existe no Brasil”.

Fonte
ICL Notícias

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