Dia Internacional da Mulher
Confira abaixo o texto do assessor jurídico da Contee, José Geraldo Santana, apresentado na última terça-feira em solenidade do SAAE MG onde foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, os 35 anos do Sindicato e o lançamento do livro “As Margaridas”.
O meu cordial boa noite.
Ao abraçá-los, fraternalmente, externo-lhes a minha emoção por ter o privilégio de participar desta belíssima e inesquecível solenidade, que, com certeza, será por nós lembrada por todos os nossos dias vindouros; por estar em Minas Gerais, terra com quem mantenho laços indissolúveis, por ser a de meus pais, e por ser aqui que fui dado à luz, ao nascer; terra de muitas tradições e feitos imortais, principalmente, o brado de liberdade, consagrado na perene palavra de ordem dos inconfidentes, libertas quae sera tamen; terra de Guimarães Rosa e de muitos outros baluartes da literatura e da política.
Cumprimento a minha querida amiga Rogerlan, pelo trabalho à frente do SAAE, pelo evento, pelo livro, e por me dar a subida honra de dele participar e por estar aqui, nesta noite memorável.
Confesso-lhe, amiga Rogerlan, que na minha modesta, mas já longeva vida, recebi muitas graciosas e inesquecíveis homenagens e honrarias. No entanto, nenhuma me tocou tanto, como esta que você me concedeu, que é a de ser partícipe inapagável da história do SAAE, por meio da singela introdução do livro que ora se lança.
Obrigado, amiga.
Cumprimento, com igual denodo, o meu dileto amigo João Batista, companheiro da hora, e para todas as horas, há mais de três décadas.
Cumprimento todos os diretores do SAAE, amigos e companheiros de grandes jornadas; e todos os presentes.
Hoje é dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher; dia em que todos quantos cultuamos a justiça, no mundo inteiro, renovamos o nosso inarredável compromisso com a construção de um novo mundo social, que tem como meta primeira e maior a igualdade efetiva, sem senões e/ou qualquer restrição – seja de que natureza for –, entre homens e mulheres; pois que esta igualdade é a pedra de toque para a liberdade consciente e construtora.
Enquanto uma só discriminação existir, a sociedade não será livre.
E ao renovarmos este nosso compromisso, reverenciamos aquelas mulheres, quase sempre anônimas, que ao longo da construção da humanidade, nos antecederam, chegando a dar a própria vida em prol da igualdade sob comentários; tendo como símbolo maior as operárias nova-iorquinas, que, em 1857, portanto, há exatos 159 anos, foram queimadas em uma fábrica naquele estado dos EUA, pelo único crime de lutar por condições de trabalho mais humanizadas, para homens e mulheres, como, por exemplo, a jornada de trabalho de dez horas – as condições daquela época eram desumanas.
Foi a partir da imolação das 130 operárias, na referida fábrica, que a humanidade, de fato, começou a acordar da tragédia que acomete há milhares de anos, e que ainda hoje perdura, em maior ou menor medida, em todos os 193 países filiados à Organização das Nações Unidas (ONU).
A desumana discriminação da mulher é tão antiga e enraizou-se de tal modo, no seio da humanidade, como tentáculos profundos e sedimentados, que ao longo de muitos séculos, foi tida e havida como natural, ou seja, inerente à condição humana; o que, desalentadoramente, ainda subsiste, em alguns lugares.
O grande e imortal lutador pela causa social – em seu País, o Uruguai, e no mundo todo, entusiasta da causa primeira da humanidade, que é igualdade ora sob discussão –, jornalista e historiador Eduardo Galeano, com a sua refinada ironia, em seu livro “Filhos dos Dias”, ao falar do dia de hoje, 8 de março, registra a odiosa tentativa de naturalizar a discriminação feminina, na construção social, com as estúpidas e recorrentes metáforas, com as quais nomes famosos da história buscaram justificá-la.
Começando por Aristóteles, para quem a mulher é um homem incompleto; outra, de Tomaz de Aquino, que considerava a mulher como um erro da natureza; a terceira, de Martinho Lutero, que dizia que os homens têm ombros largos e cadeiras estreitas e são dotados de inteligência. As mulheres têm ombros estreitos e cadeiras largas, para ter filhos e ficar em casa; ou seja, não possuem inteligência.
Para Artur Schopenhauer, a mulher é um animal de cabelos longos e pensamentos curtos; para a Bíblia, Yahvê disse à mulher, teu marido a dominará; e Alá disse à Maomé, segundo o Corão: As boas mulheres são obedientes.
Felizmente, na maioria dos países, este odioso estigma não é mais do que triste chaga do passado; mas, muitos continuam ainda acreditando que as desigualdades sociais são inerentes à natureza humana, o que, se verdade fosse, as tornariam imutáveis.
Quem se der ao trabalho de estudar a história da humanidade encontrará fidedignos registros de que as realçadas desigualdades são produtos da história; e, por isto, indiscutivelmente, são superáveis.
O filósofo alemão Friedrich Engels em seu imortal livro “A origem da propriedade privada e do Estado”, com base em criterioso estudo realizado por Morgan – que viveu 50 anos entre os índios iroqueses –, demonstra e prova que as desigualdades entre homens e mulheres nasceram e desenvolveram-se a partir do surgimento da propriedade privada; até então, em todas as sociedades, a mulher estava em absoluta igualdade com os homens, em todos os aspectos da vida social.
Destarte, se a repudiada desigualdade é produto da história, cabe a esta enterrá-la, sem pompa e sem ressentimento; o que se busca há milhares de anos, e só será possível com a luta sem trégua contra a sua causa principal, pois que a igualdade plena, que nos alimenta e nos move, somente será realidade em um novo contexto social, sem exploradores e explorados.
Para conquistá-la, devemos acreditar que ela é possível, parafraseando Milton Nascimento, em sua belíssima música Maria Maria, não podemos perder a estranha mania de ter fé na vida; ou, dito em outras palavras, não podemos esmorecer. Aliás, este verbo é incompatível com a construção da humanidade.
Se para o cristão, a Páscoa é o momento maior de sua fé e de suas crenças; e, para o católico, o Dia de Pentecostes é o dia da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos; para os que cremos e almejamos a construção da igualdade plena entre homens e mulheres, o dia 8 de março continuará sendo de reflexão e luta pela sua construção; ao tempo em que reverenciamos as abnegadas lutadoras, que fizeram desta causa a sua razão de viver.
Mas, lutemos, para que o martírio de Margarida Maria, que deu nome à marcha pela igualdade e inspira este magnífico livro, que ora se lança, não seja mais necessário; não mais se repetindo; ficando tão somente como triste memória de um tempo remoto, que sobrevive como registro histórico, e nada mais.
Que assim seja.





