Dia dos Professores: Homenagear é escolher o futuro
Todo 15 de outubro, o Brasil repete o ritual de flores, cartões e discursos. A homenagem é justa, mas insuficiente num país em que professoras e professores estão entre os profissionais mais decisivos e, ao mesmo tempo, menos valorizados. Com o primeiro turno das eleições encerrado e o segundo marcado para o dia 25, a data pede reflexão.
Ensinar envolve muito mais do que estar em sala de aula, pois exige planejamento, estudo permanente, escuta e responsabilidade com a aprendizagem de cada estudante. E o mesmo vale para quem mantém a escola de pé: técnicas e técnicos administrativos cuidam da secretaria, das matrículas, dos registros e do acolhimento das famílias, trabalho sem o qual nenhuma aula acontece. Essa complexidade, docente e administrativa, costuma ficar invisível diante da sobrecarga de tarefas, da violência escolar e do adoecimento associado ao trabalho. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial traz novas perguntas sobre como incorporar a tecnologia de modo crítico, sem reduzir o ensino à transmissão automatizada de conteúdo nem substituir a relação humana que sustenta o ato educativo.
O preço dessa rotina também se mede na saúde, e ele alcança as duas redes. Pesquisadores da Fundacentro e da USP apontam que, na escola pública ou na privada, os professores sofrem de um mesmo conjunto de males, com predomínio de burnout, estresse e depressão, e que os transtornos mentais já ocupam o primeiro lugar entre as causas de afastamento. Estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), com dados do INSS, mostra que ansiedade, depressão e reações ao estresse estão entre as principais razões de licença na categoria. Cuidar de quem ensina significa garantir tempo de descanso e de preparo das aulas, turmas em número razoável, escolas seguras e acesso a apoio psicológico, medidas que dependem de políticas públicas e de condições de trabalho, não de resiliência pessoal.
As condições de trabalho, porém, não são as mesmas em todas as redes. Quem é concursado na rede pública conta com estabilidade, plano de carreira e piso salarial definido em lei. O piso nasceu em 2008, com a Lei 11.738, e em janeiro de 2026, uma medida provisória elevou o piso a R$ 5.130,63, um reajuste de 5,4%; em junho, a Lei 15.437 converteu a regra em lei, criando atualização anual permanente e incluindo os professores temporários. Pela regra anterior, o aumento deste ano seria de apenas 0,37%.
Na rede privada, centenas de milhares de profissionais atuam sem estabilidade nem plano de carreira garantido em lei. Contratos instáveis, salários achatados, turmas ampliadas e uso da tecnologia como pretexto para cortar vagas fazem parte do cotidiano, e a proteção depende de negociações coletivas que variam entre regiões. Por isso, é justo defender um piso nacional também para a rede privada, debatido com sindicatos e instituições de ensino.
Há um ponto comum a toda a categoria: nenhuma educação de qualidade existe sem liberdade. Ensinar ciência, história, diversidade e direitos humanos não pode ser tratado como ato de risco, nem o debate pedagógico convertido em vigilância sobre o que se ensina e desconfiança sobre quem ensina.
É aí que a eleição de 25 de outubro toca o Dia dos Professores, pois as urnas influenciarão o orçamento da educação, as políticas de formação e a legislação trabalhista. A Contee declarou apoio à reeleição do presidente Lula, por entender que o atual governo trata a escola como espaço de pensamento crítico e pluralidade. Cabe ao eleitor comparar os projetos em disputa, sobretudo no que diz respeito à liberdade de ensinar, ao controle ideológico sobre a escola e à valorização de todos os profissionais da educação, e decidir qual deles melhor assegura dignidade, liberdade e segurança.
Por Antônia Rangel





