Com 7 mil mulheres, Lula diz que fim da escala 6×1 também é pauta delas
Em Belo Horizonte, presidente defende mais mulheres na política, fim da escala 6×1, educação e políticas públicas contra a violência e pela autonomia feminina
Diante de 7 mil mulheres reunidas em Belo Horizonte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado (29) que as brasileiras terão papel decisivo na definição dos rumos do país nas eleições. No Ato Nacional Mulheres com Lula, na Serraria Souza Pinto, o presidente pediu que o eleitorado feminino amplie sua presença na política institucional e vote em mulheres, ao mesmo tempo em que apresentou políticas de seu governo voltadas à proteção, autonomia e igualdade de direitos.
O encontro reuniu lideranças femininas da política e dos movimentos sociais, candidatas ao Senado, ministras e integrantes do governo. A primeira-dama, Janja Lula da Silva, esteve à frente da organização do evento.
“Vocês podem decidir o destino deste país”, afirmou Lula, ao defender como “sagrada” a ampliação da presença feminina nos espaços de poder.
A declaração sintetizou a estratégia política do encontro: transformar a maioria feminina do eleitorado em força de representação institucional e, ao mesmo tempo, associar a candidatura à continuidade de políticas públicas voltadas às mulheres.
Maioria da população, minoria no poder
Lula destacou a contradição entre a participação demográfica das mulheres e sua representação política.
“Nunca na história desse país se fez tanto do ponto de vista da participação das mulheres”, afirmou, mas ponderou que é necessário fazer com que as brasileiras conheçam efetivamente seus direitos.
Para o presidente, é inaceitável que as mulheres sejam maioria da população e permaneçam minoria no Congresso Nacional e nos Legislativos estaduais e municipais.
A defesa de que mulheres votem em mulheres desloca, assim, parte da discussão eleitoral para a representatividade. Mais do que ampliar políticas públicas, Lula busca estimular uma mudança no comportamento do eleitorado feminino e aumentar a presença das mulheres na formulação das próprias políticas que lhes dizem respeito.
Fim da escala 6×1 também é pauta das mulheres
Outro eixo do discurso foi a redução da jornada de trabalho. Lula demonstrou confiança na aprovação, pelo Senado, da proposta que acaba com a escala 6×1 e estabelece 40 horas semanais, sem redução salarial.
O presidente relacionou a medida não apenas às relações trabalhistas, mas também à divisão social do tempo e do trabalho doméstico.
“Para que as mulheres e os homens tenham mais tempo de cuidar da sua vida própria, mais tempo para cuidar das crianças, mais tempo para passear e conviver”, afirmou.
A conexão é particularmente relevante para as mulheres porque a redução da jornada remunerada não elimina automaticamente a desigualdade na distribuição das tarefas domésticas e de cuidados. Ao defender mais tempo fora do trabalho, o governo associa a mudança da jornada à possibilidade de reorganizar a vida familiar e pessoal.
A votação da proposta no Senado, prevista para os próximos dias, também transforma a pauta em um dos principais temas da mobilização sindical e política no início de setembro.
Educação como instrumento de autonomia
Lula também apresentou a educação como elemento central para a autonomia feminina.
“Não percam a oportunidade de estudar”, pediu às mulheres presentes. Ao abordar relações familiares, afirmou que a formação e a independência econômica são fundamentais para que nenhuma mulher permaneça em uma relação por falta de alternativas.
Para um eventual próximo mandato, o presidente prometeu uma “revolução” na educação, com a universalização da escola em tempo integral.
A proposta, segundo Lula, não deve se limitar ao ensino de conteúdos tradicionais. Ele defendeu também a formação para valores de igualdade de gênero, com crianças e adolescentes aprendendo que homens e mulheres são iguais.
Combate ao feminicídio entra no centro da agenda
A violência contra as mulheres ocupou espaço central no encontro.
Lula citou o Pacto Nacional contra o Feminicídio, lançado neste ano, como uma tentativa de articular os Três Poderes no enfrentamento à violência de gênero.
A iniciativa, segundo o presidente, pretende colocar o combate ao feminicídio no centro da agenda nacional e reduzir os casos ao mínimo possível.
Lula também destacou que, em oito meses, foram aprovadas 11 leis e três portarias voltadas à ampliação da proteção e do acolhimento às mulheres.
O argumento político do governo é que o enfrentamento à violência exige mais do que punição depois do crime: depende de prevenção, proteção às vítimas, atendimento público e articulação entre diferentes instituições.
Casas, centros e atendimento à saúde
Ao fazer um balanço das políticas implementadas durante seu terceiro mandato, Lula citou uma série de iniciativas direcionadas à população feminina.
Entre elas estão as Casas da Mulher Brasileira, os Centros de Referência da Mulher Brasileira, as Carretas da Saúde da Mulher e a Lei da Igualdade Salarial.
Também mencionou o Pacto Nacional contra o Feminicídio, destacando a redução do tempo médio de atendimento às solicitações de medidas protetivas.
A estratégia apresentada no ato procura mostrar que a política para mulheres não se limita a uma área específica. Segurança, saúde, trabalho, educação, renda e cuidados aparecem articulados como dimensões de uma mesma agenda de direitos.
“Eu posso olhar no olho de cada mulher e de cada menina: nunca antes na história deste país um governo cuidou tanto da participação das mulheres como nós temos cuidado. E é por isso que nós vamos fazer mais”, afirmou Lula.
Trabalho de cuidado também é trabalho
Outro ponto de destaque foi a chamada Política Nacional de Cuidados.
Lula questionou a invisibilidade econômica do trabalho realizado majoritariamente dentro das famílias: cuidar de crianças, idosos e pessoas com deficiência.
“Essa pessoa não está na contabilidade do PIB brasileiro, mas essa pessoa está trabalhando!”, afirmou.
A pergunta colocada pelo presidente — “Quando é que o Estado vai reconhecer que tem que pagar por isso?” — expressa uma das questões mais relevantes da agenda contemporânea de igualdade: quem assume o custo social e econômico do cuidado quando ele permanece restrito ao ambiente doméstico.
Ao defender maior participação do Estado, Lula associa a política de cuidados à igualdade de oportunidades. Na sua avaliação, cabe ao poder público criar condições para que mulheres não sejam penalizadas profissional e economicamente por responsabilidades familiares.
A presença de Janja e a memória de Dona Lindu
A primeira-dama Janja Lula da Silva, responsável pela organização do encontro, também teve papel de destaque na atividade. No início do ato, um vídeo abordou sua trajetória e a importância de carregar o sobrenome Silva.
Lula, por sua vez, voltou a falar da própria relação com a mãe, Dona Lindu, que classificou como “heroína” e principal referência de sua vida.
O presidente também fez referência à morte de sua primeira mulher, Marisa Letícia, com quem foi casado por 45 anos, e afirmou que Janja voltou a dar plenitude à sua vida.
A lembrança da mãe funcionou, no discurso, como uma ponte entre sua história pessoal e a mensagem dirigida às milhares de mulheres presentes.
Direitos, representação e disputa eleitoral
O ato em Belo Horizonte combinou prestação de contas, defesa de políticas públicas e mobilização eleitoral.
Ao reunir milhares de mulheres e candidatas de diferentes regiões, Lula procurou transformar uma pauta historicamente associada à defesa de direitos em um dos componentes centrais de sua estratégia para 2026.
A mensagem foi dirigida simultaneamente às eleitoras e às futuras representantes políticas: mais participação feminina, mais políticas públicas e maior presença das mulheres nos espaços de decisão.
Ao final, a frase que deu o tom do encontro voltou a aparecer como síntese política: “Vocês podem decidir o destino deste país.”
Para Lula, transformar esse potencial eleitoral em representação política é parte fundamental da disputa que começa a ganhar intensidade com a aproximação das eleições.
Por Cezar Xavier





