Dieese e centrais sindicais reagem a ataques ao IBGE e defendem soberania de dados
Evento no Dieese reúne lideranças sindicais, IBGE e entidades para enfrentar desinformação e denunciar ofensiva da extrema direita contra estatísticas públicas e a soberania nacional
A defesa dos institutos públicos de pesquisa e o enfrentamento aos ataques contra o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foram tema do debate “Defesa dos Dados Oficiais e da Soberania Nacional”, realizado na manhã desta segunda-feira (6), na sede do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em São Paulo.
Promovido em parceria com as centrais sindicais e com a participação de diversas entidades da sociedade civil, o encontro denunciou a ofensiva de setores da extrema direita que buscam descredibilizar dados oficiais e instituições públicas, colocando em risco a formulação de políticas públicas e o próprio debate democrático no país .
A mesa reuniu representantes das centrais sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, CTB e Nova Central Sindical), evidenciando a unidade do movimento sindical na defesa das estatísticas públicas como ferramenta essencial para a atuação junto à classe trabalhadora.
A defesa
Diretora técnica do Dieese, Adriana Marcolino situou o debate a partir do avanço de uma estratégia organizada de desinformação que tem como alvo instituições como o IBGE. Segundo ela, a tentativa de desacreditar os dados não é isolada, mas parte de um movimento político com interesses claros.
“O IBGE é um exemplo de como um movimento mais geral de produção de desinformação e de descredibilização da ciência pública tem se espalhado não só no Brasil, mas no mundo”, afirmou. “Não é ‘sem interesse’ essa forma de desacreditar essas organizações. Ela atende a uma lógica de imposição de um outro discurso, em geral de direita, extremista, de ódio”, disse.
Adriana destacou que os ataques têm ocorrido de forma sistemática, em especial nas redes sociais, com a disseminação de acusações de que os dados seriam falsos ou não refletiriam a realidade, o que, segundo ela, buscam minar a confiança pública em instituições reconhecidas pela qualidade técnica.
“Há um ataque dizendo que os dados são falsos, tentando desacreditar o presidente e os servidores que sempre carregaram o IBGE com muito profissionalismo, mesmo com poucos recursos”, afirmou.
Para Adriana, o objetivo é impedir que a sociedade tenha acesso a informações que revelam desigualdades e orientam políticas públicas. “Atacar a produção de dados é atacar a capacidade do Estado de entender a realidade e de formular políticas para reduzir desigualdades”, disse.
Ela também relacionou o tema à soberania nacional. “O Brasil, para ser soberano, precisa ter produção de conhecimento, de informações e de estatísticas que resultem em uma ação qualificada do Estado”, disse. “Atacar essa capacidade é atacar um projeto de desenvolvimento nacional”, completou.
Adriana alertou ainda para os riscos da dependência de grandes empresas de tecnologia no armazenamento e uso de dados. “Não adianta produzir dados se eles estão sob controle de grandes empresas. Sem soberania nesse ciclo – produção, armazenamento, processamento e uso – o país perde autonomia”, afirmou.
Credibilidade e soberania
Presidente do IBGE, Marcio Pochmann reforçou que a defesa das estatísticas públicas é central para o futuro do país e classificou a soberania de dados como um dos principais desafios do século.
“Nós estamos diante de um desafio maior, que é a soberania de dados, a soberania das informações”, afirmou. “Infelizmente, o Brasil não tem soberania de dados. Grande parte da nossa produção está sendo processada fora do país.”
Ele destacou que o enfraquecimento das instituições abre espaço para a desinformação. “Sem conhecer a realidade, não temos condições de transformá-la. E é por isso que atacar os dados e as instituições é tão grave”, disse.
Pochmann também alertou para o papel das plataformas digitais na disputa informacional. “O que estamos vendo é uma tentativa de eliminar o mensageiro. Sem informação, prevalece a mentira.”
Ao situar historicamente o papel do IBGE, ele reforçou que a produção de dados sempre esteve ligada à capacidade do Estado de planejar o desenvolvimento. “As estatísticas são fundamentais para orientar o país. Elas não mudam a história sozinhas, mas são passos indispensáveis para que a transformação aconteça.”
O presidente do IBGE também defendeu o fortalecimento da infraestrutura pública de dados e chegou a apontar a necessidade de uma estrutura tecnológica nacional. “Por que não integrar empresas públicas e construir uma grande capacidade nacional de processamento de dados?”, questionou.
Nada nos impede de mudar, a não ser o medo de fazer diferente. A esperança deve nos orientar – Marcio Pochmann
Centrais
Representando a CUT, Raimundo Suzart, presidente da CUT-SP, destacou que a defesa dos dados públicos está diretamente ligada à atuação cotidiana do movimento sindical.
“Quando a gente fala de dados para a classe trabalhadora, o Dieese é a nossa base, é a nossa sustentação de negociação e de trabalho no chão de fábrica”, afirmou.
Suzart criticou a disseminação de desinformação e a tentativa de desacreditar instituições. “Eles não acreditam em nada, a não ser naquilo que interessa ao discurso deles. Foi assim na pandemia, é assim com as urnas e agora com os dados oficiais”, disse.
Para ele, o ataque às estatísticas públicas está ligado a um projeto político que ameaça a soberania nacional. “Defender os dados do IBGE é defender o Brasil. É garantir que a gente tenha informação real para tomar decisões e proteger o nosso país.”
O dirigente também ressaltou que o debate vai além das instituições e impacta diretamente a vida da população. “Sem dados confiáveis, a gente não consegue enfrentar desigualdade, não consegue defender direitos e nem construir políticas públicas”, afirmou.
Fala aberta
Ao longo do debate, representantes das centrais e de diferentes entidades reforçaram que a defesa dos dados públicos não é um tema técnico restrito a especialistas, mas uma questão diretamente ligada à democracia e à vida concreta da população. Dirigentes sindicais destacaram que estatísticas confiáveis são fundamentais para revelar desigualdades, orientar negociações e sustentar a luta por direitos.
Representantes das centrais ressaltaram que “não existe combate à desigualdade sem informação séria” e que “defender os dados técnicos é defender a própria soberania nacional”, ao apontar que o enfraquecimento das instituições públicas compromete tanto a formulação de políticas quanto a capacidade de organização da classe trabalhadora. Também houve críticas à disseminação de desinformação, considerada um instrumento para confundir a população e fragilizar o debate público.
O consenso também foi o de que o acesso a dados produzidos por instituições como o IBGE e o Dieese é essencial para compreender a realidade brasileira e enfrentar problemas históricos, como a desigualdade social e as disparidades regionais.
Ao final do encontro, foi lido um manifesto em defesa dos dados oficiais, da soberania nacional e do fortalecimento das instituições públicas de pesquisa, com destaque para o IBGE. O documento foi apresentado às entidades presentes, que foram convidadas a assiná-lo, consolidando o compromisso coletivo de enfrentar os ataques, combater a desinformação e reafirmar a importância da produção de conhecimento público para o desenvolvimento do país.
Leia aqui a íntegra do Manifesto em Defesa do IBGE e da Informação Pública de Qualidade





