Trabalhadores tomam as ruas pelo fim da escala 6×1 e 40 horas

Mobilização nacional levou centrais, sindicatos e movimentos às ruas neste domingo (30) para pressionar o Senado pela redução da jornada sem corte salarial

A classe trabalhadora ocupou as ruas de diversas cidades brasileiras neste domingo (30) para defender o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução salarial. A mobilização ocorreu às vésperas de uma semana decisiva no Senado, onde a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 deve avançar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Em São Paulo, milhares de trabalhadores, sindicalistas e integrantes de movimentos sociais se concentraram no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista. O ato reuniu CTB, CUT, Força Sindical, UGT, NCST, demais centrais sindicais, sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis.

A dimensão política da manifestação foi reforçada pela proximidade da votação da PEC. A proposta aprovada pela Câmara estabelece jornada de até 40 horas semanais, distribuída em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial.

Centrais defendem unidade e pressão até a votação

A CTB-SP participou do ato com suas entidades filiadas e reforçou a pressão sobre os parlamentares.

O presidente da CTB, Adilson Araújo, relacionou a redução da jornada à construção de um modelo de desenvolvimento baseado na valorização do trabalho.

“Nós temos que pôr fim à famigerada escala seis por um porque não é mais possível conviver com essa realidade.”

Para o presidente da central no estado, Rene Vicente, a mobilização das ruas precisa se converter em pressão direta sobre os senadores.

“É necessário pressionarmos os senadores que representam o estado de São Paulo para que eles votem a favor da classe trabalhadora”, afirmou.

O secretário-geral da CTB-SP, José Carlos, também defendeu a continuidade da mobilização durante a tramitação da PEC.

“Vamos pressionar nossos senadores para a aprovação e para que a pauta avance no Senado.”

A mesma avaliação foi apresentada pelo presidente do Sintaema-SP, José Faggian. Para ele, a redução da jornada está diretamente relacionada à melhoria das condições de vida e precisa ser aprovada rapidamente.

“É fundamental que a gente se mobilize e pressione os senadores para que essa pauta, fundamental para a melhoria da qualidade de vida da classe trabalhadora brasileira, seja aprovada o mais rápido possível.”

Representando a CTB Educação e a APEOESP, a professora Francisca ampliou a dimensão social da reivindicação. Para ela, o fim da 6×1 significa recuperar tempo que hoje é absorvido pelo trabalho.

“Estamos nas ruas pela pressão necessária sobre os senadores para aprovarem imediatamente o fim da escala 6×1, para que trabalhadores e trabalhadoras possam viver além do trabalho, acompanhar a vida escolar dos filhos e ter tempo para o lazer e para o ócio.”

A secretária-geral da UNE, Camila Moraes, também destacou o caráter estratégico da manifestação durante o período eleitoral. Para ela, o fim da 6×1 tornou-se uma das agendas centrais da disputa política de 2026, envolvendo particularmente jovens que precisam conciliar trabalho e estudos.

“A gente tem que trabalhar para viver”

Para o presidente da CUT-SP, Raimundo Suzart, a mobilização teve participação expressiva, especialmente entre trabalhadores do comércio e dos serviços. Segundo ele, a presença das entidades sindicais e movimentos sociais demonstrou a força da reivindicação mesmo com o ato realizado em um domingo.

O presidente da CUT, Sérgio Nobre, classificou a mobilização como histórica e lembrou que a defesa das 40 horas semanais acompanha a trajetória da entidade desde sua fundação, há 43 anos.

Segundo Nobre, a disputa no Senado exigirá mobilização intensa durante toda a semana.

“A partir de amanhã vamos de gabinete em gabinete pressionando os senadores, vamos fazer ato na rua, no Brasil inteiro. Vamos para o metrô entregar o material pro povo pressionar os senadores.”

O dirigente também advertiu que o movimento sindical enfrentará forte pressão empresarial sobre os parlamentares. Por isso, defendeu o envolvimento direto dos trabalhadores na disputa.

Nobre resumiu o sentido da reivindicação ao relatar a rotina de uma jovem trabalhadora de restaurante que, após trabalhar de segunda a sábado em jornadas extensas, utilizava o único dia de folga apenas para dormir.

“A gente sempre disse que o trabalho é importante na vida de qualquer pessoa, mas a gente tem que trabalhar pra viver e não viver pra trabalhar.”

Para o dirigente, a discussão sobre jornada é, portanto, uma discussão sobre tempo de vida.

Presidente da Força Sindical, Miguel Torres afirmou que a manifestação expressa uma longa trajetória de organização dos trabalhadores.

“A luta faz a lei. Esse é um dia histórico em todo o território nacional.”

Torres lembrou que direitos trabalhistas não foram concedidos espontaneamente, mas conquistados por meio de mobilização, organização sindical e enfrentamento político.

O dirigente defendeu que a pressão continue até a votação definitiva no Senado.

“Isso está nas nossas mãos, está na nossa mobilização. A nossa mobilização tem que continuar até o final da votação no Senado Federal.”

Na mesma linha, o secretário-geral da UGT, Francisco Canindé Pegado, chamou atenção para o impacto particularmente severo da 6×1 sobre as mulheres, que acumulam trabalho remunerado e trabalho doméstico.

“Hoje a escala é seis por um para a mulher chama-se escala sete por zero.”

O vice-presidente da NCST, Nailton Francisco de Souza, destacou que o resultado da votação dependerá da capacidade de mobilização nos próximos dias. Segundo ele, centrais e sindicatos farão panfletagens e ações de pressão junto à população e aos parlamentares.

A pauta também mobiliza juventude e mulheres

Em São Paulo, a discussão ganhou forte dimensão social. Comércio e serviços concentram trabalhadores submetidos a uma rotina de seis dias de trabalho por apenas um de descanso.

A redução da jornada, segundo o dirigente, pode também contribuir para a abertura de postos de trabalho e beneficiar particularmente a juventude.

A UNE incorporou essa perspectiva à mobilização. Camila Moraes afirmou que muitos jovens precisam trabalhar para sobreviver e, diante da sobrecarga, acabam abandonando os estudos.

A luta pelo fim da 6×1, portanto, ultrapassa a discussão sobre escala. Envolve educação, convivência familiar, cultura, lazer, saúde, descanso e participação social.

Mobilização se espalha pelas capitais

A jornada nacional teve manifestações em diferentes regiões do país.

CUT -BA
Salvador (BA) teve concentração no Morro do Cristo, seguida de caminhada até o Farol da Barra. O ato contou com a participação da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e de artistas como Magary Lord, Jackson Costa, Olodum, Manno Góes e Márcia Short.

Goiânia (GO) teve caminhada entre a sede da ADUFG-Sindicato e a Praça Boaventura.

Curitiba (PR) realizou panfletagem e mobilização no Largo da Ordem, com concentração na Praça João Cândido.

Rio de Janeiro (RJ) teve manifestação no Posto 5, em Copacabana.

Fortaleza (CE) concentrou trabalhadores na região da Estátua de Iracema, na Praia de Iracema.

Natal (RN) teve concentração na região da Ferreira Costa e caminhada até o Ponto 7, na Cigarreira do Gil.

Aracaju (SE) incorporou a pauta do fim da 6×1 à programação da Parada LGBT.

São Luís (MA) realizou ato no Largo do Carmo, no Centro, enquanto Belém (PA) teve concentração na Praça da República.

Em Porto Alegre (RS), a manifestação prevista para o Parque da Redenção foi cancelada devido à previsão de fortes chuvas.

A mobilização também foi acompanhada por atividades previstas para os próximos dias em Brasília, onde trabalhadores deverão pressionar diretamente os senadores em frente ao Congresso.

Senado entra no centro da disputa

A mobilização ocorre quando a PEC entra em sua fase decisiva. O texto aprovado pela Câmara está em análise no Senado e deve ser apreciado pela CCJ na quarta-feira (2).

Depois da comissão, a proposta ainda precisará passar pelo plenário. Para aprovação de uma PEC, são necessários 49 votos favoráveis entre os 81 senadores, em dois turnos.

É justamente essa correlação de forças que explica a intensidade da mobilização sindical. A estratégia das centrais combina atos de rua, panfletagens, mobilização nas redes sociais e pressão direta sobre os gabinetes dos senadores.

A semana, portanto, desloca a disputa das ruas para o Congresso — sem separar os dois espaços. A pressão popular será utilizada como instrumento para influenciar a decisão parlamentar.

Uma disputa que vai além da escala 6×1

A partir desta segunda-feira (31), a pressão será intensificada. Sindicalistas prometem percorrer gabinetes, realizar panfletagens e novos atos, enquanto o Senado se prepara para decidir se a proposta avançará.

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Por Cezar Xavier

Fonte
Vermelho

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