Na construção da verdadeira independência

“Não se vislumbra nenhum modo de se reverenciar com justiça e com todo respeito que merece e reclama o bicentenário da independência do Brasil do que dizer redondo e atemporal não a Bolsonaro e ao que ele é e encarna”

Por José Geraldo de Santana Oliveira*

Lutar. Podes escachálos ou não; o essencial é que lutes. Vida
é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.

Essa visionária e judiciosa assertiva acha-se grafada no Capítulo CXLI do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, publicado em 1881. A frase é atribuída pelo autor a Quincas Borbas, em diálogo com Brás Cubas, figuras centrais da obra e que, para muitos, são autobiográficas.

O povo trabalhador bem sabe da incontestável veracidade dessa assertiva desde tempos imemoriais, pois que a própria formação do Brasil e sua construção, ainda inacabada, nada mais são do que intensas, aguerridas e com frequência cruentas lutas, quase sempre escachadas por aqueles que as negam e se beneficiam dos insucessos populares, não raras vezes longevos, mas que deitam raízes profundas, que se ramificam e dão seus frutos em momentos posteriores, mesmo sendo invisíveis e não palpáveis por longo período.

São provas incontestes dessas multisseculares intensas e bravas lutas, sem êxitos sensíveis ao seu tempo, tendo, no entanto, se constituído em pedras basilares para a primeira etapa da independência, há exatos 200 anos, e para as etapas seguintes, ainda inconclusas: a Confederação dos Tamoios (1554-1567); o Quilombo dos Palmares-AL (séculos XVI e XVII);  a Batalha dos Guararapes-PE (1648-1649); a Inconfidência Mineira (1789); a Revolução dos Alfaiates-BA (1798); a Conspiração dos Suassunas-PE (1801); a Revolução Pernambucana (1817).

Com essa compreensão, os que amam e valorizam, em sua incomensurável medida, as incansáveis lutas populares, na sua incessante busca por dignidade, cidadania e justiça social, incluem a independência de Portugal, simbolicamente realizada ao 7 de setembro de 1822, com o grito do Ipiranga, como relevante e inapagável etapa de construção do porvir, não obstante ela não deitar por terra as estruturas sociais responsáveis pelas abissais exclusão e desigualdade, tendo, ao contrário, as mantido intactas.

Foi ela que rompeu os grilhões do cruel colonialismo, que se perdurou e recrudesceu-se por nada menos que 300 anos, e fez nascer jurídica e politicamente a nação que se gestava desde as primeiras revoltas acima retratadas. É bem verdade que, por múltiplas décadas a fio, para poucos, o que, não se mostra bastante para ofuscar sua importância histórica, pois que, como indelevelmente anotado por Karl Marx no livro “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”:

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.

As condições objetivas e subjetivas de 1822 não permitiam mais do que se fez, em que pese não fosse esse o desfecho almejado e buscado com afinco e determinação pelo sofrido povo brasileiro de então.

Não obstante isso, longe de se cingir a mero arranjo entre as classes dominantes, como apregoam os que erroneamente desvalorizam as etapas históricas, o 7 de setembro foi portentoso brado que rasgou para sempre o véu da invisibilidade, do desprezo, da derrama e de outros atos cruentos que eram marcas do colonialismo.

Longe de se encerrar com o simbólico grito do Ipiranga, o 7 de setembro desencadeou memoráveis batalhas campais entre o velho, em seus últimos estertores, e o novo que cindia o horizonte, em busca de sua afirmação. São provas indefectíveis dessas lutas: a Batalha do Pirajá-BA (1822); a Batalha do Jenipapo-PI (1823); a Batalha de Itaparica-BA (1823); a Batalha do 4 de maio-BA (1823); e  o Dois de Julho baiano, que coroou a independência, magnífica e eternamente registrada nas hostes do tempo por Castro Alves, em seu magistral poema “Ode ao Dous de Julho”.

De igual modo, e com igual peso e relevância: a Confederação do Equador-PE (1824); a Revolução Farroupilha-RS (1835-1845); a Balaiada-MA, 1838-1841); a Cabanagem-PA (1835-1840); e a Revolução Praieira-PE (1848). Bem assim, todas as que se seguiram, intermináveis e revigoradas, pelos dois séculos seguintes, como a que neste exato momento desafia os cultores e construtores da nação livre, soberana e democrática, materializada pelo confronto entre o fascismo e as trevas representados por Bolsonaro, capazes de fazer corar os tristes tempos que antecederam o 7 de setembro de 1822, e a possibilidade de reconstrução do Brasil, tendo como marca maior a ordem democrática, impiedosamente massacrada pelo bolsonarismo, representada por Lula e a ampla frente democrática que lhe dá sustentação e apoio.

Tal como não é possível compreender a primeira etapa da independência do Brasil, simbolizada pelo 7 de setembro de 1822, sem as heroicas lutas que a antecederam e a sucederam, também não o é sem que se o ponha no patamar histórico que lhe cabe e lhe é devido.

Gregório de Matos, poeta barroco do século XVIII, chamado de Boca do Inferno por sua acerba crítica, em seu poema “Ao braço do mesmo menino Jesus quando apareceu”, escreveu os seguintes versos:

O todo sem a parte não é todo

A parte sem o todo não é parte

Mas se a parte o faz todo, sendo parte

Não se diga, que é parte, sendo o todo.

Parafraseando-os, pode-se e deve-se dizer que, sem deixar de ser parte do multissecular movimento de independência, anterior e posterior, o 7 de setembro de 1822, naquele momento, fez-se o todo.

Por tudo isso, não se vislumbra nenhum modo de se reverenciar com justiça e com todo respeito que merece e reclama o bicentenário da independência do Brasil do que dizer redondo e atemporal não a

Bolsonaro e ao que ele é e encarna, enviando-os para as profundezas eternas do lixo da história, único lugar que lhes cabe.

O corolário do não a Bolsonaro é o sim ao Brasil e a seu povo, por meio do voto em Lula e Alckmin, como mais uma inadiável e imprescindível etapa de construção da verdadeira independência. Para o momento, a mais sincera reverência aos/às que por ela tombaram.

Quem ainda estiver em sincera dúvida, que a dissipe refletindo sobre os imortais e profundos versos do citado poema de Castro Alves.

Ei-los:

Ode ao Dous de Julho

(Castro Alves, São Paulo, junho de 1868)

Era no Dous de Julho

A pugna imensa

Travava-se nos cerros da Bahia

O anjo da morte pálido cosia

Uma vasta mortalha em Pirajá.

Neste lençol tão largo, tão extenso,

Como um pedaço roto do infinito

O mundo perguntava erguendo um grito:

Qual dos gigantes morto rolará?!

 

Debruçados do céua noite e os astros

Seguiam da peleja o incerto fado

Era tocha o fuzil avermelhado!

Era o Circo de Roma o vasto chão!

Por palmas o troar da artilharia!

Por feras os canhões negros rugiam!

Por atletas dous povos se batiam!

Enorme anfiteatro era a amplidão!

 

Não! Não eram dous povos os que abalavam

Naquele instante o solo ensangüentado

Era o porvir em frente do passado,

A liberdade em frente à escravidão.

Era a luta das águias e do abutre,

A revolta do pulso contra os ferros,

O pugilato da razão com os erros,

O duelo da treva e do clarão!

 

No entanto a luta recrescia indômita

As bandeiras como águias eriçadas

Se abismavam com as asas desdobradas

Na selva escura da fumaça atroz

Tonto de espanto, cego de metralha

O arcanjo do triunfo vacilava

E a glória desgrenhada acalentava

O cadáver sangrento dos heróis!

 

Mas quando a branca estrela matutina

Surgiu do espaço e as brisas forasteiras

No verde leque das gentis palmeiras

Foram cantar os hinos do arrebol,

do campo deserto da batalha

Uma voz se elevou clara e divina.

Eras tu liberdade peregrina!

Esposa do porvir noiva do Sol!

 

Eras tu que, com os dedos ensopados

No sangue dos avós mortos na guerra,

Livre sagravas a Colúmbia Terra,

Sagravas livre a nova geração!

Tu que erguias, subida na pirâmide

Formada pelos mortos do Cabrito,

Um pedaço de gládio no infinito

Um trapo de bandeira namplidão!…”

 *José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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