Educação: o principal motor do IDHM brasileiro

Pela primeira vez desde que o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) começou a ser medido, o Brasil atingiu 0,805 e ingressou oficialmente no grupo de nações com muito alto desenvolvimento humano (dados de 2024). Por trás desse número, há um protagonista claro: a educação.

Entre 2012 e 2024, o IDHM brasileiro cresceu de 0,744 para 0,805. O percurso não foi linear: a pandemia de Covid-19 derrubou o índice em 2020 e 2021, afetando especialmente a longevidade e a renda. Mas a recuperação foi expressiva. O índice saltou de 0,788 em 2022 para 0,798 em 2023, até romper, definitivamente, o teto do desenvolvimento muito alto no ano seguinte.

O IDHM avalia três dimensões: longevidade, renda e educação. E é justamente nessa última que os números mais impressionam. O subíndice educacional avançou de 0,679 para 0,798 no período — uma expansão de quase 12 pontos no índice, a um ritmo médio anual de 1,35%, bem acima das taxas registradas nas outras dimensões (0,31% ao ano para longevidade e renda).

“Os indicadores de educação avançam em uma velocidade três vezes maior do que o observado no início da série”, afirmou Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD Brasil, ao comentar os dados.

O Bolsa Família como alavanca escolar

O relatório Radar IDHM aponta o Programa Bolsa Família como peça central nessa equação. Ao condicionar o recebimento do benefício à frequência escolar de crianças e adolescentes, o programa funcionou como um mecanismo direto de permanência na escola — especialmente entre as famílias mais vulneráveis.

Os resultados são visíveis: desde 2023, o número de crianças e jovens beneficiários do Bolsa Família nas escolas cresceu 1,5 milhão, um aumento de 11,2%. No mesmo período, o número de municípios com baixo acompanhamento escolar (abaixo de 85% dos estudantes beneficiários monitorados) caiu 56,3%.

Pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) reforça o impacto de longo prazo: 70% dos adolescentes saíram do programa em até dez anos, após melhorar sua condição de vida, elevar a escolaridade e ingressar no mercado formal de trabalho.

“O programa Bolsa Família retira uma quantidade enorme de crianças do mundo do trabalho e dá a elas a condição da escola, e a obrigatoriedade, também de estar na escola, porque senão o programa é interrompido” , ressaltou Betina Barbosa. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, foi além: “Pela primeira vez na história, o Brasil atinge um IDH que é considerado muito elevado, e o principal aumento de 15 anos para cá foi na educação. Hoje, 25 milhões de brasileiros que estão no mundo do trabalho possuem um diploma de nível superior. Há 25 anos, eram só cinco milhões”.

Os números da educação brasileira

Os dados do IBGE referentes a 2024 confirmam a trajetória de avanço: a taxa de analfabetismo caiu para 5,3% — a menor da série histórica iniciada em 2016, quando era de 6,7%; a proporção de brasileiros com ao menos o ensino médio completo chegou a 56%, o maior percentual já registrado; a média de anos de estudo das pessoas com 25 anos ou mais atingiu 10,1 anos, também recorde histórico. Por fim, a proporção de pessoas com nível superior completo subiu para 20,5%.

Um dos dados mais significativos do Radar IDHM diz respeito à redução das desigualdades raciais no campo educacional. O IDHM Educação da população negra saltou de 0,623 para 0,770 entre 2012 e 2024 — o maior avanço entre os grupos analisados nas três dimensões do índice.

Em 2021, projetava-se que a população negra levaria 35 anos para alcançar o mesmo IDH da população branca. Em 2024, essa projeção caiu para 26 anos — quase uma década de diferença eliminada em apenas três anos.

Ainda assim, as disparidades são gritantes. O analfabetismo entre pessoas pretas ou pardas é de 6,9%, mais do que o dobro da taxa registrada entre brancos (3,1%). Entre idosos, a diferença é ainda mais alarmante: enquanto 8,1% dos brancos com 60 anos ou mais são analfabetos, entre pretos e pardos da mesma faixa etária o índice chega a 21,8%.

Quando a média esconde a realidade

O avanço do IDHM para 0,805 é real, mas esconde as desigualdades sociais do País. Quando o índice é ajustado pela desigualdade — incorporando as diferenças de renda, educação e longevidade entre grupos populacionais —, o Brasil deixa a faixa de muito alto desenvolvimento humano e recua para o nível médio, com índice de apenas 0,641.

O contraste é contundente. O IDHM da população branca é de 0,851, acima da média nacional. O da população negra, 0,774. Entre homens (0,802) e mulheres (0,798), a diferença parece menor — mas se aprofunda quando se considera a renda do trabalho, especialmente para mulheres negras.

“A mulher negra no Brasil vive em um país diferente do homem branco”, resume Claudio Providas, chefe do PNUD no Brasil.

Um novo ciclo começa

O ingresso do Brasil na faixa de muito alto desenvolvimento humano representa uma conquista inegável e também um novo ponto de partida. Para Betina Barbosa, “o Brasil atingiu sua melhor marca, mas agora entra em um novo ciclo de desenvolvimento. É um desafio de país maduro, que exige enfrentar desigualdades históricas de raça, gênero e renda”.

A educação, que foi a grande protagonista desse avanço, precisa seguir como prioridade — não apenas para ampliar o acesso, mas para garantir qualidade, equidade e permanência para todos os brasileiros, independentemente de onde nasceram ou da cor de sua pele.

Por Andressa Schpallir

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