Holocausto Brasileiro e o Trem de Doido
A dica cultural desta semana convida as trabalhadoras e os trabalhadores da educação a uma viagem sensível pela memória do Brasil. Vamos falar sobre o livro e o documentário Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, uma obra que denuncia um dos maiores genocídios da história do país e que, no mês de maio de 2026, ganhou nova dimensão: o Hospital Colônia de Barbacena foi finalmente fechado em definitivo após a transferência dos últimos pacientes remanescentes para uma unidade de saúde comunitária.
A obra revela a história do Hospital Colônia de Barbacena, mas sua essência ecoa em melodias conhecidas. A expressão mineira trem de doido, imortalizada por Lô Borges e Márcio Borges no álbum Clube da Esquina (1972), carrega um peso poético e histórico.
A canção é uma imagem na qual estudiosos e críticos reconhecem uma denúncia antimanicomial. Os versos evocam os comboios que partiam pelo interior do país levando pessoas que a sociedade desejava esconder, e a imagem dos “ratos mortos na praça do mercado” traduz, segundo essa leitura, o descarte dessas vidas ao longo do caminho. É importante registrar que se trata de uma interpretação da canção, não de uma declaração explícita dos compositores; é uma leitura de estudiosos da história, da música e da luta antimanicomial.
Esses trens tinham apenas passagem de ida, selando o destino de aproximadamente 60 mil pessoas entre os anos 1930 e 1980.
O Hospital Colônia foi criado em 1903 para 200 vagas, mas chegou a abrigar mais de cinco mil pessoas simultaneamente. Segundo levantamento de Daniela Arbex, 80% dos internados eram negros. Também estavam entre eles pessoas pobres, moças que haviam perdido a virgindade, crianças, opositores políticos, homossexuais, pessoas sem documentos e dependentes químicos, uma parcela estimada em 70% sem qualquer diagnóstico psiquiátrico comprovado.
Os corpos dos que morriam eram descartados ou vendidos a faculdades de medicina, alimentando uma lucrativa e desumanizante indústria da loucura. O hospital arrecadou pelo menos R$ 600.000,00 com essa prática ao longo das décadas. Parte das estruturas do Colônia foi transformada no Museu da Loucura, inaugurado em 2000, espaço de memória e resistência que preserva esse capítulo da história.
A história do Colônia também é uma história de luta. O movimento antimanicomial brasileiro, nascido nos anos 1980, pressionou o Estado por décadas até que, em 6 de abril de 2001, foi sancionada a Lei nº 10.216, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Antimanicomial. A norma redirecionou o modelo de atenção à saúde mental no Brasil, substituindo a internação compulsória por serviços comunitários, abertos e humanizados. Conectar o Holocausto Brasileiro a essa lei é conectar o passado ao presente: o que aconteceu em Barbacena é uma cicatriz histórica e um argumento permanente contra qualquer retrocesso.
O livro-reportagem foi lançado em 2013 e o documentário homônimo em 2016. Juntos, eles restituem dignidade à memória das cerca de 60 mil pessoas que morreram no Colônia e daquelas que sobreviveram. Conhecer esse passado preserva a memória das vítimas e nos convida a uma reflexão sobre os limites do poder institucional e a responsabilidade coletiva de que episódios como esse não se repitam.
O livro está disponível nas principais livrarias. O documentário pode ser assistido na plataforma Netflix ou encontrado no YouTube.
Por Antônia Rangel


