Como o Partido Digital Bolsonarista alavancou a extrema direita no Brasil

Por André Cintra

O bolsonarismo desenvolveu uma nova forma de partido político adaptada à era das plataformas digitais. Sua aparência na rede social é caótica, como se influenciadores raivosos atirassem para todos os lados. Mas o que parece caos tem método e o que parece espontâneo tem direção. O Partido Digital Bolsonarista (PDB) se tornou uma das mais sofisticadas experiências organizacionais da extrema direita contemporânea.

Essa é a tese central de O Partido Digital Bolsonarista (2026), recém-lançado em formato de e-book pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo Centro para Imaginação Crítica (CCI). Organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira, o livro é fruto de uma ambiciosa pesquisa para compreender o funcionamento político, organizacional e comunicacional do bolsonarismo.

De acordo com o livro, por trás da aparência de desordem na extrema direita, há uma estrutura não institucionalizada, mas altamente organizada, disciplinada, hierárquica e voltada à conquista do poder. É essa estrutura que os autores chamam de Partido Digital Bolsonarista.

O livro é resultado de três anos de uma pesquisa coletiva que resultou numa obra integrada. Cada capítulo é uma etapa da explicação unificada do fenômeno do Partido Digital Bolsonarista. As virtudes do projeto são muitas, com destaque para a originalidade conceitual, a densidade empírica e a coragem analítica. Mas suas limitações precisam ser apontadas para que o diagnóstico não se converta em profecia autoconfirmada.

O partido que nasceu digital

No capítulo 1 – que estabelece os alicerces teóricos da obra –, Leonardo Martins Barbosa e Marcos Nobre fazem uma revisão crítica da literatura sobre partidos. Eles mostram como as teorias dominantes, ancoradas no modelo schumpeteriano de democracia, não têm ferramentas para apreender o fenômeno bolsonarista.

O surgimento do partido operário de massas, no final do século 19, foi possível pela expansão da educação e do jornal de grande tiragem. O rádio e depois a televisão transformaram os partidos tradicionais à sua imagem. Agora, numa nova ruptura de paradigma, impulsionada pela internet e pelas redes sociais, o partido digital representaria uma metamorfose da própria forma do partido, bem como da democracia contemporânea.

Hoje, segundo os autores, há partidos-plataforma, como o Piratenpartei alemão e o Movimento Cinque Stelle italiano, que organizam sua estrutura em torno de uma plataforma digital própria e buscam institucionalização formal. E existe o partido digital propriamente dito, constituído inteiramente fora das instituições democráticas vigentes, sem compromisso com suas normas e sem pretensão de se institucionalizar dentro delas.

É o caso do Partido Digital Bolsonarista, que nasce da lógica das plataformas digitais, à margem do sistema partidário. A existência do PDB não depende de estatuto, CNPJ ou registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A dinâmica decisória e a construção de autoridade se dão, acima de tudo, no ambiente digital. A capacidade de mobilização é comparável – e, em alguns aspectos, superior – à das legendas tradicionais. A diferença é que, por sua informalidade, o partido digital escapa aos mecanismos clássicos de regulação eleitoral, não presta contas à Justiça como uma legenda formal, não realiza convenções e pode atuar simultaneamente em diferentes siglas sem perder unidade programática.

O livro demonstra com competência que existe uma efetiva coordenação política entre influenciadores, parlamentares, militantes digitais e agentes ideológicos da extrema direita. Essa coordenação aparece tanto na circulação sincronizada de pautas quanto na produção de narrativas comuns, na disciplina interna e nos mecanismos de punição contra dissidentes. O PDB usa as ferramentas digitais para a mobilização permanente, o ataque institucional e o controle ideológico.

A conclusão – uma metamorfose do governo representativo que os autores propõem chamar de “democracia do digital” – é instigante, mas carece de desenvolvimento. Embora o livro mencione experiências internacionais, faltam comparações mais robustas com outras direitas contemporâneas. A fragmentação das democracias, a crise dos partidos tradicionais e a erosão das mediações institucionais clássicas são fenômenos globais – e a extrema direita, em diferentes países, soube explorá-los com estratégias análogas.

Nos Estados Unidos, Donald Trump submeteu o Partido Republicano a uma lógica de hiperpersonalização e mobilização digital permanente. Na Hungria, Viktor Orbán transformou o Fidesz numa engrenagem híbrida entre partido, Estado e máquina ideológica. Na Argentina, Javier Milei chegou ao poder apoiando-se muito mais em carisma midiático e circulação digital do que em uma estrutura partidária robusta. Em contextos distintos, lideranças como Giorgia Meloni e Narendra Modi também combinaram plataformas digitais e lideranças fortes para corroer as mediações tradicionais da democracia liberal.

O PDB, nesse cenário, parece menos uma ruptura inédita e mais a variante brasileira de uma transformação internacional mais ampla. O livro menciona brevemente a experiência dos “partidos-plataforma”, mas ignora essa cartilha. É uma opção controversa ante a ambição teórica da obra.

Arquitetura interna

No capítulo 2 – o mais original do livro –, Paulo Yamawake mostra como o bolsonarismo construiu estruturas próprias de pertencimento e autoridade que dispensam a filiação partidária formal. Sem estatuto ou diretório, a hierarquia se organiza por reputação, engajamento, capacidade de mobilização e influência dentro do ambiente digital.

Inspirado em Albert O. Hirschman, o autor propõe a noção de “cadeias de lealdade” para explicar essa arquitetura de poder do PDB. Em vez de correntes partidárias formais e uma base de filiados, o que se tem são redes de fidelidade que conectam influenciadores, parlamentares, produtores de conteúdo e a militância. É uma estrutura flexível, mas disciplinada e coesa.

Nenhum ator do PDB é entrevistado, o que enfraquece um pouco o coração do livro. O desenho do modo de funcionamento das “cadeias de lealdade” ganharia contundência caso também revelasse o que se passa nas negociações privadas e nos grupos fechados de WhatsApp e Telegram. Se a base do modelo é Hirschman (voz x saída) e não há acesso à voz nos bastidores, fica difícil saber se a lealdade é realmente o que o livro descreve ou se há outros mecanismos (medo, coerção ou dependência material) que o modelo não captura.

Ainda assim, o capítulo dá pistas originais sobre as engrenagens bolsonaristas. Um mesmo ator pode pertencer a múltiplas cadeias simultaneamente – algo impensável num partido tradicional – e a posição na hierarquia é definida pelo cruzamento dessas cadeias, não por mandatos ou diretórios.

Como não há filiação, o custo de entrada é baixíssimo. Mas o custo de saída pode ser proibitivo: quem rompe com o PDB invariavelmente perde alcance, audiência e visibilidade, o que na lógica digital equivale à morte política. A disciplina partidária é aplicada por exposição pública, linchamento virtual e cancelamento. As trajetórias de Joice Hasselmann, Alexandre Frota e Abraham Weintraub, detalhadas no capítulo, ilustram esse mecanismo punitivo.

A coordenação nas redes

Os capítulos 3 e 4, de Mércia Alves e Carol Luck, transitam do modelo teórico para a evidência empírica, dando exemplos de como se produz a coordenação digital sem um comando central visível. As autoras analisam dados de semanas específicas de alta mobilização em 2024: o debate sobre a “saidinha”, o PL antiaborto, as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, a ascensão de Pablo Marçal e as eleições municipais.

A convergência aparece em padrões: sincronização de postagens, repetição de repertórios e circulação simultânea de conteúdos em plataformas distintas. Essa estrutura em rede aprende por tentativa e erro, mas sustenta o alinhamento mesmo sob pressão. Cada plataforma cumpre uma função específica para o PDB: o Instagram estabiliza a identidade visual, o TikTok amplifica pautas novas, o YouTube consolida autoridade narrativa e o X disputa a agenda em tempo real.

O quarto capítulo aprofunda a questão do poder interno. Afinal, quem manda no PDB? Na avaliação de Mércia e Carol, não há um comando centralizado, mas há hierarquia. As autoras também citam o embate entre o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) e o senador Cleitinho (Republicanos-MG) sobre a candidatura presidencial contra Lula em 2026. Segundo elas, a dissidência é tolerada até um “ponto de ruptura”, nos termos de Hirschman. Cleitinho contestou a estratégia de Eduardo, chegou perto da ruptura, recuou, pediu desculpas diretamente a Jair Bolsonaro e preservou sua inserção nas cadeias de lealdade.

O 7 de Setembro como convenção partidária

O quinto capítulo acompanha os atos de 7 de Setembro de 2021 a 2025 e é uma joia analítica. Mércia e Carol os equiparam a uma convenção partidária do PDB. É o momento em que a hierarquia se torna pública – no controle do trio elétrico, na definição de quem sobe ao palanque, na exclusão de Pablo Marçal em 2024 e em outras iniciativas. O rito também expõe a elasticidade da organização: em 2023, o boicote coordenado transformou a ausência em gesto político.

Teste de mobilização física do bolsonarismo, o 7 de Setembro força as cadeias de lealdade a demonstrarem sua força de convocação. Ao levar milhares de pessoas às ruas, o bolsonarismo prova que o engajamento online se traduz em poder real – e que a dicotomia entre digital e presencial é falsa. O PDB usa as redes para organizar corpos no espaço físico, ao passo que os corpos no espaço físico retroalimentam as redes.

Do ponto de vista analítico, falta atenção aos segmentos que, ao menos em parte, sustentam tamanha mobilização. As plataformas digitais potencializaram o bolsonarismo, mas não criaram sozinhas sua base social. O movimento se enraizou por meio de igrejas evangélicas, frações empresariais, setores policiais, redes conservadoras locais e formas concretas de sociabilidade já existentes. No caso dos evangélicos, o bolsonarismo cresceu não apenas por influência digital – mas porque encontrou nas igrejas espaços permanentes de sociabilidade, pertencimento, acolhimento e autoridade moral. A base material e comunitária ultrapassa amplamente o ambiente online.

O livro privilegia os segmentos mais organizados e ideológicos do PDB. Esse recorte produz um retrato muito sólido do núcleo militante, mas menos eficaz para compreender a totalidade do eleitorado bolsonarista. Milhões de eleitores conservadores ou antipetistas votaram em Bolsonaro sem qualquer inserção orgânica nesse universo digital altamente coordenado.

Os pesquisadores são extremamente competentes em quantificar volumes de postagens, robôs e nós de rede. Por outro lado, falham ao estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o barulho das bolhas virtuais e a conversão real de votos no eleitorado médio não engajado – que decide seu voto por fatores como o preço dos alimentos e a percepção de segurança.

O financiamento fora do radar

O capítulo 6, de Mércia Alves, fala do dinheiro. O bolsonarismo acumulou um trunfo estrutural por atuar fora dos mecanismos tradicionais de controle partidário. Ao entrar em campanhas eleitorais, o campo bolsonarista já dispõe de audiências fidelizadas, redes ativadas, engajamento permanente e enorme capacidade de circulação algorítmica.

A análise combina declarações ao TSE, dados da Biblioteca de Anúncios da Meta e informações públicas sobre estruturas empresariais dos principais agentes do PDB. A vantagem competitiva não está nos gastos eleitorais formais, pois o PDB não destoa dos padrões médios. O impulsionamento de conteúdo nas eleições de 2022 representou entre 4% e 5% das despesas de campanha, um índice compatível com os de outros partidos. Para o bolsonarismo, o que vale é a infraestrutura de circulação acumulada antes do início oficial da campanha.

A Brasil Paralelo, produtora fundada em 2016, gastou cerca de R$ 26,6 milhões em mais de 75 mil peças publicitárias entre 2020 e 2024. O valor corresponde a quase 80% do total investido pelo campo conservador na categoria “Sociedade” na Biblioteca da Meta. O campo progressista, no mesmo período, investiu menos de um terço desse valor – e de forma fragmentada, sem convergir em circuitos contínuos de propagação.

Esse modelo de financiamento escapa à fiscalização da Justiça Eleitoral, mas não é caixa 2 ou outra prática ilegal. O PDB ativa criadores de conteúdo, influenciadores e canais informativos que moldam a opinião pública fora dos períodos eleitorais formais, sem estarem sujeitos aos rigores da prestação de contas. É muito difícil enquadrar uma campanha permanente financiada por circuitos que a legislação eleitoral simplesmente não alcança.

A expansão da extrema direita dependeu diretamente da ausência de regulamentação das plataformas digitais. Durante anos, as big techs usaram a retórica da neutralidade tecnológica enquanto lucravam com modelos de negócio baseados em polarização, viralização e estímulos emocionais permanentes. O bolsonarismo soube ocupar esse ambiente antes dos partidos tradicionais, transformando as redes em território permanente de organização política.

O capítulo minimiza o peso dos financiadores do bolsonarismo e das próprias plataformas. Embora sejam muito bem descritas pela autora como território e estejam mais alinhadas à extrema direita internacionalmente, as plataformas tomaram decisões que afetaram diretamente o PDB, como a suspensão de contas após o 8 de Janeiro e as mudanças de política de moderação do X sob Elon Musk. Mesmo as gigantes de tecnologia mudam suas regras e respondem à pressão regulatória.

Sobre o financiamento, sabemos que a infraestrutura de redes bolsonaristas é lubrificada pelo dinheiro de frações de classe muito concretas. O Fundo Partidário e o Fundo Eleitoral correspondem a uma parte ínfima da sustentação do bolsonarismo. O caso do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro orçada inicialmente em US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões), indica esse padrão atípico para um campo político.

Ao focar essencialmente na dinâmica das telas, a obra arrisca idealizar o fenômeno, tratando o PDB como se ele se sustentasse apenas pelo fervor ideológico ou pela superioridade técnica. E o papel do poder econômico? E o financiamento empresarial massivo? A Brasil Paralelo é bancada por quem? O agronegócio tem representação direta no PDB? Os setores militares e policiais atuam como financiadores ou como ativos políticos? Tais perguntas ficam sem resposta, e essa é uma lacuna que pesquisas futuras precisarão preencher.

A arena eleitoral e o Congresso

Os dois últimos capítulos, de Daniela Costanzo, deslocam o olhar para as interfaces institucionais do PDB. O capítulo 7 analisa as eleições municipais de 2024, em que o bolsonarismo se apresentou de forma coesa e centralizada, concentrado sobretudo no Partido Liberal (PL). A legenda ampliou sua presença nas cidades, cresceu no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, alterou seu perfil e passou a priorizar chapas “puro-sangue” como estratégia de demarcação ideológica.

Para os concorrentes do PDB, os ganhos foram mais limitados: a taxa de sucesso foi inferior à de MDB, PSD e PP, e os candidatos majoritários do bolsonarismo encontraram uma barreira de rejeição nos segundos turnos. De acordo com Costanzo, o purismo ideológico e a radicalização doutrinária que fortalecem o PDB nas redes também o enfraquecem onde são necessárias coalizões amplas.

O capítulo 8 mostra como o PL se dividiu em dois corpos que coabitam a mesma sigla: uma ala tradicional do Centrão, fisiológica e governista, e uma ala do PDB, majoritária, radicalmente oposicionista e digitalmente hiperativa. A correlação entre governismo baixo e número de seguidores no Instagram é estatisticamente significativa: quanto maior a presença digital do deputado do PL, mais ele vota contra o governo Lula.

Os dados confirmam que o desembarque do PDB subverteu a lógica histórica do PL, transformando uma agremiação do Centrão pragmático em vetor de oposição sistemática. Um exemplo recente – e posterior à edição do livro – mostra a conversão: o PL e o Novo foram os únicos partidos na Câmara que orientaram voto contra a PEC que reduz a jornada semanal para 40 horas e dá fim à escala 6×1. Dos míseros 19 votos contrários à proposta, nove foram de deputados do PL. Ainda assim, por pragmatismo diante de uma medida tão popular, o PL entregou 83 votos a favor.

Méritos e lacunas

O Partido Digital Bolsonarista é leitura obrigatória para compreender a extrema direita brasileira contemporânea. Seu diagnóstico central – a existência de uma estrutura política paralela que atua nas redes com disciplina e coordenação – é empiricamente sólido. O livro oferece pelo menos duas lições para o campo progressista.

Primeira lição: a campanha permanente não é opcional. O PDB não espera o período eleitoral para construir visibilidade. Sua vantagem competitiva é acumulada fora do calendário oficial. A disputa ideológica nas redes deve ser diária. A esquerda precisa investir em comunicação contínua e em capital algorítmico que não se esgota no horário eleitoral gratuito.

Segunda lição: a regulação das plataformas é uma arena de disputa central. O PDB existe, em parte, porque a lei permite. Lutar por transparência algorítmica, limites ao impulsionamento político e identificação de redes de financiamento é condição mínima para que a competição democrática não ocorra em um campo de jogo irremediavelmente assimétrico.

Ao lado desses méritos, o livro apresenta lacunas importantes. Ao combater a velha subestimação progressista das redes sociais, a obra resvala no extremo oposto, sugerindo que o domínio do ambiente digital já é o centro da política contemporânea.

Como explicar, então, os fracassos do bolsonarismo digital? Os autores enfatizam bastante as capacidades organizativas do PDB, mas menos suas contradições e derrotas. A extrema direita falhou em impedir a posse de Lula e em obter apoio internacional após o 8 de Janeiro. Os autores podem dizer que essas batalhas foram secundárias, o que não deixa de ser verdade.

Mas o resultado da eleição presidencial de 2022 – o maior teste de estresse disponível para a hipótese do PDB – também contradiz o livro. Bolsonaro buscava a reeleição com uma máquina digital desenvolvida, funcionando em plena capacidade. A campanha de Lula, em contrapartida, tinha uma infraestrutura digital precária, reconhecidamente inferior em sofisticação, alcance e organicidade. Mesmo assim, deu Lula.

O que houve? A resposta implícita – “por margem apertada, menos de 2%” – é insuficiente. Não que as redes sociais sejam desprezíveis – o livro comprova sua relevância crescente. Mas talvez avance demais quando sugere a inevitabilidade histórica da “democracia do digital”. A vida política concreta continua sendo mais complexa.

As razões da derrota maior do PDB

Embora o digital importe cada vez mais, Lula venceu em 2022 porque as instâncias tradicionais da política ainda pesam na definição do voto. A hegemonia digital não substitui automaticamente dimensões como identidade de classe, memória social, experiência material de governo, alianças institucionais, sindicatos e movimentos sociais, presença territorial, televisão, religiosidade popular e percepção econômica.

O livro analisa o desempenho bolsonarista no Congresso e nos estados como evidência de força, mas não enfrenta diretamente o que a derrota presidencial significa para a tese. A justificativa implícita dos autores – a de que o PDB age no longo prazo e que um resultado eleitoral não invalida a análise estrutural – é defensável. Mas precisa ser dita com todas as letras. Omiti-la deixa uma vulnerabilidade aberta. Lula, aliás, segue como favorito nas pesquisas para 2026. A vantagem estrutural do PDB, real e documentada, coexiste com limites eleitorais que o livro poderia ter medido com mais cuidado.

Em consequência dessa omissão, sobrevém o ponto mais problemático: a tentação de proclamar que o futuro da política pertence inevitavelmente aos partidos digitais. Os autores admitem que a ênfase na lógica de rede como caminho necessário não anula o que as experiências concretas ainda ensinam sobre organização política. Mas o livro vai melhor na descrição do problema do que na proposição de alternativas.

A prescrição de um “partido digital progressista”, apesar de ser mais insinuada do que literal, fica subdesenvolvida. Só que a mera sugestão de mimetizar o adversário e virtualizar o campo progressista soa como uma concessão perigosa e um atestado de óbito precoce das legendas tradicionais.

Conforme o próprio livro, as igrejas evangélicas, um dos principais redutos bolsonaristas, provam que infraestrutura física, territorialidade e encontro presencial produzem poder político duradouro, às vezes mais resistente do que o engajamento volátil das plataformas. O digital é apenas o acelerador; a base ainda é analógica. Ademais, o próprio 7 de Setembro, analisado no capítulo 5, demonstra que o PDB precisa da rua para validar o digital, não o contrário.

O futuro não será marcado pela substituição da política social pela política digital – mas, sim, por uma disputa entre modelos híbridos de organização. Quando o livro deixa no ar a necessidade de um “partido digital progressista”, há o risco de transformar a necessária adaptação tecnológica em capitulação estratégica à lógica das big techs. A esquerda dificilmente sobreviverá se ignorar a ofensiva do digital, mas pode cometer um erro ainda mais grave se concluir que organização territorial, formação política, sindicatos e trabalho de base se tornaram obsoletos.

Depois do patriarca

O livro radiografa o bolsonarismo num momento de máxima expansão. A análise empírica se concentra pesadamente em 2024 e no início de 2025, capturando o pico da organização bolsonarista após a derrota de 2022 e antes da prisão de Jair Bolsonaro. Mas movimentos políticos costumam mudar rapidamente quando saem do ciclo ascendente. Como boa parte de sua coesão se deve à figura do ex-presidente, a hipótese do “partido digital” pode enfrentar dificuldades futuras.

O ex-presidente, em prisão domiciliar e com a saúde abalada, mal consegue arbitrar a contenda entre a mulher, Michelle, e o filho 01, Flávio. Não está claro se o PDB terá capacidade duradoura de sucessão e mecanismos estáveis de renovação diante do enfraquecimento político e da inelegibilidade de seu líder máximo. Se continuar a depender essencialmente da autoridade simbólica do patriarca, o bolsonarismo não sobreviverá como uma estrutura tão autônoma e resiliente quanto o livro indica.

Da parte da esquerda, o desafio em 2026 é combinar presença digital competitiva com reconstrução de vínculos sociais, organização territorial e capacidade de produzir comunidade política para além dos algoritmos. Aos que se preparam para enfrentar Flávio Bolsonaro em outubro, o livro entrega um mapa – incompleto em alguns trechos, com algumas legendas imprecisas, mas muito melhor do que navegar sem nenhum. É necessário aprender com o adversário sem se tornar o adversário.

Obras prudentes demais raramente culminam em discussões relevantes. À parte suas limitações, O Partido Digital Bolsonarista estimula o debate porque formula uma hipótese abrangente e provocadora. O adversário na disputa presidencial de 2026 não é o candidato com sobrenome conhecido: é uma organização que age num ambiente que a legislação ainda não regula e que a esquerda precisa enfrentar. Entender como o PDB funciona, sem fetichizá-lo, é o pré-requisito para começar a resolver o problema.

* André Cintra, jornalista, é editor-adjunto do Portal Vermelho

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