Esquema de Vorcaro usava vazamentos no BC e propina para blindar Master
Depoimento à PF revela vazamento de minutas no BC e repasses do Banco Master a servidores e agentes públicos para barrar a liquidação da instituição
Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, revelou em depoimento à Polícia Federal, prestado em 25 de maio de 2026, que a autarquia enfrentou vazamentos sistemáticos de informações internas durante o processo de análise das irregularidades do Banco Master.
Conforme o relato, decisões, análises e votos ainda em fase de elaboração vazavam de forma contínua para os fiscalizados e para veículos de imprensa, criando um ambiente de desconfiança interna.
Diante do cenário hostil, Aquino e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, precisaram restringir a decisão de liquidar a instituição financeira a um grupo extremamente reduzido de colaboradores.
As declarações integram o conjunto de provas colhidas pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, e fundamentam decisões proferidas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. As investigações desenham a extensão de um esquema montado pelo empresário Daniel Vorcaro para interferir nas fiscalizações do sistema financeiro.
A apuração aponta que a atuação ilegal contava com a cooperação de dois servidores de carreira da área de Supervisão Bancária da autarquia. Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-chefe-adjunto, e Belline Santana, ex-chefe do departamento, são apontados como beneficiários de vantagens indevidas pagas por meio de contratos simulados de consultoria.
As mensagens apreendidas pelos investigadores mostram a atuação dos servidores no direcionamento de teses, revisão preventiva de documentos protocolados pelo banco e emissão de alertas sobre ações do próprio órgão regulador. O Banco Central afastou os servidores, instaurou processos administrativos disciplinares e encaminhou as apurações à Polícia Federal.
A rede de influência se estendia a instâncias de gestão pública e ao mercado financeiro. O ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, é apontado pela PF como destinatário de repasses para viabilizar a aquisição, pela instituição pública estadual, de carteiras de crédito do Banco Master sem o devido lastro, estimadas em R$ 12 bilhões. O arranjo envolvia a transferência de imóveis de luxo e cotas em fundos de investimento para ocultação do patrimônio. Costa foi preso em uma das fases da Operação Compliance Zero.
Relatórios da Receita Federal e dados enviados à CPI do Crime Organizado detalham que os recursos do conglomerado também remuneravam serviços de assessoria jurídica e consultorias prestadas a figuras públicas e escritórios ligados a políticos de diferentes espectros partidários, além de agentes do meio empresarial.
Para a proteção das operações e neutralização de opositores, Vorcaro financiava uma estrutura paralela encarregada de monitoramentos ilegais, produção de dossiês e constrangimento de jornalistas e autoridades. A investigação identificou repasses mensais para o grupo, além de tentativas de cooptação de influenciadores digitais para a publicação de conteúdos críticos à atuação fiscalizadora do Banco Central.
A engenharia financeira contava com a utilização de 216 fundos de investimento e 143 sociedades de propósito específico para pulverizar os recursos e ocultar os beneficiários finais das transações. A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada em novembro de 2025, interrompeu o funcionamento do esquema, cujos desdobramentos seguem sob investigação no Supremo Tribunal Federal e na Justiça Federal.
Por Davi Dmolir



