Cinema brasileiro: memória, resistência e identidade nacional

A dica cultural desta semana é dedicada ao Dia do Cinema Brasileiro, celebrado em 19 de junho. A data foi escolhida em homenagem ao registro das primeiras imagens em movimento feitas em território nacional, em 1898, quando Affonso Segreto filmou a Baía de Guanabara ao desembarcar de um navio vindo da França. Vale lembrar que parte da historiografia também atribui à data de 5 de novembro a primeira exibição pública de filmes no Rio de Janeiro, em 1896.
Desde esses primeiros registros do final do século XIX, o cinema brasileiro percorreu um caminho marcado por ciclos de efervescência e crise. Nas décadas de 1920 e 1930, surgiram os primeiros estúdios organizados, como a Cinédia, fundada por Adhemar Gonzaga em 1930, e mais tarde a Atlântida Cinematográfica, conhecida pelas chanchadas, comédias populares de baixo orçamento que dominaram as telas nas décadas seguintes. Em 1949, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Paulo, tentou profissionalizar a produção nacional em moldes industriais, lançando “O Cangaceiro” (1953), primeiro filme brasileiro premiado em Cannes.
Os anos 1960 trouxeram o Cinema Novo, movimento liderado por nomes como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Eduardo Coutinho, que rompeu com o modelo industrial em favor de produções de baixo orçamento e forte engajamento social e político, sintetizado na célebre frase de Glauber: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Filmes como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “Vidas Secas” (1963) expressam esse momento.
Com o golpe militar de 1964 e os anos de censura que se seguiram, parte dessa produção engajada foi atingida. Casos emblemáticos incluem produções interrompidas, equipes presas e materiais apreendidos, como ocorreu com “Cabra Marcado para Morrer”. Ainda assim, o cinema continuou sendo um espaço de resistência ao longo da ditadura, e a criação da Embrafilme, em 1969, ajudou a sustentar parte da produção nacional nas décadas seguintes, apesar das contradições de operar sob um regime autoritário.
Nos anos 1990, com a extinção da Embrafilme (1990) e a crise que se seguiu, o setor passou por uma redução drástica na produção. A retomada veio com a Lei do Audiovisual (1993) e marcos como “Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil” (1994), de Carla Camurati, seguido por filmes que ganhariam reconhecimento internacional, como “Central do Brasil” (1998) e “Cidade de Deus” (2002).
Esse período de retomada e os anos seguintes também consolidaram nomes autorais que ajudaram a renovar a linguagem do cinema brasileiro contemporâneo. Heitor Dhalia, com “O Cheiro do Ralo” (2006), adaptação do romance de Lourenço Mutarelli, estrelada por Selton Mello, trouxe uma crítica sobre obsessão e materialismo, premiada em festivais como o do Rio e a Mostra de São Paulo. Já Anna Muylaert se firmou como uma voz importante do cinema de autor brasileiro contemporâneo, com obras que tratam de desigualdade social e dinâmicas familiares. Seu marco é “Que Horas Ela Volta?” (2015), estrelado por Regina Casé e Camila Márdila, que expõe as tensões de classe entre uma trabalhadora doméstica nordestina e seus patrões paulistanos. O filme estreou no Festival de Sundance, venceu prêmios em Berlim, foi eleito melhor filme brasileiro do ano pela Abraccine e repercutiu internacionalmente, reafirmando a força do olhar autoral brasileiro sobre as desigualdades do país.
Mais recentemente, produções como “Aquarius” e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, e “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, reafirmaram a força do documentário e do cinema de autor brasileiro em festivais internacionais, trajetória que ecoa o mesmo impulso de usar a câmera como instrumento de reflexão social que já animava Coutinho nas décadas de 1960 e 1980.
Esse fôlego internacional culminou em dois marcos recentes. Em 2025, “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles, drama sobre Rubens Paiva e a perseguição de sua família durante a ditadura militar, estrelado por Fernanda Torres, tornou-se o primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional, depois de concorrer também nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz. Já em 2026, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, thriller político ambientado no Recife de 1977, estrelado por Wagner Moura, que já havia vencido o prêmio de Melhor Ator em Cannes, recebeu quatro indicações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Elenco), reafirmando a presença consistente do cinema brasileiro nas principais premiações do mundo.
Nesse percurso de um cinema que é também espaço de disputa de narrativas e de preservação da memória histórica, a indicação cultural desta semana é “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho, considerado por muitos críticos a obra-prima do diretor. A história de sua produção é um retrato das feridas abertas pela ditadura militar. O projeto nasceu em 1964, idealizado pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) em parceria com o Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, para narrar a vida e o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, morto em 1962 a mando de latifundiários. Teixeira era uma das principais lideranças da Liga Camponesa de Sapé, na Paraíba, que lutava pela reforma agrária e por melhores condições para as trabalhadoras e os trabalhadores rurais.
As filmagens começaram em fevereiro de 1964 no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, região onde viviam outras lideranças das Ligas Camponesas, que participaram do filme interpretando seus próprios papéis, ao lado da viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, também atuando como ela mesma. Pouco mais de um mês depois, em abril de 1964, o golpe militar interrompeu o projeto: o exército invadiu o local, prendeu parte da equipe e de lideranças locais sob acusação de subversão, e apreendeu os equipamentos e o material já filmado. As trabalhadoras e os trabalhadores envolvidos passaram a viver sob perseguição, e a própria Elizabeth Teixeira precisou se separar dos filhos e viver quase duas décadas na clandestinidade, sob identidade falsa.
Dezessete anos depois, em 1981, Eduardo Coutinho retomou o projeto com uma abordagem diferente. O que era para ser uma ficção dramatizada sobre a trajetória política de João Pedro Teixeira se transformou em um documentário sobre o reencontro com as sobreviventes e os sobreviventes daquele primeiro filme interrompido e sobre os efeitos da repressão em suas vidas. Lançado em 1984, o filme combina as imagens originais de 1964 com os depoimentos colhidos quase 20 anos depois, revelando como o regime autoritário desarticulou as lutas sociais e fragmentou famílias inteiras, expondo o custo humano da repressão política.
O filme funciona como um recurso pedagógico para discutir a memória política do país, a importância da organização coletiva e o papel do cinema documental na preservação da verdade histórica contra o esquecimento. Ao acompanhar a trajetória de Elizabeth Teixeira, a obra humaniza a luta pela terra e a resistência diante do autoritarismo, conectando o passado de repressão aos debates contemporâneos sobre justiça social no Brasil. Valorizar o cinema brasileiro, em sua diversidade de épocas, estilos e disputas, é também um exercício de manter viva a capacidade de o país contar sua própria história.
Onde assistir: O documentário está disponível em plataformas como Globoplay, MUBI, CurtaOn e You Tube.
Por Antônia Rangel





