Duas despedidas na arte: Yayoi Kusama e Sliman Mansour

A dica cultural desta semana é sobre dois importantes artistas visuais contemporâneos: a japonesa Yayoi Kusama, conhecida como a rainha das bolinhas, e o palestino Sliman Mansour, um dos fundadores da arte contemporânea palestina. Os dois nos deixaram neste mês de agosto, e a arte visual mundial perdeu, na mesma semana, duas figuras que marcaram o século XX e o XXI, cada uma à sua maneira transformando uma experiência radical, íntima ou coletiva, em linguagem visual.

Yayoi Kusama (1929-2026)

Kusama morreu em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio, aos 97 anos. A notícia foi confirmada em 27 de agosto por sua empresa, a Yayoi Kusama Inc. Nascida em 22 de março de 1929, em Matsumoto, no Japão, Kusama transformou em arte as alucinações que a acompanharam desde a infância. Suas pinturas de bolinhas, as esculturas de abóboras e as instalações imersivas conhecidas como Infinity Mirror Rooms (as salas de espelhos infinitos) tornaram-se ícones presentes em museus do mundo todo. A prática dela também incluiu performance, ficção e poesia.

Kusama vivia voluntariamente, desde 1977, em um hospital psiquiátrico em Tóquio, de onde saía diariamente para trabalhar em seu ateliê. Segundo a Associated Press, continuou pintando até os últimos dias, a arte funcionando, para ela, como estética e enfrentamento direto de uma condição real.

Em 1957, aos 28 anos, Kusama deixou o Japão rumo aos Estados Unidos, onde apresentou sua primeira exposição individual em Seattle e, em seguida, se estabeleceu em Nova York, tornando-se referência do minimalismo, da pop art e da arte feminista. Foi lá que criou as primeiras salas de espelhos infinitos, em 1965. Em 1973, voltou ao Japão e, em 1993, tornou-se a primeira mulher a representar o Japão na Bienal de Veneza, em apresentação solo.

No Brasil, sua obra já reuniu multidões: a mostra “Obsessão Infinita” passou por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo entre 2013 e 2014, somando mais de 500 mil visitantes só na capital paulista. Desde 2023, o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), mantém uma galeria permanente dedicada à artista, com as instalações “I’m Here, But Nothing” (2000) e “Aftermath of Obliteration of Eternity” (2009), além da peça “Narcissus Garden”.

Sliman Mansour (1947-2026)

Sliman Mansour morreu em 24 de agosto, em Jerusalém, aos 79 anos. Nascido em 1947, em Birzeit, na região de Ramallah, na então Palestina sob mandato britânico, estudou na Academia Bezalel de Artes e Design e tornou-se uma das figuras fundadoras da arte contemporânea palestina. A Al Jazeera o definiu como um gigante da arte de resistência. Sua obra mais célebre é a pintura “Camel of Hardship” (Jamal al-Mahamel), de 1973, considerada uma imagem icônica da dignidade e da luta do povo palestino. Além de pintor, foi autor e cartunista.

Ao longo de mais de seis décadas, Mansour construiu uma iconografia da vida palestina, com elementos como camponeses, oliveiras, bordados tradicionais e a paisagem de Jerusalém, que se tornou linguagem visual de resistência. Durante a Primeira Intifada (1987-1993), o levante popular palestino contra a ocupação israelense na Cisjordânia e em Gaza, ele cofundou o coletivo New Visions e, em protesto contra o uso de materiais israelenses, passou a trabalhar com barro, palha, henna e corantes naturais.

Recebeu o Prêmio Palestina de Artes Visuais em 1998 e participou da Bienal do Cairo no mesmo ano, o Prêmio UNESCO-Sharjah de Cultura Árabe em 2019 e o Necip Fazıl, em Istambul, em 2025. Suas obras integram acervos como o Museu Britânico, o Guggenheim Abu Dhabi e o Institut du Monde Arabe, em Paris. Em 1994, ajudou a fundar o Al-Wasiti Art Center, em Jerusalém, dedicado a arquivar e promover a arte palestina.

Kusama e Mansour partiram de lugares diferentes, uma da experiência interior e alucinatória, outro da experiência coletiva de um povo sob ocupação, mas ambos fizeram da repetição de símbolos (as bolinhas, de um lado; o camelo, o olivo, o bordado, de outro) uma forma de dar corpo visual ao que, de outro modo, seria difícil de nomear. A dica desta semana é visitar ou revisitar as telas dos dois artistas, e a internet oferece opções gratuitas e acessíveis.

Yayoi Kusama:

Guggenheim Bilbao: tour virtual 360º da exposição “Yayoi Kusama: 1945 to Now” – https://www.guggenheim-bilbao.eus/en/guggenheim-365/virtual-tour/virtual-tour-yayoi-kusama

Google Arts & Culture: obras e exposições digitais da artista –https://artsandculture.google.com/entity/yayoi-kusama/m028n9m

Tate Modern, de Londres – https://www.tate.org.uk/art/artists/yayoi-kusama-8094

National Gallery of Victoria, da Austrália: tour virtual da retrospectiva – https://www.ngv.vic.gov.au/exhibition/yayoi-kusama/

Sliman Mansour:

Google Arts & Culture – https://artsandculture.google.com/entity/sliman-mansour/m026_sf5

WikiArt: 19 pinturas em alta resolução – https://www.wikiart.org/es/sliman-mansour

Acervo do Museu da Universidade de Birzeit, na Palestina – http://museum.birzeit.edu/artists/sliman-mansour

Por Antônia Rangel

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